quinta-feira, 25 de julho de 2019

Treino de descrição

     Meus olhos tão acostumados à ficção cogitaram que eu estivesse mesmo sonhando. No instante em que a vi, recolhi-me, como quem se exaspera pelo medo de cometer alguma gafe irreversível. Quis me aproximar, mas travei. As pernas pareciam bigornas e o peso era excessivo. A garganta, de repente, secou. As mãos suaram e os dedos que até então tamborilavam, subitamente cessaram. Ergui meu olhar e o sustive na direção dela, não conseguindo posteriormente desviá-lo. Havia algo de sublime, de correto, de suficiente na mulher. Seus olhos transbordavam sua independência, sua capacidade, toda a sua segurança em apenas ser. Era a personificação da altivez. A sua idade era qualquer entre vinte e trinta anos, mas sua maturidade era intimidante para quem não sabe como tratar uma pessoa que se conhece e reconhece. Recordei-me, enfim, que eu sabia. Sorri e senti o degelo de meus temores. É necessário se movimentar por novos amores. Aproximei-me devagar e tive a sensação de que ela não recuaria. Ela piscava devagar, mas não transmitia qualquer letargia que fosse. A impressão, na realidade, era oposta. Avaliava o ambiente com uma frieza calma, pensando, maquinando, calculando possibilidades. Era de exatas, mas estranhamente humana. Sua figura era quase etérea, como alguém que fosse exageradamente bela para o ambiente, fora de encaixe. Era, sem dúvidas, alguém capaz de criar e destruir. O lábio inferior ligeiramente maior que o superior marcava a assimetria de uma boca perfeita, uma boca feita para ser beijada. Soube que sua pele era macia, antes mesmo de tocá-la. O nariz levemente curvado na ponta aumentava sua aura intelectual e estranhei a reação dela ao me perceber. Quando já estava próximo o suficiente, eu creio ter dito algo, mas não consegui me lembrar das palavras. Ela sorriu e eu cri que fosse um sinal auspicioso. 

     - Por qual razão você se aproxima de mim tão devagar?
     - Eu pensei que se eu me aproximasse rapidamente, bom, talvez você corresse. 

     No meu peito um demônio do fogo me inflamava. Auxiliava-me com conselhos, quebrava minha timidez, sussurrava segredos... Você apenas precisa continuar. Senti o gosto dos próximos anos na língua e me senti repleto de medo, mas pela primeira vez em muito tempo inteiro... Este aqui parece ser o meu lugar. Qual foi a minha surpresa, quando ela me olhou com ternura e apenas aproveitou. Eu beijei uma mulher deslumbrante e no mesmo instante ela deixou em mim o sabor do amor. 

     Menção honrosa: há quem se incomode com a palavra demônio, mas sempre que cito o terrível demônio do fogo, eu estou falando dele mesmo, o intimidante Cálcifer. Paz nos estádios, exercício de treinamento concluído, feliz dia do escritor pra mim e para todos os outros espalhados aí pelo universo. Beijão e bom final de semana!

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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Sinal de Vida

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada a sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você...
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Mas você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva, mas se sente em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta sensação
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio 
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta 
Externa-se, enfim, toda a sua dor 
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora é incentivo
O sofrimento também é um sinal
De que você ainda está vivo
Então viva, sobreviva e sorria
Quem sabe quantas
surpresas há em um novo dia?

sábado, 20 de julho de 2019

Memória

     Antes que anoiteça, por favor, diga as palavras que deixou de dizer. Antes que você escureça por dentro, por favor, diga algo que amorteça simultaneamente sua dor e prazer. Logo vai amanhecer. Faça algo, mas faça agora. Você já nota o relógio da vida ou ainda vive como se tudo fosse constante e eterno lá fora? Os dias estão mais curtos e as noites fugazes. Os ímpetos são mais brutos e expomos nossas vontades em gigantescos cartazes. Fora, na verdade, é dentro. Tudo o que você desconsidera talvez seja algo que deva considerar. As coisas pequenas e cheias de fragilidades são importantes. O agora é fundamental, mas nunca se esqueça do que ocorreu antes. Partes que nos formam, memórias, histórias, os caminhos que nos trouxeram até aqui... Hexagramas sentimentais de pontas que já não se conectam mais e também os motivos e pessoas que tanto te fizeram sorrir. Você amadureceu, não foi? Cresceu tanto! Aprendeu sobre política, geografia, cidades, sucesso e dinheiro. Sabe mais agora sobre mulheres, homens, restaurantes, bocas, ciúmes. Sabe que nas noites gélidas com a concentração e a imaginação certa, é possível sentir o cheiro de antigos perfumes? Sabe o tempo de vida de um vaga-lume? Você escuta o resfolegar dos ressentidos? Sente o hálito suave dos mortos pelos lábios de seus amigos? 

     As lições sobre o verdadeiro frio são aprendidas no inverno. Os improváveis arrepios nunca se repetem, mas é comum fechar os olhos e fingir que se esquece. Há consternação no meio dos seus pensamentos de valor? Há interlúdios entre suas canções de amor? Antes que a vida se vá e nos percamos das coisas quais nunca desejamos nos perder, eu peço para que hoje, por favor, apenas me deixe estar com você. As pessoas se partem em jornadas sem voltas. Você almoçou e saiu correndo, mas e se na próxima vez sentasse no sofá por uma hora? E se nós assistíssemos juntos aos jogos do campeonato brasileiro? E se você ficar quieto e perto nesta semana? E se o silêncio contemplativo bastar para estar ao lado de quem você ama? E se o que ainda resta de memória for uma nova história que precisa apenas de um exímio narrador? E se o que resta presta e basta para sentir a felicidade que o peso da idade recentemente lhe tirou? Eu sei, é clichê, mas um dia, se tivermos sorte, seremos velhos. Quando a velhice chegar, eu prometo que vou tentar extrair da minha futura idade os seus prazeres e suas dores. Quando for idoso vou me dedicar exclusivamente aos meus novos afazeres e aos meus velhos amores. Vou conservar a memória enquanto puder e você me prometa que ficará por perto apenas o suficiente para que eu me sinta seguro. O correr das horas enfraquece até o homem mais duro. Sabe que eu ainda me lembro hoje de tudo? 

     Meus olhos se fecham e minha percepção aumenta. Caminho em segurança pelas lembranças, lado a lado com o que me regozija e atormenta, mas desdenho das impressões quais elas se esforçam para me impor. Eu tenho olhado para o mundo com muito mais carinho e amor. Cônscio de que tudo se finda, eu vivo como se fosse morrer hoje e observo como a vida é linda. Abraço meus parentes e amigos e agradeço aos mais importantes por terem nascido. Debruço-me e conquisto uma nova mulher. Erro no flerte e não a mantenho por perto uma semana sequer. Dane-se. Afasto, aproximo, rimo, vasto, aprendo, ensino. Leio, escrevo, incomodo, sou incomodado. A vida é agora e ocorre e escorre ali do lado. O sábado é quente, mas é uma pena que meu café tenha esfriado.

     Escrevi este texto depois de passar um tempo refletindo sobre meus parentes que morreram, sobre os amigos que deixaram de ser amigos, sobre meu avô que está com alzheimer e aos poucos se esquece de alguns detalhes, sobre a minha avó que segura essa barra praticamente sozinha... A vida é frágil, rápida e tudo muda e se desgasta. Aproveite sua vida. É cedo demais para perder tanto tempo assim. Você empenha todo o seu tempo em gente que nem te olha com tanto carinho assim... 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Eu ainda não havia parado de afundar

     Sonhei que me vestia elegantemente para sair de casa, mas havia certamente algo de errado. Meus olhos ainda preservavam suas maiores qualidades, portanto, nunca deixei de ver tudo o que realmente me importava. Uma coruja jazia perto, isso era certo, mas escutei seu crocitar de uma longa distância, pois minha atenção estava direcionada para outros objetos secretos. Aproximei-me vagarosamente de um espelho grande que havia na misteriosa sala na qual me percebi e, em seguida, observei o meu reflexo. Devo confessar, primeiramente, que não me agradei ao fitar eu mesmo. A figura diabólica e deforme desafiava qualquer pitada de nexo. A face do monstro que eu via fez com que eu me enxergasse perverso. Fui tão mau assim? Senti como se estivesse me afogando e ingenuamente acreditei que alguém apareceria para realizar o resgate. Eu continuava a afundar. Alguém me contou mentiras e eu soube delas imediatamente. Sempre fui bom com a detecção de coisas banais. Quase sempre dei de ombros e deixei que mentissem, pois quem evita a verdade geralmente possui uma razão para agir assim. Desta vez, entretanto, eu reagi e vi o mentiroso se erguer em fúria, exigindo entender a razão de eu tê-lo desacreditado especificamente na última ocasião. Engraçado como se comportam quando você deixa de agir da maneira que é conveniente para os outros. 


     Eu ainda não havia parado de afundar. 

     Eu ainda não havia parado de afundar. 

     Eu ainda não havia parado de afundar. Forçava os meus braços e pernas para cima, porém, era simplesmente incapaz de alcançar a superfície. E pensar no esforço que às vezes é necessário empreender apenas para respirar. E pensar nas tantas vezes que mergulhei fundo na tentativa de salvar vidas, até mesmo quando ainda não havia aprendido a nadar. A coragem e a tolice invariavelmente andam próximas. Um pouquinho mais para lá ou um tantinho mais para cá e de repente você se vê compreendendo a própria burrice. O motivo? Você se importa e não adianta tentar raciocinar sobre algo que só consegue sentir. Quem colocou mentiras no meio das verdades que você me contou?

     Eu ainda não havia parado de afundar. 

     Eu ainda não havia parado de afundar. 

     A batida do meu coração pulsa pela sua vida. São as partes que nos formam. Verdades que nos alcançam. Conversas rápidas. A sinceridade que se cala. O ego não te deixa ser menos arrogante. Você precisa mostrar que é melhor do que antes. Aponta os fracassos alheios enquanto fracassa, mas vê sua vida num espelho que se despedaça. Você está perdendo o que costumava ter e não parece que vai recuperar. Você está perdendo a única casa que teve, mas insiste em dizer que aquele ainda é o seu lugar. O desconforto te atrapalha, mas você se alimenta com conveniências e se regozija. Acha que é uma espécie de ditador de tendências, mas tende a seguir atrás do que te escraviza. Fecha-se em silêncio, mas não há inteligência que te separe da dor. Quem diria que alguém tão sensível e diferente também poderia ser refém do amor. E lá no fundo da sua alma, você afasta o novo e insiste no que escolheu te deixar. Persiste e resiste num choro incessante por quem prometeu não voltar. A sombra se foi com a noite e eu ainda não havia parado de afundar. Senti a autopiedade e a raiva, mas movi meus braços e pernas, recordando-me de que ainda sabia nadar. Respirei e em seguida, sentei-me placidamente mo chão. Sorri, mas ainda pulsava em mim a raiva. Não há muito sobrando, mas sei que cumpri para com as minhas dívidas. Não deixei contas pendentes. Eu poderia voltar a afundar, mas não me permitiria o afogamento tão fácil assim. Que se acertem aqueles que ainda devem algo. Que os antigos sonhos se explodam e que quem passou permaneça longe de mim. 

     Que o fantasma indecente morra. Que os antigos afetos se fodam. Que quem me tratou como objeto nunca mais me ocorra. Que a madrugada engula tudo e preencha seu estômago vazio e sacie seu apetite tão voraz. Que o processo de digestão seja eficaz: eternidades transformadas em nunca mais. 

22 minutos

     Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente. A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

     Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.

Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

     Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.


Mas olha... Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

     Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores... Queria acreditar que... Que entender a razão de... Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro. 

sábado, 6 de julho de 2019

O livro de Geffen - I - Capítulo 2: O entregador


Capítulo 2: O Entregador.

        Dambibo estava impaciente e mal-humorado. Reconhecia que a alegria não era um de seus pontos fortes, mas ao mesmo tempo pensava que as circunstâncias dos últimos onze dias lhe eram totalmente desfavoráveis e que aquilo justificava o seu destempero. O sujeito estava cogitando não fazer as entregas, mas seu senso de responsabilidade era superior às vontades mundanas. Sua ética profissional simplesmente lhe impedia de deixar obrigações pendentes. O trabalho existia, essencialmente, para que fosse concluído.
            — Porcarias de decoro e educação. Por que eu não posso simplesmente parar de fazer essas entregas?! — Sua voz era áspera e seu tom grosseiro, mas acreditava que não havia motivos para ser polido em um monólogo consigo mesmo. — Você sabe! Porque você é um entregador, seu idiota!
        Dambibo tinha noventa e sete anos de vida, mas para ele e os de sua espécie aquilo não era nada excepcional. — Se eu fosse um maldito humano provavelmente já estaria morto e com podridão em todos os meus ossos, mas pelo menos eu não estaria fazendo esse maldito... Essas entregas! — Ele continuava com os resmungos, pisava duro e mantinha uma careta. Embora reclamasse incessantemente, sabia que não havia ninguém para prestar atenção em sua birra. — Uma onzena trabalhando consecutivamente! Eu me pergunto se qualquer humano trabalha onze dias seguidos em seus reinos! É claro que não! Nem mesmo aqueles miseráveis elfos com suas cabeças de almôndegas — enfatizou a frase com uma raiva crescente enquanto cerrava o punho direito como se fosse socar algo — trabalham tanto quanto nós! Gostaria de acreditar que há limites para a folga, porém, a resposta é óbvia. Para ser sincero já é previamente sabido que não existem tais limites. — Dambibo continuava com suas rabugices, mas avançava com rapidez. Muito tempo se passara desde que percorrera aquele caminho pela última vez, mas ele ainda conhecia a trilha como as palmas de suas mãos. Durante o percurso reconheceu uma placa que não lia há alguns anos.

Cuidado: Área de Baleias Gigantes.

        — Cuidado? Até parece! É bom que essas orcas tomem cuidado comigo. Eles me mandam para qualquer lugar. E daí? Quem se importa comigo? Vila Nebotete! Pelas orelhas pontudas de Smeriel! Quem mora naquela vilinha por esses dias?! Com certeza existe um engano no destinatário, mas na dúvida quem deve percorrer quilômetros para tirar a prova? Dambibo! Quem é a cobaia da ocasião? Dambibo! Quem é arrastado até as proximidades da Montanha do Princípio? Dambibo! Toda vez eu! Sempre eu! Tudo eu! Se eu tivesse me tornado um bruxo, provavelmente disporia de mais regalias, mas que hora infeliz para ser um alatu.
        Dambibo atravessou uma longa e estreita passarela de gelo com impressionante velocidade. O azedume do entregador continuava palpável. Sua expressão transmitia irritação e desconforto, mas mesmo de mau humor e pisando com firmeza no solo, seus movimentos eram tão leves e suaves que lhe conferiam um aspecto de dançarino. A mente do entregador estava concentrada no momento em que o maldito elfo lhe designara aquela missão.
        Venha, Dambibo. Aproxime-se. Desta vez é importante. Você foi selecionado para entregar a encomenda de B para G. Este está na região da Montanha do Princípio, segundo o remetente, na Vila Nebotete, e não temos o número da barraca. Você terá que verificá-las uma a uma.        
        Dambibo não gostava muito dos elfos e nem que ressaltassem seu parentesco com eles. Ele também detestava piadas. Julgou tosco todo aquele humor élfico. O mestre de missões havia sorrido amigavelmente, mas ao entregador ele pareceu sarcástico e cínico. Dambibo perderia as estribeiras se não fosse seu emprego, mas a necessidade de obedecer ao chamado do dever existia e aquilo fez com que ele mantivesse o controle. — Porcaria de elfo! Ele não sabe o que é dar duro! Fica sentado naquela cadeira com aquele sorriso afetado e bobo! Aquele cara de almôndega! Até o nome é fresco... — Dambibo assumiu uma expressão abobalhada, afinou a voz e tentou uma imitação. — Olá, eu sou Grovidarmel, um elfo muito bacana. — Parou a imitação para dar vasão à sua raiva. — Grovi o quê? Que porcaria é grovi? Só pais almôndegas poderiam ter dado um nome tão delicado a um elfozinho. Patifaria! Nas horas difíceis não há nenhum Darmel para ajudar, mas nunca falta o Dambibo. Problemas? Muitos! Não sei quando foi que eu pendurei na minha testa uma placa escrita O Solucionador de Conflitos. Não posso ter paz?! Porcaria!

        O dia passava e o ocaso se aproximava. Os pássaros que cruzavam os céus já buscavam seus esconderijos para passar a noite. Dambibo seguiu a trilha por horas a fio com a mesma agilidade que lhe era peculiar. Mesmo que estivesse completamente insatisfeito e indisposto, ele jamais deixava de realizar seu trabalho. Se havia um serviço a ser feito, ele o fazia. Estreitou os olhos e finalmente viu a pequenina vila. Ficou aliviado por um instante até lembrar-se de que sua jornada era pura perda de tempo. Receou-se de que a entrega poderia ser só mais uma sacanagem dos malditos elfos, mas decidiu que nem mesmo eles fariam isso quando o assunto era trabalho. Ainda de mau humor, Dambibo continuou pela estrada. Ele observou que apesar de antiga, ela mantinha um aspecto relativamente bem conservado.
        — Vejo que estão cuidando bem do fim do mundo. Que notícia boa! — Disse em tom sarcástico. — Sei que há um engano no destinatário! Eles me fizeram vir até aqui! Eles ainda vão se entender comigo! Eles irão ver! Eu juro que vou... Vou fazer uma reclamação formal! Podem apostar que eu vou! — Ele estava surpreso com suas próprias piadas. Nasceu e viveu quase toda sua vida em Glacep, o Continente Gelado, e sabia que muitas lendas apontavam a Montanha do Princípio como o local onde o mundo se originara. Achou irônico que o começo do mundo estivesse largado há tanto tempo e mais merecesse o apelido de fim do mundo. Ele não presenciara os tempos em que Glacep era considerada um dos continentes mais prósperos, mas ouvira todas as histórias. Até pela experiência de vida, Dambibo sabia como a vida era imprevisível e dinâmica. O mundo dava muitas voltas.
        — Você vê, Dam? Todo o restante do mundo evolui e Glacep parece ficar para trás. É triste. Algum dia esse continente vai virar história. — Escutou o entregador e por um momento foi como se ele estivesse prostrado ao seu lado.
        — Eu sei que você só fala agora através das minhas lembranças, mas eu nunca tinha prestado atenção nas suas palavras. É mesmo... É mesmo realmente triste. — Sua voz abafada pelo vento era quase inaudível. Por alguns instantes a sua carranca se desfez e sua expressão denotava uma tristeza profunda. Se existisse alguém por perto talvez pudesse ter um vislumbre de sua dor; provavelmente estenderia um silêncio solidário e se fosse empático o bastante observaria em silêncio soturno. Mas não havia qualquer ser vivo. Dambibo estava sozinho e ao redor só havia neve e gelo. Nos instantes em que se sucederam o entregador só ouvia as sinfonias produzidas pelo vento. A lembrança de outrora fez com que ele ficasse sorumbático. Sua alma era mais nublada e instável do que o próprio céu. Ele respirou fundo e seguiu em frente. Desanuviou os pensamentos quais preferia evitar, fugindo de um passado inevitável, qual ele sabia que era mais rápido que ele.

        A área montanhosa perto da Vila Nebotete representava um grande deserto congelado. Havia pouquíssima diversidade de vegetação, ínfimas árvores e poucas espécies de animais. Bem distantes, ao fundo do cenário atual, as únicas que ganhavam seu devido destaque, imponentes e soberanas, erguendo-se como se fossem rainhas daquela região, eram as montanhas. Dambibo fitou o horizonte, contemplativo.
        — Não consigo acreditar neste lugar. O vento é a única coisa que faz barulho por aqui, mas o silêncio deve ser ensurdecedor na maior parte do tempo. Já estive nessa região, mas mal passei pela vila. A ideia de permanecer em um local assim é absurda. Creio que a única boa coisa deva ser o fato de não haver salteadores por estas bandas. Com certeza congelariam as suas bundas criminosas por aqui. Ademais, o que salteadores fariam aqui? Roubariam ou tomariam para si exatamente o que? Venderiam neve por gelo e gelo por pedra? Não, não há motivos para cogitar salteadores nesta região. A não ser que fossem mestres de alguma magia ou alquimia avançada e pudessem transformar neve em ouro, qualquer hipótese de permanência neste local seria idiotice pura. Também não existem alquimistas ou usuários de magia que sejam realmente capazes disso, embora não seja sábio duvidar das histórias infantis. Por que é que estou falando sozinho?
        Alguns minutos depois, Dambibo finalmente chegou à humilde vila. Leu a placa Byon Yutro e compreendeu que os últimos que ali residiram eram da mesma espécie que ele. Não entendeu porque utilizariam a língua antiga após o decreto que determinava que todos os habitantes do planeta Sayarivie possuíam a obrigação de utilizar a mesma linguagem para comunicação, mas depois imaginou que a placa pudesse ser tão antiga que tivesse sido construída antes do decreto, apesar de seu estado muito bem conservado. Eu não penduraria uma placa de boas-vindas para ninguém se morasse aqui. Quem é que visita um lugar como esses? Quem é que se arriscaria? Lembrei! Obviamente há alguém que pode: Dambibo. Pensou com a sua ironia afiada.

        O entregador não achou útil procurar respostas para perguntas tremendamente inúteis e dando de ombros, partiu para examinar as barracas e encontrar G. Seu humor piorava na medida em que ele checava as barracas. Estavam incrivelmente limpas e como ele havia imaginado, vazias. Só havia duas barracas a verificar e seu pensamento estava concentrado em atar fogo nelas quando a inspeção terminasse. Dambibo checou a penúltima tenda e verificou que ela também estava vazia. Entrou como um raio na última. Quando suas mãos abriram a fenda e ele adentrou a barraca com o pessimismo que sempre o acompanhava, deu um passo para trás, recuando seu corpo em um impulso defensivo. Estava assustado ao perceber que havia um garoto humano deitado em uma cama.