domingo, 23 de setembro de 2018

Vultos

     A mulher no corredor foi apenas a segunda mulher que amei. Às vezes os insanos me pedem para explicar... Como se cheiros, sensações e impressões pudessem mesmo ser resumidas. Não podem. Quiçá poderão ser descritas? Não, não podem. Defini-la ou definir-me no meu estado de torpor é apenas um jeito inédito de perder tempo, mas se o tempo também é meu, desperdiço-o como quiser. Se acaso sugerir que as estrelas falam, você acreditaria em mim? Há quem diga que estourar plástico bolha é relaxante, mas você seria capaz de convencer alguém disso? Explicado este fato, apresento aqui, na medida do possível, todas as verdades quais eu pude absorver em um momento de epifania. Contarei de como ela foi capaz de me fazer suprir a ausência que sinto de mim mesmo. Minha própria maneira de estourar bolhas. Falar sobre a segunda mulher que amei seria impossível até mesmo para Tom Cruise, mas amá-la, por outro lado, é uma missão acessível até mesmo para Robinson Crusoe. Ressalto, porém, antes do inevitável sobressalto: não pergunte quem ela é.
     Você vai pensar que eu enlouqueci, eu sei, mas confesso que, na verdade, foi pelo vulto dela que me apaixonei. Cada dia seu andar tinha uma postura diferente e eu? Abarcava tudo o que podia enquanto me enchia por meros lampejos de felicidade adolescente. Não, os vultos nunca mentem e minha animosidade jamais arrefecia quando se deparava com eles. Respirava fundo, acelerava meus passos, ansioso para tornar a imaginação em figura. Quando o rosto finalmente era revelado, aquela velha sensação se quebrava e me dominava a amargura. Um conselho fossilizado ressoa na consciência: nem mesmo a ilusão perdura. Retiro meu chapéu invisível e faço uma mesura. A mulher passa e no corredor do hotel a luz fraca revela sua pálida brancura. Deve ter pensado que eu estava embriagado. Sorrio e insinuo minhas desculpas. “Eu te confundi ainda agora com alguém. Perdão, senhorita. Boa janta e fique bem. Não sou quem você procura”. Esta era simpática e recompôs sua postura. Estava de calça de couro, mas imitou uma antiga dama. A delicadeza dos movimentos numa pintura. Toda mulher sabe como tratar quem do jeito certo a ama. Compreendem melhor que os homens que nem tudo que é belo perdura.
     A rotina de uma semana gira em loop em minha cabeça. Vou narrar um pouco desta aventura, antes que eu me esqueça. Os dias parecem iguais, mas são sutilmente diferentes. O segredo para se adaptar é acreditar que nada é permanente – nem mesmo o que se passa no coração inocente. Descia mais cedo que todos – todos os dias. Gosto da minha particularidade nos cafés da manhã, mesmo entre os desconhecidos novos colegas. Todo mundo merece ser aplaudido de pé ao menos uma vez na vida? Auggie tem razão, mas tenho minha própria opinião e vou dizê-la. Pois bem, acredito que todos mereçam uma semana de café da manhã reforçado em uma boa rede de hotelaria. Cheguei junto dos velhos enrugados e narigudos; mal vejo a hora de ser um deles. No metodismo nos equiparamos: minhas refeições são sempre iguais: café, ovos, lingüiça, bolo de laranja, bolo formigueiro e um croissant. É preciso homenagear os franceses de quando em quando. Os velhos parecem retratos nas paredes, incorrigivelmente repetitivos em suas posturas curvadas e tortas, mas uma criança chuta a porta de uma reluzente Mercedes e aparentemente ninguém se importa. O garoto desafia a observação dos poetas: a constatação é que todo pequeno nasce asceta. Ignoro o menino, mas não recuso o aprendizado. Só pais de comportamento viperino criam um garoto tão mimado.
     Subo para o meu quarto. Peguei uma maçã para comer mais tarde. Percorro o corredor enquanto finjo que sou um arremessador, mas subitamente paro. Uma mulher vem andando distraidamente. Conheço-a pelo faro. É mais sonhadora que eu... Seu vulto parece com a alma do universo. Quando seu rosto se revela, ela me lança uma estranha olhadela e pergunta do que eu preciso. A pergunta vaga me faz viajar, mas observo atento que ela não tem a magia que procuro no olhar. Deixo escapar um largo sorriso. “Obrigado, mas você não é quem estou a procurar”. Afinal, eu havia enxergado errado. O universo não estava ali. No dia seguinte o vulto da mulher se aproximou com pressa. O jeito de andar exalta que ela é alguém que só baixa os olhos para o que a interessa. Os passos barulhentos do salto alto pisam em qualquer encanto ou feitiço ancestral. De que adianta procurar em um robô, qualquer resquício da inocente vestal? Eu teria interesse nesse tipo de mulher, afinal? Seria mais fácil se eu estivesse procurando alguém de verdade.
     Tudo isso aconteceu em apenas uma semana. Eu me encantei com os diferentes formatos de imaginação reproduzidos no corredor. Juro que falo a verdade, embora não necessite do consentimento de vocês. O pragmatismo estava me matando e a sensação crescente de tumulto me fazia sentir vontade de sair correndo até me cansar. Consolei-me ao ler diários de homens e mulheres jamais compreendidos. Seria bom ter alguém para abraçar hoje ou apenas alguém para me ouvir falar debilmente sobre meus livros favoritos, mas tudo bem. Seria bom planejar o roteiro da viagem ao Japão, mas tudo bem. Seria bom sonhar que meus livros podem mudar o mundo e encontrar convicção em um olhar gentil e astuto. Eu diria Geffenia e você iria entender. Há sorrisos tão preciosos que, ainda que os veja uma vez a cada dois anos, enchem-me o coração de recordações luminosas. Conforto-me com as lembranças de uma felicidade pueril que talvez eu jamais possa recuperar. Faço perguntas e não confiro as respostas. Quero que digam, mas nem sempre quero saber. Transtorno pessoal, normal, quem liga para o que vai acontecer?
     Talvez tenha apelidado uma Gabriela de Ana, uma Isabela de Júlia e uma Beatriz de Michele, mas unicamente pelo pretexto de que não sabia seus nomes e honestamente nem queria saber. Desculpe se pensei nestes nomes de maneira errônea. Não esquecer é uma regra do meu coração. Quando digo os nomes em sussurros secretos, sinto-me um andarilho discreto, hábil em disfarçar minha solidão. Seria incrível não estar sozinho esta noite, mas tudo que eu possuo são espaços calculados para abrigar minha tristeza. Contemplativo, percorro minha vida desde o momento em que minhas memórias são exatas e precisas. Basta de imaginação. Preciso arrumar o rumo de minha vida, reflito quando me surpreendo com o tardar da hora. Entro em luto após mais uma despedida. Quem eu fui um dia está morto agora.
     Terei de fazer um breve resumo sobre as últimas situações, pois não sou suficientemente hábil ou talentoso para prender pessoas livres aqui por um período longo. A sombra da quarta mulher me deslumbrou; a da quinta me ofendeu; a da sexta me paralisou e a com a da sétima, eu chorei. Todas as mulheres possuíam diferentes aparências e essências, mas seus vultos eram quase idênticos. Deslumbrantes e capazes de tudo. Não me assustavam, mas me deixavam extasiado. Não havia façanhas impossíveis para elas. Enfim, agora chegava o momento de me despedir daqueles corredores escuros quais diversos vultos me desafiavam ao amor. Orgulhoso, aceitei o desafio, ainda que incerto sobre meus atos. Amei tantas sombras desconhecidas, ainda que ninguém tenha visto de fato. Às vezes é uma maldição ser alguém com pouco tato. Ainda que a alma seja nobre, eles te insultarão por ser miseravelmente pobre... Vil sonhador barato.
     Despedi-me do hotel e com a partida me despi de uma semana de solidão. No aeroporto carreguei o segredo da vida. Todos que entravam em contato comigo, presenteavam-me com diversos sorrisos e secretas orações. Suponho que por algumas horas, eu mesmo tivesse olhos mágicos. No Mc, uma mulher de verdade, muito mais que um vulto, tirou os sapatos para apoiar os pés no sofá. Cem mil vezes mais que uma sombra. A sua atitude demonstrava personalidade. Na pressa de retornar à minha cidade e no desespero de amar alguém que fosse mais que um mero vulto, eu me contentei em admirá-la discretamente. As mulheres já sofrem o bastante para terem de lidar com os curiosos e intrometidos. Ela estava relaxada e eu não queria estragar isso. Além do mais, eu ansiava mesmo em retornar à minha cidade. Decidi seguir o meu percurso. A vida se acelera e os minutos passam mais rápido. Logo será o dia das bruxas, o dia dos mortos e o dia do natal. Logo quem nasceu em 1989 terá 30 anos e os de 1992 pensarão que são velhos arrelientos. Logo tudo vai mudar e todos os momentos bons de agora vão se perder em um buraco negro. Terá de reaprender a ser feliz com uma vida completamente nova, que hoje o enche de medo. Sento-me vagarosamente no assento 17D. Sinto um estremecimento acompanhado pela pesada vibração do avião. Este pássaro de metal corta o vento enquanto devaneio sobre novos roteiros de ficção. Amanhã é sábado e depois é domingo e depois outubro. A vida passa e não encontro um sentido para tudo o que eu faço. Isso me relaxa... Às vezes é melhor não ser tão cheio de si. Observo pela janela as luzes das cidades durante o caminho. Penso nas pessoas que amo e nos desconhecidos que quero amar. É a sina de quem é assim tão sozinho...
     Dou nome a todas as coisas, exceto à segunda mulher que amei. Não sei dizer se foi engano, mas o amor não segue qualquer plano. Digo com segurança que ainda prefiro amar, ainda que o objeto de tanto amor seja uma ilusão. Não há vergonha em não ser completamente são. Quem sabe um dia, eu possa ser sólido e capaz de voar; ao mesmo tempo conseguir agüentar; raramente oscilar... Como faz todo e qualquer avião. Ah, mas é incrível o que se observa quando sobrevoa uma estrada qual costumava percorrer andando ou dirigindo. Sob novas perspectivas você conclui que o mundo é lindo. Quando menos se espera a gente se pega sonhando e sorrindo. Pensando em todos os amigos e amores ou em como nossas vidas são fugazes; em refeições maravilhosas ou bebidas quentes compartilhadas com amigos em bares; em dragões, furacões, verões e também nos antigos lares; na solidão necessária para o crescimento ou na provocação fundamental para o enfrentamento. Por fim, penso naquela que um dia foi a mulher da minha vida; aquela que amei mais do que a mim mesmo. Em seguida, eu penso em centenas de vultos que me bagunçam e me fazem querer vagar a esmo. Continuo sendo decente e ridículo. Nunca fui suficientemente bom para qualquer outro, exceto eu mesmo. Tento revelar a face de cada vulto, mas cada vulto se revela em seu próprio tempo. Queria poder amar todas essas sombras agora, mas suponho que deva esperar pelo devido momento. Sigo fazendo o que posso e se não for o bastante hoje, amanhã novamente eu tento.
Galera, você também me dá uma força seguindo a página drp0etry lá no Instagram. Pode acessar diretamente pelo link: https://www.instagram.com/drp0etry/?hl=pt-br
Desejo uma ótima semana aí pra vocês todos. Fiquem bem! 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Waffles


     Hoje me lembrei do café da manhã mais marcante da minha vida: waffles com doce de leite. Não me recordo ao certo se tinha oito ou nove anos, mas fecho os olhos e ainda consigo ver com clareza o banco no qual me sentei e a bancada qual apoiei o meu prato. Destaca-se nesta memória a minha desorientação quando meu amigo perguntou se eu iria querer waffles. Já naqueles tempos, eu era tímido, mas com medo de ser demasiadamente leigo diante de um carinha que sabia tão mais que eu, assenti e disse: claro. Quase me apavorei quando ele perguntou se eu iria querer doce ou salgado. O que diabos? Respondi com determinação que preferia doce, embora não fizesse ideia do que era. Ele concordou resoluto, como se só os idiotas comessem waffles salgados. Nos minutos que se passaram, apenas observei a cozinha, mordendo os lábios inferiores com apreensão. Três mulheres transitavam de um lado para o outro e era difícil dizer como tantas pessoas ocupavam aquele ambiente. Também era impossível deixar de notar o dono da casa. Ele fazia algazarra e arremessava alimentos no chão. Não concordei com aquilo e nem achei graça, mas acredito que no momento eu não havia assimilado com precisão o restante do mundo. Quase todos os meninos ricos tinham a liberdade para suas próprias birras ou acessos de fúria, mas o surto dele para ganhar atenção era irrelevante. Talvez fosse necessário para com os pais dele, porém, minha placidez era digna de um monge budista e eu só tinha cabeça para o presente. Meus olhos viam sem enxergar, como em um sonho distante, principalmente quando um cheiro inebriante adentrou minhas narinas. Instantes depois, como mágica, lá estava aquilo. Ainda hoje não descrevo dignamente o meu fascínio ao olhar para aquela massa arredondada e repleta de pequenos quadradinhos. Havia doce de leite ao redor de quase toda a massa, cercando cuidadosamente uma pequena bola de sorvete posicionada ao centro. A bola não teria para onde correr com tanto doce de leite em volta, pensei e torci para não ter dito em voz alta ou poderia me tornar alvo das zombarias do anfitrião. Envolto com o que contemplava, eu deixei de entender o que acontecia. Senti vontade de mergulhar no prato, mas aguardei até que meu amigo começasse. Ele se cansou de protestar e, enfim, encarou seu waffle. Imitei-o e comi o meu.

     Ao terminar minha refeição, eu apenas queria ir para casa. Eu precisava contar para minha mãe que Deus existia e tinha inventado os waffles doces. O amigo resmungava de maneira perspicaz sobre como fazer tarefas não era algo tão importante assim (o que eu concordava), mas eu já não tinha mais paciência para olhar para alguém que comia algo tão bom com tanto desdém. O sujeito mais acostumado com uma vida opulenta do que a minha deixou sobras no prato, algo que eu era particularmente contra (embora meus irmãos não comessem tudo o que serviam sempre). Tive o ímpeto primitivo de comer as sobras, porém, naquela época eu me preocupava em ser o alvo das piadas dele – os garotos espertos são mestres na arte do sarcasmo. Pelo menos eu não precisava entender o mundo para ganhar dele no vídeo game e isso me fazia sentir uma satisfação imatura e deliciosa. Ainda sobre o café da manhã, eu havia constatado um fato: os waffles não significaram nada para ele ao passo que me fizeram acreditar em magia. É detestável assimilar algo novo ao lado de alguém que acha sua experiência entediante. Suponho que da perspectiva dele, meu prazer fosse banal e o assunto soasse como uma sugestão de música.

“Ei, cara. Escute isso aqui. Decididamente é uma música boa e você vai gostar”.

“Amigo, eu ouvi e não gostei, mas tudo bem se eu te disser que prefiro escutar outras coisas?”

“Poxa, seu comedor de waffles do caralho. Você nasceu para coisas irrelevantes mesmo. Se um dia você provar um Dadar Gulung de Jakarta... Aposto que se você comer a própria merda depois, ela vai se igualar a um daqueles waffles de doce de leite”.

     Este é o momento qual eu me afasto. Desconhecendo se meu velho amigo possuía a intenção de destacar a hipérbole ou criar uma metáfora, convenço-me de que ele estava sendo infantil. Você não pode simplesmente deixar os waffles dos outros? É preciso mesmo falar de fezes? Aproximadamente quinze anos se passaram desde o dia em que eu conheci os waffles.  Agora entendo o ponto de vista dele, embora siga discordando. Quando menino ele só antecipou uma das tendências mais comuns de todo ser humano. Raramente é possível conhecer alguém que saiba ver (e enxergar) as boas coisas que possui. Talvez, no começo, tudo seja mágico. O cheiro da boa novidade atrai e seduz. Não há porque ser negativo. Talvez seja suficientemente convidativo a ponto de que você chegue a pensar que comeria waffles para o resto dos seus dias, mas qual é o sentido disso? Ao menor sinal do desaparecimento de encantamento, nós transformamos o velho waffle em algo patético, só pelo fato de que agora enjoamos dele. Não, ele não deixa de ser cheiroso. Não, a massa não está crua e nem falta doce; mesmo os waffles salgados, feitos exclusivamente para os otários, ainda são saborosos como sempre foram. A única coisa realmente ausente é a animosidade sincera em saber apreciar o que se possui, entendendo que, até possuir é uma ilusão. Soa utópico, mas há quem saiba reconhecer que os waffles continuam gostosos. Existe quem reconheça este fato, mas se convença de que um alimento tão bom não é tão digno de alguém com tantos defeitos e vícios aparentes. Insanidade! Todos nós somos dignos das coisas boas, mas, às vezes é mais prático se acostumar com o pouco que se tem. Depois choramos sozinhos, pois achamos que ninguém sente o mesmo que a gente ou que somos os únicos do mundo a apreciar quando o waffle é bem feito. Não somos.

     A vida recentemente desferiu diversos golpes em mim e tenho buscado me recompor, mas não quero recuperar quem eu fui, pois não sou mais o mesmo. Apesar disso, creio em magia. Tomo meu café metodicamente todos os dias e o aprecio como um bebedor de café profissional. Talvez um dia dragões saltem diante de meus olhos enquanto observo as janelas, mas acaso não aconteça, eu realmente aproveitei a visão que tinha (hoje uma idosa andando com sua neta e seu cachorro). É ainda melhor quando chove, pois aprecio meu café enquanto observo com encantamento as infinitas gotas de chuva que caem em seus próprios ritmos. Às vezes sonho com as ondas do mar ou com os mares imensuráveis nos céus, mas há dentro de cada novo olhar um mundo inteiro. Se você sentir que é incompreendido e que todo mundo desdenha das suas dores, dos seus sonhos ou até mesmo dos seus waffles, eu apelo para que você aguente firme. A imensidão deste mundo foi feita para ser vivida e apreciada por VOCÊ. Tudo bem se então for triste hoje, mas prepare-se para as grandes alegrias que virão. Tantos anos depois do meu primeiro café da manhã perfeito, notei que não é fácil encontrar pessoas que saibam apenas apreciar a qualidade do que já possuem, mas elas estão mesmo por aí. Talvez uma delas, sem qualquer pitada de estranheza, ainda divida o silêncio contigo e faça seu sorriso ser mais largo, porém, é preciso não se esquecer de que, mesmo sem companhia, os waffles e cafés podem ser saboreados. O mundo foi feito para ser apreciado por todos nós. Nos momentos difíceis lembre-se de respirar fundo e ter paciência. Mantenha a calma e siga em frente. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Alcance

   O que está ao nosso alcance? É um questionamento fundamental frequentemente evitado por toda pessoa. Por que evitamos tanto essa pergunta? Talvez seja mais seguro pensar que já somos bons o bastante e que já fazemos o suficiente. Fazemos mesmo? Será?

Você faz tudo que está ao seu alcance?

   Essa pergunta nos tira da zona de conforto e nos vira do avesso. Primeiro é importante apurar e conferir qual é o seu alcance. Lembre-se de que para ajudar alguém você não pode exceder o seu limite. Caso o exceda, é provável que seu auxílio não tenha serventia e que você acabe despedaçado. Compreenda que uma pessoa quebrada não pode priorizar o conserto de outra. Eis aí uma resposta simples, mas de difícil compreensão. Não somos resolutos e precisamos penar para descobrir nossos caminhos. É importante planejar as ações e orientar o rumo pelo qual desejamos prosseguir, mas também é fundamental que não nos esqueçamos de que há coisas além do nosso alcance e que imprevistos acontecem e são naturais. Sobre essas coisas distantes, eu não acredito que seja necessário conversar ou discorrer sobre. Aprendemos melhor com o que é lúdico; a experiência própria. A questão verdadeira é: o que devemos fazer para mudar as coisas que podemos alcançar?
   
   Seu braço não se estende tão ao longe. Você ainda não pode alcançar os grandes problemas deste mundo. Você ainda não pode ajudar aqueles que se encontram na penúria. No entanto, esta constatação não pode servir como um pretexto confortável para que você deixe de fazer o que é certo quando sabe que é certo fazê-lo. Ajude as pessoas próximas a você como e quanto puder. Você nem sempre poderá fazer algo, mas há quem só precise de uma breve conversa para encontrar consolo em um mundo que por vezes denota tamanho horror. Aprenda a olhar de verdade para as pessoas. Cada indivíduo é singular e valoroso. É preciso que você esteja lá para sua família, seus amigos e ainda para os necessitados. Todo mundo sabe que a injustiça e a crueldade geram respostas rápidas, mas nem sempre corretas. Se o fogo sempre for combatido com fogo então o mundo se findará em um indescritível incêndio. A bondade e a gentileza, por outro lado, ensinam bem através do exemplo. Se os exemplos estão em falta, como então tornar o mundo um lugar melhor? Se nós temos mil vezes mais modelos ruins como inspiração, para onde vamos direcionar nossos pensamentos antes de dormir? Mantenha a calma e continue a percorrer o seu caminho. É uma questão de tempo até encontrar pessoas que farão seu coração inundar-se de felicidade. Você pode afogar-se em lamúrias e decepções, mas nunca em alegria. Valorize-se! Mesmo que não perceba, pode ser que você já seja o exemplo para alguém. Mantenha-se firme e busque melhorar. É só o começo da estrada e haverá muitos questionamentos daqui para frente, mas para ampliar seu alcance, você precisa ser alguém melhor para você mesmo. Para ajudar aos outros de verdade é necessário que você tenha orgulho do que vê quando se olha no espelho. Comece agora e não pare até que esteja satisfeito. Não importa quantos queiram contrariá-lo. Você sabe... Você é capaz.

Corra até não restar mais energia. Tente até que se esgotem as alternativas. Concentre-se e siga sempre em frente. Você já está realizando um bom trabalho, mas pode fazer ainda melhor.  

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Amizade

     Eu não sei nem mais se sei escrever sobre um assunto específico, mas como tentar não custa nada e o site é meu... Só peguem leve comigo, pois eu estou voltando, ok?
     Desde sempre eu pensei que a primeira obrigação de um amigo fosse ser verdadeiro com o outro. “Que mesmo maus e inconsequentes, sejam corajosos e fieis” (Victor Hugo). Os anos se passaram e hoje conto com cinco bons amigos – e o resto é o resto e só. Não mudei minha concepção sobre amizades – não inteiramente. Aproximadamente há cinco anos, eu esperava que um amigo tivesse uma obrigação moral com o outro, ou seja, eu acreditava em algo parecido com reciprocidade. Só te faz de primeira opção quem realmente gosta e se preocupa com você, certo? Será? Na maioria das vezes sim. Eu reluto em acreditar que uma pessoa que nunca tenha tempo para você possa ser chamada de amigo e no meu modo de ver não são muitos que merecem essa palavra tão forte. Acho que meus pais foram ligeiramente amorosos demais e moralmente severos demais e isso me obrigou a encarar as perspectivas do mundo desde cedo. Eu também assisti a desenhos japoneses em excesso e eles me ensinaram a ter um senso de lealdade aos amigos que dificilmente eu aprenderia com tanta facilidade no dia-a-dia (ainda mais durante a infância). No momento mais difícil de uma trama um rapaz está prestes a morrer, mas crê piamente que o amigo qual brigou irremediavelmente voltará para ajuda-lo. Ele volta. “Eu vim por você, amigo”.

     Sejamos honestos e utilizemos da razão ou nossas ações não valerão mais que as de qualquer animal. Um amigo pode ser de qualquer jeito, forma, cor. Ele pode ser estúpido, louco, bêbado, sério, engraçado, qualquer coisa. E você vai apreciá-lo inicialmente exatamente por algo que vê no meio da casca dele (se você já aprecia alguém só pelo superficial, você é um idiota). Agora faço o questionamento para todos aqueles que acham que possuem amigos de verdade. Quando ele faz algo que não é certo, você se pronuncia ou fala mal dele pelas costas? Quando ele excede os limites, você o interpele a respeito das atitudes tomadas recentemente ou se omite? Se você não conversa com seu amigo sobre o lado “ruim” dele, vive passando a mão na cabeça e precisa concordar com qualquer idiotice em “nome da amizade” você não é um amigo e sim um bajulador. Particularmente demonstro sempre meu asco para com todos os bajuladores e é claro que isso está diretamente ligado ao número quase irrelevante de pessoas importantes que eu tenho na minha vida. E daí? Eu já perdi um amigo no momento em que ele veio se exibir sobre duas mulheres que tinha levado para cama (realmente bonitas) e minha primeira pergunta foi “Mas se é isso que você quer, por que não termina o namoro?”. Muito se disse e mais ainda se inventou por tudo o que veio posteriormente, mas nada daquilo importava. Não tenho ilusões de que nossa amizade tenha durado um minuto depois do momento em que eu o confrontei. Eu perdi a pessoa da minha vida quiçá para sempre, mas aceitei sem me arrepender. Ser como você quer ser não custa nada e ainda assim não é barato.


     Os namoros não matam todas as amizades em todas as ocasiões, como alguns alegam. Geralmente quem incita esse tipo de comportamento são amigos (ou bajuladores) ciumentos que não suportam a ideia de que o seu amigo agora passe a ser uma pessoa fundamental na vida de outro. Vi dos dois exemplos no meu próprio namoro. Houve pessoas que se afastaram assim que eu comecei a namorar. Não, você não leu errado. Muita gente entende que o fato de você ter uma namorada implique necessariamente em isolamento social – te excluem de baladas, bares e quaisquer outras programações só por suporem que agora você não gostaria de ir ou que isso não é programa de namorados, mas sequer perguntam. Esse tipo de comportamento acontece a todo o momento e você que me lê provavelmente já sofreu ou incentivou isso. Há, porém, os casais que buscam o isolamento e consequentemente são eles os responsáveis por afastarem os amigos. Eu finalmente tenho uma pessoa incrível na minha vida. Por que agora eu preciso do resto? É mais ou menos assim que se manifestam os mais radicais. Fazer de alguém prioridade não te obriga a ignorar ou desprezar o restante do mundo, mas quem quer é livre para fazer isso.   

     Enfim, por que raios eu estou falando sobre amizades em uma tarde de domingo? Assim como muitas pessoas banalizam o “Eu amo você” outras tantas transformaram colegas em amigos configurando constantes hipérboles que às vezes me deixam pasmo e às vezes me deixam irritado. Há muitos conhecidos e colegas, mas sempre existirão em ínfima quantidade os verdadeiros amigos. Ainda assim essas são as pessoas que estão de verdade com você e para você. Você pode ter um gosto totalmente diferente daquele seu amigo, mas vocês se entendem apesar disso. Você ama o futebol, ele ama carros; você ama o silêncio e o outro gosta do barulho; você gosta de ler livros e ele de atividades físicas; você gosta do campo e ele das festas, mas essencialmente vocês se respeitam e se aceitam como pessoas diferentes. Comecei a escrever ainda incomodado, mas ao longo do texto notei que tenho mais a agradecer do que a reclamar, pois aprendi a diferenciar e reconhecer verdadeiras amizades. Embora sejam poucos, eu tenho mesmo alguns amigos e por tal motivo sou um homem mais feliz. Que os bajuladores um dia compreendam a diferença entre amigo e colega e que os laços que os unem não sejam tão tênues que se rompam caso deixem de elogiar pomposamente as pessoas por todos os dias. Um brinde às pessoas e aos amigos de verdade! Desejo de coração uma excelente semana a todos!


Obs: Extraordinário é um ótimo livro/filme para fazer refletir sobre a vida que leva e os princípios que o regem. Para quem busca esse tipo de meditação e autoconhecimento essa é a minha dica. “Não tenha amigos que não estejam à sua altura”. Confúcio.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Contradição de essência

Sei que estou contradizendo o que antes disse
Mas é melhor que seja assim
Há algum tempo percebi
Que todos os sonhos do mundo habitam em mim

Sou o vasto oceano em tormenta
E a calma lagoa
Sou a tempestade raivosa
E também a tranquila garoa

Só não sou mais de um
Nem mais que eu mesmo
E por isso às vezes fico imerso
Você pode discordar
Mas não me convencer do inverso



Se alguém não compreender facilmente
As contradições de sua essência
Lembre-se de que cada pessoa é única
Tenha paciência 

E agradeça que uma ou outra coisa
Ainda é exatamente o que é
Pois a gente vive tentando ver em algo
Bem mais do que existe

Como se o que existisse já não fosse maravilhoso
O leão covarde sempre foi corajoso
O homem de lata tinha coração
O espantalho tinha cérebro
E você tem o mundo às suas mãos
Viva os grandes mistérios

Mas a gente tem essa mania boba de tentar se diminuir
Você pode não acreditar, mas é incrível só por existir
E ninguém pode ser capaz de te colocar defeitos
Perfeito é ser do seu jeito

Você é feito de coisa mais resistente que o vidro
O mundo é grato por você ter nascido
Então não se desvie de sua conduta
Cada um de nós vai seguir na luta

Vá em frente e siga encarando os desafios
Cante canções alegres atravessando os vales sombrios
Andando com o caminho traçado ou a esmo
Seja sempre honesto com você mesmo

A tristeza logo vai sumir 
E você se verá sorrindo
Quando aprender de uma vez
Como cada dia é singular e lindo 


E aí? Como estão vocês, caros leitores? Espero que estejam bem. Essas frases apareceram na minha cabeça e resolvi compartilhar com vocês, pois me diverti enquanto rimava. Como não tenho nada mais interessante ou divertido para dividir com vocês hoje, deixarei só esse post mesmo, mas tomara que eu encontre os caminhos para utilizar mais o meu blog neste ano. Estou confiante de que será um ano com mudanças positivas para mim e espero que também para vocês que estão me lendo. Feliz 2018! Empenhem-se nos seus objetivos e acreditem sempre nos seus sonhos! Certamente alguma hora nós chegaremos ao nosso destino! Fiquem bem! Boa semana! Abraços, beijos e paz! AVANTI 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

História Antiga

Essa é uma história
Guardada na memória
Contada em um tempo antigo

Em toda sua glória
Ele foi alvejado implacavelmente
Por um grande amigo

Em sua busca de justiça
Abaixou a sua guarda
E na confiança cega 
Roubaram-lhe a arma

E ele não mais poderia revidar
De igual pra igual
Mas o homem valente luta ainda assim
Como um feroz animal

E sobrevive e sofre
Pelo tempo que está condenado a sofrer
Resiste, porém, e nega a morte
Porque anseia viver

Seus olhos estão vermelhos repletos de raiva e solidão
Mas quando vê Ele no espelho têm compaixão
Desiste da sua vingança e acredita
Que um dia haverá esperança
Até para a gente maldita

Admite que mesmo resignado por uma vontade maior
Sua raiva não passou completamente
E reflexões de um tempo melhor
Passam-lhe pela mente

Nós carregamos trevas e luz
Por qualquer que seja
O caminho que nos conduz

E em todas as pelejas

Feliz ele se livra de um destino
Que terminaria em solidão e tristeza
Tudo poderia ser diferente
Se lhe faltasse um pouco de destreza

Mas a resiliência falou mais alto
E tudo acabou bem 
Exceto para aquele que até o final
Agiu com tanto desdém 


Sempre se glorificava por seus atos
Caçador de ratos
Da mente obscurecida

Você se lembra?
Eu queria ser como você
Mas hoje posso ver
Você não vale sua comida.


Quanto valem as suas opiniões e conceitos? Quão fracas são suas conclusões e quão rápido cede ao preconceito? O mundo não é um lugar fácil de viver e todos sofrem muita pressão, mas tantas coisas boas estão acontecendo aqui, bem no meio desse furacão. Eu já não tenho do que reclamar. Devagar e aos poucos vou encontrando qual é o meu lugar. Impressiona-me, porém, uma sensação que tenho. Sinto que nesta realidade só conquistamos pessoas ostentando nossa própria vaidade. Se eu te perguntasse, você me diria sinceramente, você é de verdade?

Enquanto as crianças brincam de imitar os adultos, alguns adultos tentam fingir que são mais do que apenas adolescentes. Os maduros riem das demonstrações fúteis e pavoneadas daqueles que não sabem nem mesmo o que querem para a própria vida. 

Fiquem bem. Boa noite!
Obs: todos unidos pela Michele campeã do MasterChef 2017? Sim!