sexta-feira, 22 de março de 2019

Assunto perdido

   Certa vez, pediram-me para que me afastasse. Bom, você sabe, um clichê, um clássico... “São dois mundos diferentes e há, obviamente, líquidos que não foram feitos para se misturar”. Ainda que eu soubesse de nossa solidez, preferi me calar. Gosto disso, confesso, pueril como sou e continuo sendo, pois é só como posso ou quero ser. Falem comigo utilizando poesia, por favor. Ataque com maestria exatamente onde me deixaram ferido em nome do amor. Diga que eu poderia chorar oceanos ou uivar para a lua cheia e diga que nada disso adianta. Diga que nas noites de frio quando me pune o vazio, você não me ofereceria nem uma manta. Diga que eu escureci sua alma e me torne responsável por aquilo que nunca cativei. Toda dor é egoísta e todo sofrimento é singular, eu sei. Quem se interessa em se interessar? Eu me preocupo e por tal fato sou ridículo. Sou bom leitor, pesa-me esta maldição, pois leio sempre as entrelinhas, mesmo na escuridão. O que te assusta cabe em meu coração. 

   Um olhar certeiro e um sorriso de canto de boca. Uma prece muda quando se vão todas as roupas. Um iminente perigo e um assunto perdido. O que acontece com a gente quando a gente não deixa nada acontecer?

   Outro dia falei sobre o meu cansaço ósseo, recorda-se? Aquela exaustão profunda, mas perfeita. A sensação que me retesa, mas que é estranhamente profícua. Ainda está me acompanhando? Espero que não, mas torço para que sim. Não sei direito aonde vou, mas eu me sentiria melhor se fosse bem acompanhado. Você vê quão rápida é a vida de um inseto? A morte não faz distinção entre santos e abjetos. Nota como o mundo rasga sonhos como um escritor rasga um pedaço de papel? Ninguém por aqui pensa nas árvores e ninguém pensa no mundo. Honestamente seria capaz de odiar a todos, acaso pensassem em trivialidades nestes raros momentos de importância identificável. Qual é o problema?

   O meu problema é que sou horrível em querer o que quero querer. Quando devo falar o meu silêncio pesa indizível. Quando falo, eu sinto que era melhor me abster.

   Canso-me das opiniões alheias tão sem fundamentos e tão repletas de preconceitos. Sinto-me em lassidão e não sei se estou despencando ou se meu corpo jaz colado ao chão. O que sei não interessa a quem sabe significar o que vale a pena interessar. Todos opinam tanto que sinto um profundo vazio existencial. Um arrepio atravessa minha espinha e repouso a mão na ponta do coração, bem no impulso apical. Chame-me de Ictus Cordis ou de qualquer outra coisa, mas quando decidir meu nome, por favor, nunca se esqueça. O clima é propício e todos os tolos, inclusive eu, tentam dizer ou calar coisas. A inversão é desastrosamente comum. Geralmente falamos muito quando a situação pede silêncio e silenciamos quando devemos nos mostrar. Como falar da maneira correta se nada jamais permanece no lugar? Como dar conforto a quem nunca conheceu um lar? Como se manter sensato e saudável com tantas coisas ruins sendo feitas? Como afastar os monstros tão temíveis que jazem à espreita?

   Diálogos díspares. Um discursa sobre o universo enquanto o outro resume a vida na apoteose brega de um verso. Um fala muito e outro escuta tanto. Este acha que o primeiro quer ser temido, mas é crescente o encanto. 
- Quando foi que mudamos de assunto? Falávamos sobre o que mesmo?

   É sobre tudo e é sobre nada também. É sobre praticidade e sobre qualquer outra coisa com qualquer outro nome. É sobre um cansaço inexplicável que me atinge quando deveria estar repleto de energia e sobre a energia inexplicável que sinto quando deveria estar exausto e faço poesia. É sobre crer (quase) sozinho em coisas frágeis. É sobre um herói sem poder que salva mais vidas do que você jamais imaginaria. É sobre acreditar no que te faz ser quem você é e ser exatamente isso com a convicção de que isso leve além. É sobre fazer cursos improváveis que valorizem suas singularidades e sobre sonhos impossíveis que talvez nem devessem existir. É sobre quartos bagunçados e corações arrumados. Sobre existencialismo, excentricidades e histórias. É sobre conquistar o mundo e sobre fracassar. É sobre amálgamas discretas e poderosíssimas retidas em contos desacreditados e também sobre lágrimas que abrangem Tudo. É sobre o rosto que eu tinha antes da criação do Universo e ainda sobre o resumo que faço da vida na apoteose absurda de um verso. É, enfim, sobre fragmentos de memórias, essências e almas. É sobre amizades novas de outros continentes e outras vidas. Acima de tudo é sobre bons momentos, amor e felicidade. É sobre não ser ilha isolada, sobre as partes que nos formam. É sobre aprimoramento, construção e alegria. Perco-me novamente no que gostaria de dizer, mas entre tantos embaraços, eu tropeço, entretanto, sou duro como o aço e naturalmente formo laços: sei o que fazer. Sei que nem toda palavra rima, mas cri que minha esquecida sina é o que me traz prazer. Perdi-me noutra esquina vagando na madrugada. Cuidado por onde vira, pois essa é a hora dos fantasmas. Peguei-me rindo com a lembrança da frase: a rua é cheia de perigos. Preocupe-se quem quiser ou quem não sabe o que quer. Eu dirijo para achar o assunto perdido. 

domingo, 10 de março de 2019

Atrasos do acaso

     Pesa-me a alma um cansaço sobrecarregado de outras vidas, pairando em meus ossos como se fluísse junto com meu próprio sangue ou o integrasse. Levanto-me apenas para ações mecânicas e necessárias, mas ao que noto quando me observo fora de mim, aparento como alguém que tivesse disputado e vencido diversas corridas por uma diferença de centímetros. Encontro a minha presença física ao fitar minha imagem refletida diante do espelho. Procuro embelezar meus defeitos e vilipendiar minhas qualidades. É este cansaço que me pesa e que me faz ser como os bichos de rua. Tal como eles quase sempre me falta o afago certo, mas é comum a palavra ríspida dita de perto, até daqueles que possuem boas intenções. 

     O fantasma anda pela praia. Tenta recolher conchas, mas não é capaz de erguer nada. De que vale existir quando não se pode tocar?

     Pesa-me na existência uma fraqueza com cheiro de morte, porém, basto-me em essência e confio na sorte. Ultimamente, eu devo confessar, olhei para tantas coisas da maneira errada. Só queria que o meu convencimento bastasse, mas todos sabem o que dizem sobre a emoção: é melhor contê-la. Eu e você, impossível? Não é motivo para não querê-la. Pesa-me a pungência de cada pensamento singular, de cada coisa fora do lugar, de cada roupa que esqueci de lavar. Resmungo, mas não admito por birra e apego: sou feliz agora, pois tenho superado o medo. Fiz alguns amigos e eles não sabem o quanto me ajudaram. Torna-me leve esta lembrança e o peito estufado solta um suspiro cheio de esperança, mas sei que é ainda cedo para acompanhá-los nas danças. 

     O fantasma vê uma figura ao longe e acelera seus passos translúcidos. Cada onda se assemelha com uma tsunami, mas a água atravessa seu corpo sem arrastá-lo. Ele precisa alcançar aquela imagem. 

     Atraso por razões quais desconheço. É muito cedo, portanto, não faço alarde. Derramo-me em mim e sinto meu cansaço novamente. Minha alma busca por voz e espaço, porém, quando checo o relógio já é tarde. Levo broncas bem humoradas, mas minhas melhores companhias já estão ficando acostumadas. Sorrio e evito provocações. Sou autêntico em existir e todos conhecem meus pontos fracos, mas faço das minhas vulnerabilidades o meu maior escudo, quando me atacam, eles sempre mostram tudo, mas dificilmente me levam ao chão. Quando caio, é óbvio, eu preciso de um tempo para me recuperar da dor da queda, mas minha teimosia anda lado a lado com a valentia. Cônscio de mim, mas sem entender de onde tirei novas energias, agora estou de pé e com os punhos cerrados. Sorrio presunçoso, pois ainda que não saia vitorioso, o adversário se assusta com o fato de eu ter levantado. É assim que deve ser. Somos mais do que a história de escória narrada sobre nós. 

     O fantasma alcança a imagem, desfaz-se diante de seus olhos opacos a miragem, tudo o que há é o mais novo do que há de velho. Diante da imagem refletida, ele reconhece que pode ler a mensagem dolorida, o que revela o espelho é seu próprio reflexo. Um fantasma precisa de nexo? Ele se vira e parte em outra direção. Até mesmo os invisíveis querem sentir bater o próprio coração. 

     A vulgaridade de querer saber tudo quando nada se sabe é o que nos define. Se a sua intenção for crua e má, tome cuidado para não se machucar, nem tudo o que eleva te torna sublime. Aos olhos de quem não sabe ou não quer ver como se deve, um floco de neve é mero grão de poluição. Atente-se. Da perspectiva dos amargurados toda festa é uma oportunidade equivocada de reunião, toda demonstração de afeto não passa de expressão falsa de ternura dos abjetos, só pelo fato de que a amargura cega a sensação. Não acredita no amor, mas acredita na zombaria traiçoeira. Por onde é que andou sua cabeça enquanto seu corpo se movimentava sem que você pudesse comandá-lo? Reúna suas partes e não se esqueça daquilo que te fez ser quem é hoje. 

     O fantasma encontra outras formas quase tão invisíveis quanto ele. Decide tocá-las, por instinto, pois se recorda de que não consegue sentir. É quando se surpreende e cada contorno começa a ganhar forma. Essas novas sombras se revelam e o fantasma sente que fez tudo o que era possível e tudo o que era preciso. Sente brotar no seu rosto o lumiar de um esquecido sorriso. 

     Não podemos tocar o que nem está ao nosso alcance. Qualquer vislumbre de algo assim é apenas outro devaneio distante. Qualquer sonho vívido é uma lembrança perdida nos campos de centeio. Qualquer sonho acordado é cheio de significado alheio. Pare. Veja o que acontece ao seu redor e esqueça tudo o que se esqueceu de você. Seu valor é imensurável! Não se trate com menos amor do que deve, mantenha a compostura, seja forte e corajoso. São estes impulsos básicos que me lembram de que é a singularidade que me torna poderoso. Os ponteiros se movimentam e noto que o relógio da minha vida voltou a funcionar. Os românticos são mais lentos no começo e no fim, mas quem é que pensa que algum dia vai me tirar de mim? Estão errados. A vida é uma só e é fugaz, pois que todo descanso seja breve e que sua vida agora seja leve e repleta de paz. 

     O fantasma não se parece mais como antes. Retirou a máscara encarando o espelho diante de si e outros imitaram seu gesto. Ele não parou para contar, pois nunca havia desejado aquilo. Outra parte sua admitia: "é o que sempre quis". Todos se olhavam nos olhos, livres do tom tipicamente acusatório, olhos dançantes, línguas vibrantes, gente realmente feliz. 

     Atraso outra vez, mas nunca perco o tempo das coisas importantes. Há tanta gente que não se responsabilize pelo que fez e acha que tudo um dia volta a ser como antes. Estão errados. A certeza é um impulso grosseiro e arrogante. Sinto falta de coisas que nem cheguei propriamente a ganhar ou a perder. Sei de coisas que não sei, mesmo antes de nascer? Não. Ainda assim sou certo nas horas de incertezas. Exige-me o excesso, mas sou o andarilho discreto, colecionador de sutilezas. O que me deixa em letargia? Qual o nome do monstro que transformou minhas ofensas em poesia? Canso-me e meu cansaço pesa a alma. Sorrio aliviado e a única certeza que preciso ter antes de dormir é de que a vida é fugaz e que a madrugada me acalma. Abandono-me, enfim, pelo meu merecido sono. O que está feito nunca se desfaz. Às vezes é necessário chegar na hora certa. 

Atrasos do acaso
Cuidados
que não quero mais
O que era pra vir
veio tarde
E essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz. 

Paulo Leminski.



quarta-feira, 6 de março de 2019

Chave e porta

     É difícil, tudo bem? Evite ficar por perto, pois eu... Eu...

     Sou cauteloso e simultaneamente descuidado. Ainda há certas iscas que deixam em meu caminho, pois sempre acham que vou morder. A culpa é minha, pois escolho ser o que sou e só sei ser de maneira espontânea. É fácil que me vejam e não é tão difícil que me enxerguem, acaso realmente prestem atenção. Quando tudo é simples, eu pareço complicar. Quando tudo é complicado, eu pareço simplificar. Quem é tolo, afinal, para entrar em uma armadilha cônscio de que vai se machucar? 

     É que às vezes a gente quer sentir machucar para saber que ainda vive. É que às vezes a gente prefere inventar pelo puro prazer de dizer: eu já tive! É que às vezes a gente não gosta mais, mas se acha no direito de continuar possuindo. É melhor ter alguém pra abraçar do que admitir que não está mais sentindo... 

     Tenho respondido de maneira invertida. Bagunçaram a minha cabeça. Ela que costumava ser tão cética, precisa e racional. Agora vivo como se não existisse necessidade de sentir medo. Existe? Qualquer dia desses vou acordar e não vai restar nem a sombra do que há. Qualquer dia desses tudo fica ainda mais fora do lugar. A qualquer momento nem acordar vou. O que tenho dito mesmo? Só vale a pena viver em nome do amor? Sou, em regra, muito humano para ser exato, mas por vezes sinto que sou demasiadamente exato para ser humano. Toda alma clama por libertação e por exterioridade. É que lá no fundinho todo mundo só deseja ser exatamente aquilo que é. Soa fútil? Dói tanto assim?

     Acumulei tantos fracassos, que tinha meu rosto, mas não meus passos, aquela aparição. Não havia tempo e sequer espaço, apenas face, sem cansaço, desprovido das marcas velhas de tantas centelhas de toda minha preocupação. Só faltava o nariz de palhaço para combinar com meus andrajos circenses. Assim, eu me desfaço. Desfaleço e sinto o corpo bater contra o chão, mas nem sei se a dor me pertence. Sou um inteiro em mil pedaços, recolher é colocar a mão em afiados cacos, arriscando o corte profundo, sangue escuro, destruição. 

     Você deve ser prático. A jornada é sempre repetida. Alguns sofreram mais e outros sofreram menos. Alguns sofrerão mais e outros sofrerão menos. Você espera palavras de conforto, mas no íntimo você admite aqueles antigos impulsos egoístas e repete baixinho, quase de maneira inaudível, um sussurro manso...

     
Que é que sou eu que tanto mereço, que de memória perfeita ainda me esqueço e, fatalmente, deleito-me em sonhos lúcidos no trono da solidão? A ação é o instinto da fé? Sozinho vou por onde quiser? Que é que sou, que mesmo sendo, ainda não sei exatamente o que ser? Existe quem sofra como eu devaneando em planos distantes sobre o dia em que vai vencer? Eles não sabem. É que ninguém sofre como eu. 

     E é claro que você está com a razão. Ainda que seja mudo alguém dará um jeito de promover a sua vituperação. Na vastidão deste mundo pirado e repleto de insanidades, você se questiona se é único ao ser verdadeiro. Na solidão que me punge à realidade, você identifica cada lobo em pele de cordeiro. Desejam descaradamente o oposto do que pedem. Querem sentir de tudo o gosto, mas o peso das ações jamais medem. Algumas roupas deixam de servir no corpo com o passar do tempo. Azar é de quem não olha nos olhos. Sorte é de quem sabe reconhecer o oportunista. Às vezes o rosto bondoso e o sorriso pomposo é a melhor máscara do vigarista. Tenho me especializado nisso, mais por instinto do que por estudos, mas temo, às vezes, ter me distanciado do mundo. Construo muros e os derrubo. Quero amar e ser amado também. Sinto-me estático, mas tenho tentado ser simpático apenas para evitar o desdém. Se tiver paciência então poderá ver minha essência e... É melhor deixar esse assunto todo de lado. Quem é que quer ser certo quando se consagra sempre o errado? Chegam-me frases absurdas de pensamentos tolos, pungentes, mas impossivelmente reais. Meditações inconsequentes de irrealidades possíveis. Tudo o que importa está atrás daquela porta, que por todas as razões certas e erradas você nunca quis abrir. Seu segredo é que foi dominado pelo medo e não quer deixar de existir. Se apega, pois não quer ser ferido. É estranho, mas hoje você sente o tanto que tem envelhecido. A empatia quase sempre é uma farsa. Sofremos quase sempre somente com as nossas próprias dores. Evitamos decisões, nunca estamos convictos, apontamos o dedo e às vezes não estamos dispostos a fazer o nosso melhor. É o vil que nos desperta. Conheço-me e desconheço ainda mais os meus sentidos. 

     Assim me equiparo aos loucos e grito até ficar rouco, pois é preciso acordar para ver além desta grande miragem. À margem da existência nós todos somos muito poucos, mas notável é nossa resistência. Para lutar basta fibra e coragem. O dia hoje soa perfeito para um novo começo. Você segura a chave. Quer abrir a porta?

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Interlúdio

     Agradeci pelo dia antes que ele começasse. Foi um erro. Estou cônscio de que tudo foi péssimo: sem graça, desgraçado ou simplesmente exaustivo. Há apenas uma, preste atenção, uma partícula frágil e minúscula misturada na existência do Universo que faz com que algo tenha valido a pena no dia de hoje. Minto. Não há nada pelo qual queira agradecer. Alimentei minhas gatas como quem não esquece de regar as plantas, mas sequer me preocupei em lhes oferecer o carinho que tanto pedem. Esqueci-me de que elas não eram plantas. Qual valor tenho eu se não demonstro amor quando o tempo se fecha? Lembre-se das tão preciosas palavras e nomes e rostos e contornos. Não desista da vida, rapaz. Mantenha a cabeça erguida, pois você é capaz, mas de que adianta ter essa capacidade?

     Gente igual nunca se viu (por aí), mas meu instinto vil produz uma espécie de comoção. Emociono-me em mim. Eu mesmo sou digno de gotículas salgadas de água. Derramo lágrimas pela minha pessoa, pois sinto orgulho, pena, raiva e alegria por ser quem eu sou. Ora, você entende, mesmo quando faz questão de não querer entender, certo? Para quem perdeu o mundo inteiro ainda jovem é difícil se manter sempre desperto. Se pessoas assim se valem do sono, por que eu não posso desfrutar do meu próprio abandono? Há tanta autocomiseração ou tenho mesmo feito tudo de errado? Questionamentos inúteis e fugazes. Pessoas fúteis e afáveis. Por que é que me sinto compelido a procurar por alguém? Não posso ser feliz sozinho. Essa é a única conclusão que se mantém.

     Concluo que minha única conclusão não poderia estar mais errada e que a única coisa em que me embasei era amplamente vaga. Não, eu não preciso de pessoa alguma. Se todas as velhas presenças em minha vida desaparecerem, é preciso respirar fundo e começar de novo, certo? É preciso dar novas chances ao amor ou aos astros ou às capacidades novas sistêmicas de sistemas nem tão novos assim. É necessário acreditar que o coração, mesmo tão frágil, é o mais forte de todos os músculos e o meu é feito de material mais resistente que o vidro. Se me despedaçarem, tudo bem, eu me sinto quase exausto, mas nunca fui de me render. Levanto sem pressa, pois a morte é o único caminho para todos. Saio de casa numa noite em que pretendia ficar recostado em um canto e para meu espanto deixo que me descubram. Uma. Duas. Três. Dez pessoas me enxergam de verdade. Ofereço um cumprimento ao ouvir uma até então desconhecida dizer troféus, pois é preciso apertar a mão de gente assim. Escuto sobre O Senhor dos Anéis e há até quem fale sobre jutsus. Faço amizades ou pelo menos contato. Não é fácil. Cada demonstração de simpatia me leva à exaustão. Cada qual é tão diferente e eu não sei quem ninguém é, mas de repente ficaram mais interessantes até as músicas do Zezé. Pausa. 

     Não é necessário exagerar. Olhos nos olhos. Mãos nas mãos. Corações que foram afastados e estão distantes ou até os que nunca se encontraram podem encontrar alegria quando se (re) unem. De que raios estou falando? Não faço sentido, mas já nem sei se quero ou preciso fazer. Devaneio no passado, vivo dormindo e mal existo quando acordado. Sou ou estou errado? Deixe de lado o passado, os intrometidos vão dizer, mas que diabos eles sabem dos caminhos que levam até você? Mãos nos olhos, olhos nas bocas, corações no céu. Tremi ao fitar a nova mulher e nem pude desempenhar meu papel. Estava cheio de emoção e paráfrases prontas, mas quando chegou a hora de falar me senti uma barata tonta. Pausa. 


     Não é exagero exagerar. Tudo precisava ser mesmo assim? Se não faço interlúdios em minhas canções mudas, eu me perco de mim. Como sou saudosista! Emudeço diante da música nova e me deixo transportar para trás. Uma garota escreve anotações distraídas em seu caderno. Fito-a. Talvez seja a única brecha que ela jamais me deu. O tempo é distinto e distante. A mulher? É a que nunca conquistei. Nenhum alento foi o bastante, quem dera soubesse antes, tudo o que agora eu sei. Pausa. 


      Interlúdio. 

      Intervalo.
      Intercessão. 


      Respiro fundo após constatar que acumulei tantos fracassos, mas no corredor escuro sou capaz de escutar passos em minha direção. É um velho fantasma que possui o meu rosto, noto, porém, resolvo que não posso tomar sustos de alguém que tem a minha própria face. Sorrio. Estou melhor assim. Dane-se tudo, pois possuo os sonhos todos do mundo em mim. Sei que não tenho nada agora, mas com a longa noite chega o sono e é chegada minha hora. Se não posso ser completamente feliz nos dias, se sou às vezes tachado de incrível ou enfadonho, quando durmo sou nada e tudo, o melhor homem do mundo, eterno rei do etéreo sonho. Pausa. Troco de roupa ou não visto roupa alguma. Cubro-me com dois edredons pesados e ligo o ar-condicionado. 


      É hora de encontrar quem desapareceu.
     Boa noite. 
     

Insensatez do orgulho obstinado

     Pediram a minha opinião, embora, eu já soubesse que não a considerariam. Fitaram-me, porém, com olhos grandes e curiosos como a lua quando completamente cheia; exatamente com aqueles olhos de quem se importa, ainda que a mentira seja palpável. Eu sabia que se tratava apenas de um artifício vão de distração. Obviamente não se importavam. Todos querem soluções mágicas transformadas em plantas de plástico capazes de receberem suspiros de admiração. Não interessa se são falsas, uma vez que sejam belas. E o seu coração é mais quente, você se sente diferente, mas no fundo é igual a quase toda essa gente e baixinho sussurra... 

     Não. Por favor, não. Eu não quero ser assim. Que me tirem tudo, mas que tirem o resto do mundo de dentro de mim. Só me deixem ser quem sou, ainda que seja um solitário caminho. Só me deixem, por favor, ainda que eu ande sozinho. 

     Talvez não seja necessário ser minimamente igual a todos, mas é improvável. Você deve cumprir seus horários e ser afável. O que você faria se não te considerassem alguém respeitável? Use camisetas, camisas ou gravatas, mas não se desfaça jamais do teatro que compõe seus atos e que te transforma (transtorna) em uma pessoa sensata. As razões e os motivos matam a mágica. Exigir garantias que te reservarão uma suposta felicidade de bolso apenas provará quão frágeis são os medos quais você tem exposto. Você segue tendências, mas nem sabe quais partes compõe sua essência. Meu mundo é frágil enquanto o de tanta gente é apenas ágil, embasado em aparências. Entre tantos detalhes que alteram a nossa percepção, pergunto de maneira vaga: quanto vale o seu coração? 

     Muito se fala de empatia e reciprocidade, mas em minha rebeldia não tenho visto nada de novo na cidade. Meus olhos estão sempre atentos, mas minha outra parte anda bastante distraída. As mesmas pessoas fecham as mesmas rodas; os ditos maus são comumente exaltados, pois eles são desejáveis, belos e possuem a compreensão arrogante capaz de fragilizar todas as coisas de essência forte. É impressionante quanta boa gente se arrasta vagarosamente para os mesmos caminhos de dor. É impressionante, quando se sente, observar o que se faz por amor. Eu, bobo, admiro de longe e me considero um cara de sorte, mas de que vale essa sorte se toda sorte de malefícios me acometem? De que vale sequer tentar ser bom se o alvo em nós é a única coisa que cresce? Qual é o seu tempo, sem tempo, para me dizer que agora é diferente? Quem é que sem tempo ataca o momento pelo simples prazer de permanecer? Quem é que sabe que ama outra pessoa e voluntariamente decide caminhar de volta até você?

     Vocês são todos loucos, eu gritei até ficar rouco, apertando com força os meus próprios cabelos. Vocês são tantos e os que se parecem comigo são tão poucos, por isso é que me encontro prostrado de joelhos? Levanto-me devagar, pois ainda não sei bem o meu lugar e observo. Um palhaço se derrama em declarações de amor por um ilusionista e eu só posso dar risada. Você é uma das melhores pessoas que já conheci, diz sem saber que ele próprio era a maior das piadas. E eu tenho dó, mas me poupo de outros laços e nós, que descubram por conta própria e da maneira mais dolorosa. A gente nem sempre pode ser herói, pois um ato nos torna vilão no meio da polvorosa. Todos usam tantas máscaras que você será julgado de maneira atroz por ter revelado seu rosto. Não será perdoado e do teu sangue vão querer sentir o gosto. 

     Tolero quase todos os tipos de atitude, mas não suporto gente que nunca muda e exige que o outro mude. Saiam de perto de mim. Aguento tinta! Eu deixo que meu interno seja questionado e você? Sei que em algumas obras sucintas o meu rosto foi demonizado. Somos todos heróis ou antagonistas na trama de alguém, certo? Ainda que alguns casos surjam das mais hipócritas imaginações... Oportunistas de pensamentos desertos repletos de más intenções. Tolero até a tolice juvenil, mas não me peça para que seja infantil quando me disser o que precisar dizer. Sei que não tolero que finjam amor por mim e que não tolero também a insensatez do orgulho obstinado. Você sabe que não está certo, mas tenta convencer o outro de que ele está errado. Não. Há limites até para os que amam de maneira descontrolada e odeiam ver a terra arrasada onde um dia só houve flores. Não. A insensatez obstinada não pode se sobrepor, principalmente em nome dos amores. Não. Se você pensa que é alguém que pode tolerar qualquer tipo de coisa, é simplesmente uma pessoa perdida que não entende absolutamente nada. 

Talvez eu continue a te amar
Até que as estrelas parem de luzir
Talvez eu te espere em outro lugar
Desde que você nunca pare de sorrir
Talvez eu continue a te amar, 
mas não há bondade em seu rosto
Você não pode querer me conquistar
Enquanto sentir falta de outro gosto
E assim, exposto, eu me condeno
Pois amo, mas jamais será como antes
Numa despedida fugaz de longe aceno
Hoje o amor não é o bastante
Talvez eu continuasse a te amar
Não fossem tuas vontades voláteis e fugidias
Parto agora para não mais voltar
Não haverá sombra minha no resto dos teus dias

     E isso era mais fácil do que qualquer um poderia supor, porém, não escolher também é uma maneira de fazer uma escolha. Não há proteção no silêncio que te faz imaginar que é resguardada numa bolha. Viver é correr diversos riscos e quem não se arrisca nunca pode celebrar o gosto integral de uma vitória. Já não me interesso sobre como será o final desta história. Tampouco me importa quem é bom ou mau, quem sai de certo ou errado, mas de todas as coisas que eu poderia perdoar, a minha capacidade de amar não tolera a insensatez do orgulho obstinado. 

     

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Vazio existencial

     Escrevo para me esquecer. Escrevo quando sinto que preciso: não divido meus hábitos e nem creio em paraísos. Escrevo para te esquecer. Esqueço (escrevo) para me lembrar. Escrevo, pois já não sei se vale a pena continuar. Escrevo, ainda assim, por sentir o mal estar do mundo inteiro. Escrevo por conta das pequenas mentiras que conto, mas elas não me tornam menos verdadeiro. Ainda sou capaz de ferir a qualquer pessoa com minhas aspereza sincera. Escrevo mais, pois não sei mais o que há. Esqueço para desconhecer quem um dia foi tão bela. Escrevo porque nada vale a pena, porém, sinto que um dia valerá. 

     Não pude diminuir a distância de Campo Grande até a Nova Zelândia ou até o Japão. Não pude diminuir a distância da sua ausência no vácuo que se fez no espaço que te pertencia no meu coração. Eu fracassei outra vez. Era isso o que você gostaria de ler? É estranho, mas ainda quero que você tenha consciência sobre algo. Eu vou dizer apenas uma vez, pois não estou louco. Tudo o que não fez por mim soube que fez em nome de outro. É assim que é. Dói? Não posso diminuir distâncias, mas posso ir até lugares mais próximos. Acredita que até já tentaram me resgatar? Ri da ironia da situação. No fundo do poço, eu recusei a mão amiga para permanecer na escuridão. 

     Existe uma diferença substancial que nos separa. Você acredita que deve viver para bajular os outros. Acredito que devo viver por mim. Essas epifanias me fazem te enxergar como um porco, mas, pode não ser assim tão mal. Soube que na China é o ano do porco, afinal? Não sei sobre o que discorro, mas sinto que se não liberar essa rebeldia, eu morro. Não, não morro. Vivo. Eu não posso diminuir distâncias, mas recebi outros abraços no escuro. Alguém ainda iluminará minha cansada retina e me compreenderá na solidão. Até lá, tudo bem estar sozinho. O silêncio pode ser amigo. Eu não estive assim por quase todo o meu caminho? A vida é engraçada. Não posso diminuir a distância entre Campo Grande e meus amigos ou Dourados e minha felicidade ou Brasília e meu emprego dos sonhos ou São Paulo e meus irmãos. Essa nova fase, porém, é de aprendizado. Memorizei os hábitos dos gatos e assimilei o peso dos fardos. Isso não me faz querer desistir. É o peso e a dificuldade que me fazem seguir. Como você se sente?

    A gente é o que não mente. A gente é o que não mente. A gente é o que não mente. Repito até que a frase preencha meu vazio existencial. É por ser tão sozinho que me sinto anormal (especial)?

     Não divido meus hábitos. Não divido meu amor. Você me agarrará se for capaz, mas tome cuidado. Meu instinto arredio me fez fugaz. Talvez durante a noite tranquila de sono profundo, imersa em sonho você me esqueça. Talvez quando você acordar a minha velha presença, enfim, desapareça. Nunca me divido. Você ainda não entendeu. Algumas despedidas são eternas e você não vê. Acha que a crueldade se romantiza. Em algum lugar eu paro e espero por você?

Eu parto como o ar
Sacudo minha neve branca ao sol que foge
Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo
Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus pés
Dificilmente saberás o que sou ou o que significo
Não obstante serei para ti boa saúde
Filtrarei e comporei teu sangue
Não me encontrando, não se desespere
O que não está numa parte está noutra
Em algum lugar eu paro e espero por você

Walt Whitman