terça-feira, 9 de abril de 2019

Diálogo com o Tempo

   - Amaldiçoe todos os que te amaldiçoaram, ainda que estivessem corretos. 
   - Odeio-a exclusivamente porque a amo.Veja só... As tradições se inverteram ao longo deste último ano. Escondi-me por um longo tempo dentro de casa, centrei meus olhos em meu âmago. Entender-me era absolutamente necessário. Revivi os meses mais silenciosos da minha vida. Minto. Não odeio, mas serei honesto... também não amo. As certezas são incertas e as coisas estão díspares. 
  - Cada um possui o seu drama e o seu sofrimento, irmãozinho, assim, relativiza-se a dor alheia. O foco eventualmente recai sobre os próprios pesares. 
  - Há sensatez nisto. Se todos os problemas de outras realidades interferissem diretamente em meus atos, não importaria quais fossem os fatos, sem dúvidas, eu teria caído. 
   - Será que não está no chão faz tempo e por isso não notou que já não é mais capaz de cair? 
   - Quem poderá dizer? Não tenho sido tão bom assim, admito. 
   - Pesa-se que é importante não ser um desses miseráveis que derramam ódio em tudo o que é vivo e possui vida, mas há um limite para a empatia. Não ser tão bom assim pode ser bom o bastante. Você pode até se solidarizar, ser o ombro amigo perfeito, mas é claro que nunca saberá mensurar qual é o tamanho da dor alheia. 
   - Nem mesmo se a sentirmos?
   - O sentido de sentir é relativo. Suaviza-se o fato com base nas experiências próprias. 
   - Seja mais claro. O que quer dizer? 
   - Nada diferente do que disse. Não tenho uma boa relação com a minha mãe e você ama e convive com a sua, respectivamente. Minha mãe, se possui amor por mim, nunca soube demonstrar, assim, eu e ela somos mundos diferentes. Talvez ela sentisse um pouco a minha perda, talvez eu sentisse um pouco a perda dela, mas o fato é que estamos acostumados com a ausência. Se a sua mãe lhe faltasse, talvez lhe faltasse um grande pedaço, mas se minha mãe faltasse, creio que seria um prolongamento de uma distância que nunca fizemos questão de cobrir. 
   - Você falou sobre isso outro dia. Distâncias incalculáveis, mas me diga, até você tem mãe?
   - Aquilo não possui qualquer relação com isto e todo mundo tem mãe.  
   - Às vezes nossas conversas se tornam redundantes.
   - Claro. Pesa o fardo, não? Todos que estão aqui foram vencidos. 
   - Vencidos por quem?
   - Importa quem desfere o golpe se você não é capaz de resistir? - As conversas até então fluíam naturalmente, mas a indagação freou a resposta rápida de Seth. O cozinheiro reconheceu com admiração a sabedoria do Tempo, mas notou que nem ele tinha todas as respostas (embora talvez possuísse todas as perguntas). O cozinheiro era muito espontâneo para ter de pensar para responder, porém, muito sincero para dizer algo sem ter a certeza do que gostaria de dizer. Odiava significar coisas sem significado.
   - Não sei. Acho que importa, na verdade. Um golpe é apenas um golpe, mas um golpe sofrido por alguém em quem você confia é inesperado. Dói mais. 
   - Percebo que já sofreu destes golpes antes... - Seth ficou em silêncio. Talvez o Tempo soubesse mesmo de tudo, mas o cozinheiro não estava sentindo seu mundo colorido. Ainda era calmo como a garoa, porém, fechava os olhos e se tornava completamente cinza. O cozinheiro tentou se lembrar de seu verdadeiro nome, mas havia apenas sombras pálidas e sem significados na memória. Suspirou decepcionado. Lembrou-se em seguida de um truque ensinado pela Bruxa Que Devora. Levou as duas mãos ao peito e os dedos tocaram suavemente a pele no ponto em que dentro jazia a ponta do coração. Quando abriu os olhos, havia retornado ao quarto. Tudo era cinza, exatamente como o seu estado de espírito. O cozinheiro não sabia dizer o motivo, mas o Tempo parecia ter parado. Os olhos retornaram para a frase da profecia inscrita na parede do quarto absurdamente bagunçado. Nem todo anjo é branco. Nem todo mal possui asas negras. Às vezes um simples estranho endireita suas veredas. Seth suspirou profundamente. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados. Sentia como se a frase quisesse lhe mostrar algo, mas lhe fugia a compreensão. Tentou encontrar uma solução, mas admitiu a inutilidade daquilo tudo. Saiu a esmo pelo Palácio. Sabia que precisava de pelo menos uma pista que o colocasse na trilha certa. 
   - Não é uma caça ao tesouro se eu nem sei o que estou procurando... 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Formidável...

     Eu tenho sido formidável em minhas maneiras de existir. Não que isso signifique muito, mas creio que seja sensato manter a coerência. Você não precisa se explicar para pessoa alguma, porém, o início das contradições no próprio discurso em que acredita te afasta de você mesmo. Somos a repetição da história que contamos diversas vezes em nossas cabeças. Um eco e seus mesmos. Tantos contos diferentes somados com mentiras podem te tornar uma espécie de confusão ambulante. Por ser essa a minha crença, eu me mantenho inteiramente são neste mundo trôpego e embriagado. Quando sou eu representando a figura patética e alcoolizada, eu me vejo nos mesmos níveis detalhados de tropeguidão das coisas todas, completamente nivelado por baixo. Sou eu ali, mas simultaneamente sou outro também. Eu me represento, atuando em mim, mostrando aos que me rodeiam toda a eloquência da minha alma, pois qualquer indivíduo deseja, cedo ou tarde, ser aceito. Sabemos ao ponto de dizer ainda que ser compreendido e ser aceito sejam mundos distantes. Divido-me para ser unidade outra vez. Depois paro e reparo no meu sono de dentro, observo o mundo de fora e me escondo do calor do sol. Fito seriamente tudo o que existe como se a vida fosse mais do que uma comédia com nuances trágicas (há quem diga que seja uma tragédia com nuances cômicas). Você é capaz de manter a sua coerência ou bate no peito e assume com coragem a sua hipocrisia insensata? Você se dedica ao que ama ou ama se dedicar ao que sempre te mata?


     Eu tenho sido formidável, mas às vezes me vejo tentado a ser diferente do que sou. Quem não se pouparia um pouco por ilusões profícuas sobre o amor? A vida é muito dinâmica, tenho dito isso com frequência, mas quando digo que tenho tentado, eu estou realmente sendo honesto. A tentativa basta se não posso ter o que quero e tenho que me contentar com restos? Sigo sendo quem sou e sabendo o que desejo, mas nas noites vazias onde a pele arrepia à invernia, eu tenho me sentido só e por vezes com medo. Seria muito ter um pouco de carinho e calor? Seria terrível contar com um beijo de amor? Poderia ser você aquela que bebe vinho comigo, faz piadas infames e lindamente sorri como quem eventualmente prevalece? Poderia ser você a despertar comigo em um mundo que ainda adormece? Você sabe, eu tenho sido formidável em devaneios épicos inseridos em utopias quase lúcidas que tenho enquanto acordado. Sou o rei dos sonhos líquidos, príncipe absoluto e insípido, herói absoluto de um mundo vil qual por mim foi idealizado. Governei terras áridas longe daqui. Eram secas e sofridas, cenário semelhante aos de filmes de terror. Escrevi um diário e o chamei de livro dos dias, mas naquela terra de ilíadas, ninguém possuía conhecimento ou falava em poesias, assim, senti-me encolhido. Ordenei e fui desobedecido, nasci para ser combativo e combatido, ainda que minhas palavras tenham sido: que só haja amor! 


     Eu tenho sido formidável e se tivesse um filho com ele seria afável. Sigo sendo quem sou, apenas por ser a única pessoa que aprendi a ser, mas é preciso tomar cuidado para não dar maus exemplos a quem está ao seu redor. Nesta manhã de domingo, eu e meu pai comemos em uma padaria próxima da casa de meus irmãos e ao nosso lado estava uma mulher e seu filho pequeno (5 anos de idade, aproximadamente). Tratou a criança como se ela fosse um pequeno robô e não prestasse a atenção em nada. Alguns minutos depois começou a destratar os atendentes do estabelecimento por uma suposta demora excessiva sendo que seu pedido era o mais demorado de ser preparado. Soltou vários porras, merdas, caralhos e ainda fez caretas debochadas, disse que queria falar com o gerente e em tom de menosprezo seguiu ensinando seu filhinho, criança quieta e atenta. Eu tenho sido formidável e para me manter assim, eu não posso ser conivente e nem olhar nos olhos de alguém tão áspero com real esperança. A salvação é pelo risco, mas quem é que se dispõe a arriscar? Arisco arrisco, cônscio dos meus rabiscos que formam palavras, perdi-me novamente e acordei em uma ilha encantada. Celebro o risco. Tenho sido formidável e sacudo minha cabeça para voltar à realidade pungente. A gente é o que sente ou o que mente ser? Questões infindáveis de problemas criativos e solucionáveis, mas de que isso importa? Não importa. Ainda assim, perco-me, mas sei que tenho sido formidável. Por que a responsabilidade de ser o exemplo recaiu sobre mim? Meu sussurro quase inaudível não chega aos ouvidos do  garoto, mas espero que o vento lhe transmita este pouco: você não precisa ser assim. Eu tenho sido uma boa projeção do que muda de lugar. Sou assim desde que adquiri a compreensão de que nada permanece do jeito que está. Tenho sido formidável. Oscilo como a chuva na manhã em que finalizo o meu texto, mas no geral, eu molho a mente dos que me acompanham assim como a chuva molha a minha pele. Ainda que seja sutil, eu sei que tenho sido formidável. E você? Como está se sentindo hoje? 

sábado, 6 de abril de 2019

Distâncias incalculáveis

    Quem me dera ter a capacidade de escrever um texto maravilhoso para cada pessoa que se vai, porém, não é assim que a vida funciona. Substancialmente escrevo sobre a memória da perda, sobre o sorriso enérgico capaz de abraçar, sobre como me ensinou a pegar ônibus em São Paulo e até sobre como não entendo o que às vezes acho que já deveria ser de minha compreensão. É impossível usar palavras perfeitas, pois alguém se foi e racionalmente estou falando apenas sobre o que ficou para trás. Não há tempo para acertos e consertos. As coisas simplesmente são como são e a incerteza é uma das maiores punições e bênçãos que recebemos. O desconhecimento sobre o que há depois da porta da morte deveria bastar para que nos valorizássemos em vida, mas adivinhe só? Não basta. Assim buscamos conforto na fuga para que não seja necessário enfrentar o que deixamos. 


Há distâncias incalculáveis...

    A vida é delicada e fugaz, mas frequentemente nos deparamos com ilusões que nos fazem enxergá-la como se fosse realmente duradoura. O que é que dura? Se suas barbas estão grisalhas, se seus acertos se tornaram falhas, se restou apenas passividade onde havia o fervor de batalha? O que é que dura? Sua essência pura? Sua enferrujada armadura? O que antes chamava de vencer? O que dura? Suas críticas rasas aos que ousaram ousar muito mais do que você? Sua incapacidade de deixar de ser um escravo do prazer? O que é que dura? Por isso admiro uma mulher que de tudo acha graça e faz a tragédia da partida virar fumaça. Eu sinto que ela sente os ritmos corretamente... a vida passa em um clichê clássico ,"em um piscar de olhos", não mais que de repente. Quem nunca deu um suspiro longo e pensou que ainda ontem costumava ser uma criança livre e despreocupada? Quem é que nunca se preocupou em se divertir sem pensar em mais nada? Quem é que nunca brigou feio e depois ficou apavorado com a possibilidade de não poder restabelecer a paz? Quem é que nunca esqueceu do mundo em uma morte recente e não agradeceu a oportunidade de estar vivo no riso de um bebê? Quem é que não quis correr e se esconder no longo abraço de uma mãe? Às vezes é preciso se consolar em outros abraços, pois os que nos confortam jazem longe demais. É tão triste ter de usar a palavra inalcançável, mas a necessidade freia a mentira. 

Há distâncias incalculáveis e só queríamos mais uma vez dizer...

    Se esta noite eu me pegar sentindo a sua ausência, eu posso olhar para o poste de iluminação ao final da rua e fingir que é um farol? Posso fingir que a luz em minha direção representa o sol? Quão bobo vou soar se admitir que seu riso que sempre me tirava da escuridão? Será que faz realmente mal sussurrar uma mentira que é profícua? Será um crime reviver memórias que em algum momento foram capazes de salvar o seu mundo? Há coisas que se vão e não voltam. À luz do dia o sol, ágil e caloroso, é muito bem capaz de escondê-las, mas você sabe como ninguém que é durante as noites, nas horas frias e paradas, quando você escuta as batucadas dos corações dos relógios em infindos tique-taques, é que seu lado de dentro está mais escuro do que a noite de negrume. Nunca mais se sente o cheiro do perfume. Ainda podemos falar, mas nem no mais perfeito dos silêncios podemos captar vislumbres das respostas. Eis então que as lágrimas se derramam, pois você ainda ama e o golpe é doloroso, talvez até mais do que você possa suportar. Seu coração está em pedaços, mas é a convicção na força dos velhos laços que te fortalece. A alegria na memória é reflexo da ausência que nos engrandece. Neste sentido, eu digo sem medo de errar: tudo mudo e troca de lugar. A falta é apenas o sinal de que quem se foi para nunca voltar era alguém capaz de conquistar corações e quando você fechar os olhos saberá, claro que saberá... pois quem vai para sempre apenas vai, mas ainda fica. São nossas estradas para locais seguros, nossos jeitos de derrubar grandiosos muros e declamar a verdade em sussurros que nos fazem continuar. Essa noite você partiu, mas neste coração sempre terá um lugar para qual voltar. 


As distâncias poderão continuar incalculáveis, porém, meus instintos são todos inefáveis
Chego aos lugares que quero por caminhos quais outros nunca cogitaram percorrer
Na madrugada de solidão e tristeza encontro novas maneiras de te rever.

Eis uma homenagem singela aos que já se foram para não mais voltar. Fiz o texto pensando na minha recém falecida tia Sandra e tenho que dizer que ela era uma daquelas pessoas que tinha o dom da hospitalidade e do riso. Que sejam repletos de alegrias seus novos caminhos, tia, pois, embora ninguém saiba dizer, creio que a morte é apenas mais uma etapa. Obrigado por me tratar como filho, por tanta parceria e aprendizado, por me ensinar a pegar ônibus e metrô em São Paulo, pelos cafés das manhãs e por toda a amizade. Obrigado por ser uma das poucas pessoas da família que comentava nas minhas poesias. A senhora nunca vai ter a dimensão do quão significativo isso foi pra mim, pois meus escritos são a minha alma e há sempre tanta pressa para imergir na correria do dia a dia e para "se encontrar" no sentido financeiro, que a maioria já vive uma escravidão dedicada ao dinheiro e acha que tudo o que faço é brincadeira. Ainda não fui publicado, mas sou feliz por me sentir inteiro. Obrigado por me compreender quando quase ninguém tenta! Como meu irmão citou no texto que fez, você fez de São Paulo nossa casa anos atrás. Grato eternamente à você, tio Sérgio, Séi, Guga e Paula. Obrigado! Eu que não choro acabei meio amargo e com os olhos marejados, mas se há a tristeza pela perda é sinal de que em vida houve diversos motivos para a alegria. Vá e vá bem. As distâncias são incalculáveis ainda, mas isso não quer dizer que nunca mais sua família e amigos irão te reencontrar. Adeus, mas apenas por enquanto. Texto dedicado à todas as pessoas importantes que já se foram. Em minha boa memória ainda jazem e jamais serão esquecidas. 


Com amor, 



Daniel Rosa Possari.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Assunto perdido

   Certa vez, pediram-me para que me afastasse. Bom, você sabe, um clichê, um clássico... “São dois mundos diferentes e há, obviamente, líquidos que não foram feitos para se misturar”. Ainda que eu soubesse de nossa solidez, preferi me calar. Gosto disso, confesso, pueril como sou e continuo sendo, pois é só como posso ou quero ser. Falem comigo utilizando poesia, por favor. Ataque com maestria exatamente onde me deixaram ferido em nome do amor. Diga que eu poderia chorar oceanos ou uivar para a lua cheia e diga que nada disso adianta. Diga que nas noites de frio quando me pune o vazio, você não me ofereceria nem uma manta. Diga que eu escureci sua alma e me torne responsável por aquilo que nunca cativei. Toda dor é egoísta e todo sofrimento é singular, eu sei. Quem se interessa em se interessar? Eu me preocupo e por tal fato sou ridículo. Sou bom leitor, pesa-me esta maldição, pois leio sempre as entrelinhas, mesmo na escuridão. O que te assusta cabe em meu coração. 

   Um olhar certeiro e um sorriso de canto de boca. Uma prece muda quando se vão todas as roupas. Um iminente perigo e um assunto perdido. O que acontece com a gente quando a gente não deixa nada acontecer?

   Outro dia falei sobre o meu cansaço ósseo, recorda-se? Aquela exaustão profunda, mas perfeita. A sensação que me retesa, mas que é estranhamente profícua. Ainda está me acompanhando? Espero que não, mas torço para que sim. Não sei direito aonde vou, mas eu me sentiria melhor se fosse bem acompanhado. Você vê quão rápida é a vida de um inseto? A morte não faz distinção entre santos e abjetos. Nota como o mundo rasga sonhos como um escritor rasga um pedaço de papel? Ninguém por aqui pensa nas árvores e ninguém pensa no mundo. Honestamente seria capaz de odiar a todos, acaso pensassem em trivialidades nestes raros momentos de importância identificável. Qual é o problema?

   O meu problema é que sou horrível em querer o que quero querer. Quando devo falar o meu silêncio pesa indizível. Quando falo, eu sinto que era melhor me abster.

   Canso-me das opiniões alheias tão sem fundamentos e tão repletas de preconceitos. Sinto-me em lassidão e não sei se estou despencando ou se meu corpo jaz colado ao chão. O que sei não interessa a quem sabe significar o que vale a pena interessar. Todos opinam tanto que sinto um profundo vazio existencial. Um arrepio atravessa minha espinha e repouso a mão na ponta do coração, bem no impulso apical. Chame-me de Ictus Cordis ou de qualquer outra coisa, mas quando decidir meu nome, por favor, nunca se esqueça. O clima é propício e todos os tolos, inclusive eu, tentam dizer ou calar coisas. A inversão é desastrosamente comum. Geralmente falamos muito quando a situação pede silêncio e silenciamos quando devemos nos mostrar. Como falar da maneira correta se nada jamais permanece no lugar? Como dar conforto a quem nunca conheceu um lar? Como se manter sensato e saudável com tantas coisas ruins sendo feitas? Como afastar os monstros tão temíveis que jazem à espreita?

   Diálogos díspares. Um discursa sobre o universo enquanto o outro resume a vida na apoteose brega de um verso. Um fala muito e outro escuta tanto. Este acha que o primeiro quer ser temido, mas é crescente o encanto. 
- Quando foi que mudamos de assunto? Falávamos sobre o que mesmo?

   É sobre tudo e é sobre nada também. É sobre praticidade e sobre qualquer outra coisa com qualquer outro nome. É sobre um cansaço inexplicável que me atinge quando deveria estar repleto de energia e sobre a energia inexplicável que sinto quando deveria estar exausto e faço poesia. É sobre crer (quase) sozinho em coisas frágeis. É sobre um herói sem poder que salva mais vidas do que você jamais imaginaria. É sobre acreditar no que te faz ser quem você é e ser exatamente isso com a convicção de que isso leve além. É sobre fazer cursos improváveis que valorizem suas singularidades e sobre sonhos impossíveis que talvez nem devessem existir. É sobre quartos bagunçados e corações arrumados. Sobre existencialismo, excentricidades e histórias. É sobre conquistar o mundo e sobre fracassar. É sobre amálgamas discretas e poderosíssimas retidas em contos desacreditados e também sobre lágrimas que abrangem Tudo. É sobre o rosto que eu tinha antes da criação do Universo e ainda sobre o resumo que faço da vida na apoteose absurda de um verso. É, enfim, sobre fragmentos de memórias, essências e almas. É sobre amizades novas de outros continentes e outras vidas. Acima de tudo é sobre bons momentos, amor e felicidade. É sobre não ser ilha isolada, sobre as partes que nos formam. É sobre aprimoramento, construção e alegria. Perco-me novamente no que gostaria de dizer, mas entre tantos embaraços, eu tropeço, entretanto, sou duro como o aço e naturalmente formo laços: sei o que fazer. Sei que nem toda palavra rima, mas cri que minha esquecida sina é o que me traz prazer. Perdi-me noutra esquina vagando na madrugada. Cuidado por onde vira, pois essa é a hora dos fantasmas. Peguei-me rindo com a lembrança da frase: a rua é cheia de perigos. Preocupe-se quem quiser ou quem não sabe o que quer. Eu dirijo para achar o assunto perdido. 

domingo, 10 de março de 2019

Atrasos do acaso

     Pesa-me a alma um cansaço sobrecarregado de outras vidas, pairando em meus ossos como se fluísse junto com meu próprio sangue ou o integrasse. Levanto-me apenas para ações mecânicas e necessárias, mas ao que noto quando me observo fora de mim, aparento como alguém que tivesse disputado e vencido diversas corridas por uma diferença de centímetros. Encontro a minha presença física ao fitar minha imagem refletida diante do espelho. Procuro embelezar meus defeitos e vilipendiar minhas qualidades. É este cansaço que me pesa e que me faz ser como os bichos de rua. Tal como eles quase sempre me falta o afago certo, mas é comum a palavra ríspida dita de perto, até daqueles que possuem boas intenções. 

     O fantasma anda pela praia. Tenta recolher conchas, mas não é capaz de erguer nada. De que vale existir quando não se pode tocar?

     Pesa-me na existência uma fraqueza com cheiro de morte, porém, basto-me em essência e confio na sorte. Ultimamente, eu devo confessar, olhei para tantas coisas da maneira errada. Só queria que o meu convencimento bastasse, mas todos sabem o que dizem sobre a emoção: é melhor contê-la. Eu e você, impossível? Não é motivo para não querê-la. Pesa-me a pungência de cada pensamento singular, de cada coisa fora do lugar, de cada roupa que esqueci de lavar. Resmungo, mas não admito por birra e apego: sou feliz agora, pois tenho superado o medo. Fiz alguns amigos e eles não sabem o quanto me ajudaram. Torna-me leve esta lembrança e o peito estufado solta um suspiro cheio de esperança, mas sei que é ainda cedo para acompanhá-los nas danças. 

     O fantasma vê uma figura ao longe e acelera seus passos translúcidos. Cada onda se assemelha com uma tsunami, mas a água atravessa seu corpo sem arrastá-lo. Ele precisa alcançar aquela imagem. 

     Atraso por razões quais desconheço. É muito cedo, portanto, não faço alarde. Derramo-me em mim e sinto meu cansaço novamente. Minha alma busca por voz e espaço, porém, quando checo o relógio já é tarde. Levo broncas bem humoradas, mas minhas melhores companhias já estão ficando acostumadas. Sorrio e evito provocações. Sou autêntico em existir e todos conhecem meus pontos fracos, mas faço das minhas vulnerabilidades o meu maior escudo, quando me atacam, eles sempre mostram tudo, mas dificilmente me levam ao chão. Quando caio, é óbvio, eu preciso de um tempo para me recuperar da dor da queda, mas minha teimosia anda lado a lado com a valentia. Cônscio de mim, mas sem entender de onde tirei novas energias, agora estou de pé e com os punhos cerrados. Sorrio presunçoso, pois ainda que não saia vitorioso, o adversário se assusta com o fato de eu ter levantado. É assim que deve ser. Somos mais do que a história de escória narrada sobre nós. 

     O fantasma alcança a imagem, desfaz-se diante de seus olhos opacos a miragem, tudo o que há é o mais novo do que há de velho. Diante da imagem refletida, ele reconhece que pode ler a mensagem dolorida, o que revela o espelho é seu próprio reflexo. Um fantasma precisa de nexo? Ele se vira e parte em outra direção. Até mesmo os invisíveis querem sentir bater o próprio coração. 

     A vulgaridade de querer saber tudo quando nada se sabe é o que nos define. Se a sua intenção for crua e má, tome cuidado para não se machucar, nem tudo o que eleva te torna sublime. Aos olhos de quem não sabe ou não quer ver como se deve, um floco de neve é mero grão de poluição. Atente-se. Da perspectiva dos amargurados toda festa é uma oportunidade equivocada de reunião, toda demonstração de afeto não passa de expressão falsa de ternura dos abjetos, só pelo fato de que a amargura cega a sensação. Não acredita no amor, mas acredita na zombaria traiçoeira. Por onde é que andou sua cabeça enquanto seu corpo se movimentava sem que você pudesse comandá-lo? Reúna suas partes e não se esqueça daquilo que te fez ser quem é hoje. 

     O fantasma encontra outras formas quase tão invisíveis quanto ele. Decide tocá-las, por instinto, pois se recorda de que não consegue sentir. É quando se surpreende e cada contorno começa a ganhar forma. Essas novas sombras se revelam e o fantasma sente que fez tudo o que era possível e tudo o que era preciso. Sente brotar no seu rosto o lumiar de um esquecido sorriso. 

     Não podemos tocar o que nem está ao nosso alcance. Qualquer vislumbre de algo assim é apenas outro devaneio distante. Qualquer sonho vívido é uma lembrança perdida nos campos de centeio. Qualquer sonho acordado é cheio de significado alheio. Pare. Veja o que acontece ao seu redor e esqueça tudo o que se esqueceu de você. Seu valor é imensurável! Não se trate com menos amor do que deve, mantenha a compostura, seja forte e corajoso. São estes impulsos básicos que me lembram de que é a singularidade que me torna poderoso. Os ponteiros se movimentam e noto que o relógio da minha vida voltou a funcionar. Os românticos são mais lentos no começo e no fim, mas quem é que pensa que algum dia vai me tirar de mim? Estão errados. A vida é uma só e é fugaz, pois que todo descanso seja breve e que sua vida agora seja leve e repleta de paz. 

     O fantasma não se parece mais como antes. Retirou a máscara encarando o espelho diante de si e outros imitaram seu gesto. Ele não parou para contar, pois nunca havia desejado aquilo. Outra parte sua admitia: "é o que sempre quis". Todos se olhavam nos olhos, livres do tom tipicamente acusatório, olhos dançantes, línguas vibrantes, gente realmente feliz. 

     Atraso outra vez, mas nunca perco o tempo das coisas importantes. Há tanta gente que não se responsabilize pelo que fez e acha que tudo um dia volta a ser como antes. Estão errados. A certeza é um impulso grosseiro e arrogante. Sinto falta de coisas que nem cheguei propriamente a ganhar ou a perder. Sei de coisas que não sei, mesmo antes de nascer? Não. Ainda assim sou certo nas horas de incertezas. Exige-me o excesso, mas sou o andarilho discreto, colecionador de sutilezas. O que me deixa em letargia? Qual o nome do monstro que transformou minhas ofensas em poesia? Canso-me e meu cansaço pesa a alma. Sorrio aliviado e a única certeza que preciso ter antes de dormir é de que a vida é fugaz e que a madrugada me acalma. Abandono-me, enfim, pelo meu merecido sono. O que está feito nunca se desfaz. Às vezes é necessário chegar na hora certa. 

Atrasos do acaso
Cuidados
que não quero mais
O que era pra vir
veio tarde
E essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz. 

Paulo Leminski.



quarta-feira, 6 de março de 2019

Chave e porta

     É difícil, tudo bem? Evite ficar por perto, pois eu... Eu...

     Sou cauteloso e simultaneamente descuidado. Ainda há certas iscas que deixam em meu caminho, pois sempre acham que vou morder. A culpa é minha, pois escolho ser o que sou e só sei ser de maneira espontânea. É fácil que me vejam e não é tão difícil que me enxerguem, acaso realmente prestem atenção. Quando tudo é simples, eu pareço complicar. Quando tudo é complicado, eu pareço simplificar. Quem é tolo, afinal, para entrar em uma armadilha cônscio de que vai se machucar? 

     É que às vezes a gente quer sentir machucar para saber que ainda vive. É que às vezes a gente prefere inventar pelo puro prazer de dizer: eu já tive! É que às vezes a gente não gosta mais, mas se acha no direito de continuar possuindo. É melhor ter alguém pra abraçar do que admitir que não está mais sentindo... 

     Tenho respondido de maneira invertida. Bagunçaram a minha cabeça. Ela que costumava ser tão cética, precisa e racional. Agora vivo como se não existisse necessidade de sentir medo. Existe? Qualquer dia desses vou acordar e não vai restar nem a sombra do que há. Qualquer dia desses tudo fica ainda mais fora do lugar. A qualquer momento nem acordar vou. O que tenho dito mesmo? Só vale a pena viver em nome do amor? Sou, em regra, muito humano para ser exato, mas por vezes sinto que sou demasiadamente exato para ser humano. Toda alma clama por libertação e por exterioridade. É que lá no fundinho todo mundo só deseja ser exatamente aquilo que é. Soa fútil? Dói tanto assim?

     Acumulei tantos fracassos, que tinha meu rosto, mas não meus passos, aquela aparição. Não havia tempo e sequer espaço, apenas face, sem cansaço, desprovido das marcas velhas de tantas centelhas de toda minha preocupação. Só faltava o nariz de palhaço para combinar com meus andrajos circenses. Assim, eu me desfaço. Desfaleço e sinto o corpo bater contra o chão, mas nem sei se a dor me pertence. Sou um inteiro em mil pedaços, recolher é colocar a mão em afiados cacos, arriscando o corte profundo, sangue escuro, destruição. 

     Você deve ser prático. A jornada é sempre repetida. Alguns sofreram mais e outros sofreram menos. Alguns sofrerão mais e outros sofrerão menos. Você espera palavras de conforto, mas no íntimo você admite aqueles antigos impulsos egoístas e repete baixinho, quase de maneira inaudível, um sussurro manso...

     
Que é que sou eu que tanto mereço, que de memória perfeita ainda me esqueço e, fatalmente, deleito-me em sonhos lúcidos no trono da solidão? A ação é o instinto da fé? Sozinho vou por onde quiser? Que é que sou, que mesmo sendo, ainda não sei exatamente o que ser? Existe quem sofra como eu devaneando em planos distantes sobre o dia em que vai vencer? Eles não sabem. É que ninguém sofre como eu. 

     E é claro que você está com a razão. Ainda que seja mudo alguém dará um jeito de promover a sua vituperação. Na vastidão deste mundo pirado e repleto de insanidades, você se questiona se é único ao ser verdadeiro. Na solidão que me punge à realidade, você identifica cada lobo em pele de cordeiro. Desejam descaradamente o oposto do que pedem. Querem sentir de tudo o gosto, mas o peso das ações jamais medem. Algumas roupas deixam de servir no corpo com o passar do tempo. Azar é de quem não olha nos olhos. Sorte é de quem sabe reconhecer o oportunista. Às vezes o rosto bondoso e o sorriso pomposo é a melhor máscara do vigarista. Tenho me especializado nisso, mais por instinto do que por estudos, mas temo, às vezes, ter me distanciado do mundo. Construo muros e os derrubo. Quero amar e ser amado também. Sinto-me estático, mas tenho tentado ser simpático apenas para evitar o desdém. Se tiver paciência então poderá ver minha essência e... É melhor deixar esse assunto todo de lado. Quem é que quer ser certo quando se consagra sempre o errado? Chegam-me frases absurdas de pensamentos tolos, pungentes, mas impossivelmente reais. Meditações inconsequentes de irrealidades possíveis. Tudo o que importa está atrás daquela porta, que por todas as razões certas e erradas você nunca quis abrir. Seu segredo é que foi dominado pelo medo e não quer deixar de existir. Se apega, pois não quer ser ferido. É estranho, mas hoje você sente o tanto que tem envelhecido. A empatia quase sempre é uma farsa. Sofremos quase sempre somente com as nossas próprias dores. Evitamos decisões, nunca estamos convictos, apontamos o dedo e às vezes não estamos dispostos a fazer o nosso melhor. É o vil que nos desperta. Conheço-me e desconheço ainda mais os meus sentidos. 

     Assim me equiparo aos loucos e grito até ficar rouco, pois é preciso acordar para ver além desta grande miragem. À margem da existência nós todos somos muito poucos, mas notável é nossa resistência. Para lutar basta fibra e coragem. O dia hoje soa perfeito para um novo começo. Você segura a chave. Quer abrir a porta?