domingo, 21 de outubro de 2018

O homem que matou o charme

       Mato meu charme. Tenho alguma beleza, não daquelas que me tornam realmente lindo aos olhos dos outros, mas que me tornam bonito em um senso comum. Reconheço-me com esta forma e me aceito. Não sou um dez, mas tampouco desejo sê-lo. O que importa, porém, não é isso. Um cara com a minha beleza e que saiba utilizar seu charme sabe ser quase sempre irresistível e fatal. Eu não ambiciono ser minimamente charmoso, uma vez que conheço todas as maneiras de matar meu charme e desconheço sequer um jeito eficaz de me impedir. Não consigo parar antes que minhas mãos estejam ensanguentadas.

   A metáfora soa pesada, porém, é exatamente como me sinto. Se, sou bonito (repito, não exageradamente), tenho um corpo qual me agrada e sou “suficientemente” inteligente, pois, como é possível acabar completamente com o próprio charme? Revelo a maneira: palavras! As mesmas palavras que seduzem, invariavelmente, podem ser palavras que chacinam. Em regra, sou escritor, mas minha eloquência é quase inexistente para com os desconhecidos. Quando não me dão intimidade, não a peço e tampouco a imploro. Nas conversas virtuais, todos reparam o fato de que sou prolixo. Quando me encontram, porém, se surpreendem com o quanto posso ser calado e introspectivo. Veja, não é que eu seja duas partes de coisas diferentes, mas que eu seja duas partes diferentes da mesma coisa. Subitamente me interesso por algo qual faz meus olhos brilharem de paixão e, se tenho uma chance de me aproximar, bem, eu me aproximo, é claro, desde que isso não me faça trair meus princípios. Há dragões que simplesmente existem belos e deitados em meio a rios de ouro. Contemplando-os, surgiu uma indagação na minha mente. São maravilhosos, por certo, mas se são tão belos, vale uma vida deitada em uma pilha de riquezas quando se pode voar pelos céus? A sensação de conforto no luxo é tão poderosa assim? Gargalho ao notar meus próprios pensamentos. Consterno-me ao me localizar dentro de minhas próprias percepções. Sou um tanto ridículo.
       
      Nunca me ensinaram a dialogar com maestria, assim como seis meses de curso de inglês aos nove anos de idade não me fizeram falar o idioma. Meus amigos à época certamente possuem certificados, mas eu passava minhas tardes em casa assistindo Invasão Anime na Fox Kids. Talvez nosso inglês em um duelo rivalizasse forças, porém, eles jamais aprenderão o que eu aprendi com os “desenhos japoneses”. Sorrio. Estou em um bar com um amigo. Uma garota me pergunta se eu estou com o loiro lindo. Dou um sorriso largo toda vez que penso nessa frase. Ela se insinua pra mim, assim como ficou claro que se insinuará para o meu amigo loiro e lindo, mas esses flertes inocentes me soam cômicos. Ela fala que está em um relacionamento aberto, à distância, depois toca meu peitoral. Eu dou risada. Não tinha reparado nela até que ela falasse comigo, mas agora é provável que eu não repare nela para o resto do ano. Não faço do ato dela um ato de vilania, até porque ela já estava alcoolizada. Talvez se ela tivesse me perguntado sobre dragões e fadas; cafés e chás; bolos bem doces ou a maneira que gosto de comer macarrão; sobre filmes marcantes ou livros emocionantes. Mas ela só quis saber do que não me interessava. Agradeci ao Universo, pois ainda poderia ser pior. Imagine que nestes tempos sombrios os números 17 e 13 causam tantos arrepios! Aos que me perguntam sobre meu voto, minto propositadamente, sabendo os deles, apenas para tumultuar e causar alvoroço. Aprecio o fato de ser rotulado imediatamente por pessoas que, na realidade, me desconhecem completamente. Querem descobrir minha identidade por meio de opções políticas? Rasos! Controlo a vontade de gargalhar, mas sorrio como alguém que se descobriu repentinamente com sorte. Penso no altruísmo de oportunidade e na oportunidade de consagração com a opinião popular. É tempo de unir forças, mas há confusão nítida entre enaltecer a causa e se enaltecer pela causa. O ciclo se repete. Quem são os inimigos? Eu penso o que eu penso ou penso o que pensaram por mim? Os inimigos, de fato, existem?

    Claro. Os tais inimigos são, na verdade, tão somente opositores. A imagem que gera o asco, quando não é sincera, provoca-nos náuseas secretamente. Pois bem, vai ousar gritar o que não se admite ouvir sequer em sussurros? Os dias parecem iguais, mas são ligeiramente diferentes. A vida vai indo, como só vai, o fluxo é ininterrupto, embora, as breves pausas sejam perceptíveis. A vida vai indo, como só vai, e, se não canalizar sua atenção no presente, vai se acostumar a se contentar com o que sobrou. Se você fosse um navio já haveria soçobrado; agradeça que seus pés tocam o chão e que as quedas não são definitivas. Levante-se e esteja preparado. 

     Ainda estou no bar. Mais de três pessoas já me disseram que este não é o meu lugar, pois eu tenho cara de lugares mais requintados. Repudio este comentário. Tenho apenas uma face e que ela me sirva a todos os lugares ou nenhum. Não há tantas belas pessoas hoje; tampouco há pessoas interessantes. Eis que me vejo cercado, mas me sinto liberto. Gostaria de conhecer uma pessoa de verdade e perguntar sobre o que a emociona e o que a faz feliz. Também é provável que eu perguntasse se ela bebe refrigerante e se o tereré lhe tira o sono. Contaria o dilema do furacão e aguardaria pela resposta; gostaria de saber se é o tipo de pessoa que divide ou não seus hábitos. Não julgaria quaisquer palavras. Aqui reside a mágica. A honestidade nos assuntos não vulgares, que me soam ligeiramente mais interessantes, afastaria todo o meu charme. Meu interlocutor me teria por um bobo afetado ou por um estranho. Se, mesmo de longe, alguém passasse perto de me entender, me olharia com desprezo e depois com admiração. Não perguntaria “Por que”, mas sim “Quem”? Eu me alegraria, pois seria a primeira pergunta relevante no último trimestre. “Sou aquele que não pode e tampouco sabe se quer seduzir alguém. Sou o homem que matou o charme, mas que jamais vai esquecer o seu nome”. Olharmo-nos-íamos felizes, cônscios de uma verdade fatal, que o restante do mundo jamais conheceria. Ainda que fôssemos pobres coitados, o momento seria de compartilhar riquezas invisíveis e até os dragões luxuosos sentiriam inveja da franqueza daqueles espíritos. 

     Pois bem, eu mato meu charme, todos os dias, mas dou a devida liberdade à minha alma. Mato meu charme. Não preciso dele. Tenho um nariz perfeito, disse a mulher da agência de modelos uma vez deixando claro que era minha única parte bela e singular. Nunca voltei. Ela não sabe do desvio de septo, da rinite e da adenoide. Claramente ela não sabia ver uma pessoa. Como pode saber sobre qualquer tipo de beleza? Meu nariz não é bom. Mato meu charme de novo, mas valho-me da alegria cotidiana. Sou uma pessoa que conhece a liberdade e isso me basta. Serei feliz em quinze minutos quando estiver bebendo meu café, solitariamente. Em seguida, serei feliz lendo os meus livros. Serei livre enquanto viver a minha vida, sem precisar me provar aos outros, pois tenho liberdade nas minhas atitudes reais e também nas sonhadas. Quem sabe um dia sejam todas as pessoas livres assim? Utopia. Na intenção de adquirir a liberdade, alerto, às vezes é preciso sujar as mãos. Mato meu charme de novo e os charmosos todos se perguntam... "E daí?"

Até mais


     Minha bisavó faleceu ontem pela manhã. Nestes momentos, aceitamos o que nos é dado, sem ter a convicção de qualquer coisa, pois nunca saberemos o que ocorre posteriormente. Devaneamos com reencarnações, lugares ermos, infernos e paraísos ou até mesmo com o nada. Desejamos pelo melhor da alma. Torcemos pelo melhor caminho seguinte. Os que partem, talvez, nos vejam de cima com um orgulho altivo. Como conhecem (agora) a próxima etapa, apenas observam alegres e saudosistas, as pessoas e o mundo que não mais a pertencem. Os que ficam sofrem, pois são eles que lidarão com a ausência. Não sei se acredito em Deus, mas rezei de coração pela alma da bisavó Palmira, pois em Algo creio e Algo há de abençoá-la pelas novas estradas. Ela viveu longamente e bem. Quem tem uma boa vida merece uma boa morte.

     Assim se vai, mas ainda fica, pois raízes são lançadas através de histórias passadas entre gerações. Ela vai. Nós continuamos. É nossos dever. As histórias e lembranças mais doces são reservadas aos mais próximos; as que eu tenho são raras e especiais. A voz marcante, chamando sempre um nome diferente; o cuidado e o carinho não eram exclusividade de uma ou outra pessoa. A insistência para que nós da família comêssemos mais um pouquinho, ainda que já estivéssemos fartos e cansados; o cheiro característico da casa, da sala, dos quartos, era de uma forma mágica também o cheiro dela.

     Vá, vó Palmira – para o sono eterno, em paz. Tantos aqui desejam neste instante um beijo, uma palavra e um abraço a mais... Mas que o adeus não seja definitivo. Quando penso naqueles que se foram e nos que ainda vão, aceno ao vento e sussurro, seguro: “Até mais”.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Atemporal

     Ontem tive um sonho nebuloso, delicioso e repleto de mentiras confortáveis. O relógio era meu amigo, ora, que banalidade, nunca nos demos bem. No plano real, ele me olhava com um esgar de ódio e murmurava com uma raiva palpável: “você está perdendo tempo, Daniel. Até quando vai se atrasar por mais de uma hora para seus compromissos?”. Ele falava que as broncas eram para o meu bem, porém, aprendi a desconfiar desse desonesto jeito lesto. Nesta ilusão noturna, o velho relógio até sorria e dizia: “bom dia, você pode fazer o que quiser”. Ele fez um acordo com o tempo para que revivêssemos meus melhores momentos, ao que nos sentamos e nos abraçamos. Não me pergunte como, pois as explicações nos sonhos são incompletas. As bebidas existiam conforme eu as imaginava. Brindei meus grandes momentos da vida, todos banais, como os de qualquer outro ser humano. O relógio me olhava e sorria com uma cumplicidade que só os grandes amigos compartilham; ambos, humano e ponteiros, bêbados com cerveja barata. Psiu! Você quer ver? Ele me perguntou arregalando as horas. Sim! Claro, eu desejo muito, mas isso vai me ajudar? Ele me deu três tapinhas nos ombros e disse: Ah! Você diz que não é curioso! Há-há! Tic! Tac! Veja isso! Vegeta, olha bem!

     Tudo aconteceu como em uma pré-morte. Todos os minutos da minha vida, dos mais inúteis como verões desperdiçados em escritórios, choros derramados em velórios até os mais incríveis sorrisos. Primeiro, ele me fez enraivecer, mas o relógio observava o filme da minha vida com um orgulho paternal. Decidi que me assistiria. Olhei para a tela da memória e o branco ganhou forma. Chorei pelas pessoas que partiram sem despedidas, sabendo que algumas delas haviam morrido e outras não. Por fim, o relógio me cutucou e disse: isso vai fazer você acreditar que vale a pena. Prendi a respiração e fiquei atento. Tudo veio como se na velocidade da luz. O dia que lati para espantar cinco cães grandes que se aproximavam alvoroçados e raivosos de minha cadela; quando guardei a calça de minha avó na geladeira; quando fiz meus bonecos saltarem de paraquedas e descerem pela “tirolesa”. Não esqueço o primeiro beijo; o filme era Se Eu Fosse Você, e, estava tão divertido que até hoje me surpreendo com o momento qual parei de hesitar... Precisamos desses atos de coragem. Vi-me mais. O primeiro toque; a primeira oportunidade perdida e o primeiro sexo. O primeiro sexo com amor. Ri da minha inocência ao deixar um ovo de páscoa na geladeira por três meses, pois era o formato mais parecido que existia com um digi-ovo. Ri da minha indecência em urinar no sabonete líquido do colégio e de tirar fotocópias da minha bunda em locais totalmente inadequados. Alegrei-me de como me emocionava por coisas ridículas. Ri de como me apaixonei, pensei, para vida toda, com menos de um mês de momentos divididos. Ri de como nunca compartilhei meus melhores hábitos e sorri satisfeito, pois são somente meus até hoje. Fiz coisas ruins, nunca excessivas e chorei. Hoje sofro mais do que sou feliz, mas valorizo meus dias. Valorizo minhas pessoas. Amo com toda a minha alma tudo o que tenho, sabendo que não tenho posse de coisa alguma. Vejo todo o passado exatamente até o momento que, febril, eu cochilei e sonhei com o relógio. Ele me olhou com a paciência de uma mãe sábia: a vida passa rápido, filho. É por isso que, de quando em quando, exijo-te pulso firme e coragem. Viu quantas coisas boas? Se tu trabalhas bem, somos todos mais felizes... melhores. Seja corajoso.

     Acordo. Depois de outra epifania, eu sei que não sou o mesmo. Era como se eu tivesse dormido Daniel e tivesse acordado DANIEL. Observe isso, rapaz. Absorva isso, homem. Transforme-se agora. 18h52. É cedo. Vou tomar meu café e tentar me ser útil. A utilidade nos mantém em pé em épocas de crise. O tempo é amigo e inimigo. Não posso controlá-lo, mas quero ter a exata noção que eu sei como usufruí-lo, pois embora a felicidade e a tristeza, verdadeiramente sejam passageiras, eu sei hoje, que algumas memórias são eternas. O coração sente, indubitavelmente, de modo atemporal. É por mais desses momentos que vivo. É por mais dessas lembranças que quero continuar a viver. Se hoje acabar derrotado, levantarei a cabeça para um recomeço. Amanhã vou vencer. Aguardo com ansiedade pelo meu sono noturno. Tomara que outra vez o relógio me lembre de que vivo pelo meu coração. Tomara que eu nunca me esqueça das coisas que muita gente não vê. Espero que dentro das vinte e quatro horas de cada dia, eu seja atemporal.


Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

Cecília Meireles 


terça-feira, 16 de outubro de 2018

O que acontece a seguir...


     Quero um gole de álcool, por favor, digo, tentando manter a dignidade no tom de voz. A mentira ganha vida, pois só queria uma xícara de café. Sou bom mentiroso, embora tenha o péssimo hábito de dizer a verdade. Agora você me desagrada, é o bastante. Este é o ponto de não retorno, vá. Não é preciso sentir asco da humanidade e nem pena dos que sofrem. É o balanço natural. Aos tristes, paciência, pois a felicidade ainda rondará teus dias. Aos felizes, percepção. A felicidade é fugaz, pois é justamente por isso que se faz mister aproveitá-la. Faço parte dos lúgubres neste instante. Abro minimamente o que minha mente eloquente esteve revirando sem qualquer cuidado. 
     É irônico o quanto se desconhece o conhecido. Memoriza-se todas as falhas e manias; risos e costumes; a aversão por poesia e até os ritos de ciúme. Chega-se então a um ponto estranho e sólido. Naturalmente, você remói uma frase: “eu sei o que acontece a seguir”. Em regra, aceita a consequência do fato, ainda que este seja desagradável e degradante. Permanece, pois diz a si mesmo que é a última vez, mas seu corpo estremece e você toma nota da repulsa. A mentira ingênua não pode ser aceita, por tal qual é expulsa. No fundo você sabe muito bem que nada vai mudar. Mas você é cabeça dura e insiste em insistir. Vai até além do seu limite, mas qual a razão? Amor? Medo?
     Um dia, não diferente de qualquer outro, durante a primavera, você saberá o que vem em seguida. É uma manhã nublada e fria após uma noite de chuva violenta. Eis que uma gelidez inesperada te ataca e te acomete. Penetra-lhe os ossos e faz morada, como se fosse parte do seu sangue. Trouxeram-lhe um roteiro novo e previram suas possíveis reações, pois também te conhecem. O jogo não é jogado exclusivamente por você. Eles sabiam o que aconteceria a seguir. Supuseram que a minha resposta seria “Implore meu amor, pois então fique, por favor,”, mas é um lamento tardio após uma agressão direta. O costumeiro já está distante e nem somos capazes de nos ofender de forma reta, como fazíamos antes. Não agirei como um pedante... isso está em minha nova meta.
     Eis que me descubro noutra manhã de outubro. Os meses silenciaram vozes quais eram tão agradáveis. Os ventos afastaram preguiçosos sorrisos afáveis. Vejo-me e internamente, minha algidez compete com o Alasca. Aguento tinta, digo. Aguento tinta, resmungo. Aguento tinta, desafio. Estou mais maduro, mas às vezes me faço surdo às cenas de intrometidos que querem opinar, pois refuto suas opiniões. Amanhã ainda não sei, mas me basto hoje. Não quero ser sensato, pois tenho sido assim a minha vida inteira, vê? Então se recolha com teus míseros fatos, tua reclamação cabe numa algibeira. As nuvens mudaram de lugar. Também as manias, os hábitos, exceto teu jeito de se fazer fortaleza. Há agora um desejo constante de atingir o cume, ao longe vejo sua inenarrável beleza, mas há ausência do seu característico lume. Está vestida toda em resquícios de tristeza. O que se pode fazer? A culpa foi toda minha. Não. A culpa foi toda sua. Toda. Outra mentira. Talvez a culpa tenha sido toda nossa. Eu faria os cafés pelas manhãs, mas e daí? Isso não me exime. Isso não me exalta. De quem é a culpa, afinal? É possível identificar o transgressor? Quem poderia dizer? Eu não sou capaz de dar nome ao vilão. Nunca fui bom em elegê-los, ainda que meus punhos se ergam até hoje para enfrentá-los. O que é que se conclui nessa história? Há tanta gente que tem o futuro no passado. Isso é mais melancólico do que deprimente. Rio com gosto diante do que meus pensamentos encerram. Tomado pelo sono, enfim, vejo. É tão óbvio tudo o que não vem a seguir. Sorrio. Adoro errar minhas previsões. 

“Prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a dívida moral.” Neil Gaiman. 

domingo, 23 de setembro de 2018

Vultos

     A mulher no corredor foi apenas a segunda mulher que amei. Às vezes os insanos me pedem para explicar... Como se cheiros, sensações e impressões pudessem mesmo ser resumidas. Não podem. Quiçá poderão ser descritas? Não, não podem. Defini-la ou definir-me no meu estado de torpor é apenas um jeito inédito de perder tempo, mas se o tempo também é meu, desperdiço-o como quiser. Se acaso sugerir que as estrelas falam, você acreditaria em mim? Há quem diga que estourar plástico bolha é relaxante, mas você seria capaz de convencer alguém disso? Explicado este fato, apresento aqui, na medida do possível, todas as verdades quais eu pude absorver em um momento de epifania. Contarei de como ela foi capaz de me fazer suprir a ausência que sinto de mim mesmo. Minha própria maneira de estourar bolhas. Falar sobre a segunda mulher que amei seria impossível até mesmo para Tom Cruise, mas amá-la, por outro lado, é uma missão acessível até mesmo para Robinson Crusoe. Ressalto, porém, antes do inevitável sobressalto: não pergunte quem ela é.
     Você vai pensar que eu enlouqueci, eu sei, mas confesso que, na verdade, foi pelo vulto dela que me apaixonei. Cada dia seu andar tinha uma postura diferente e eu? Abarcava tudo o que podia enquanto me enchia por meros lampejos de felicidade adolescente. Não, os vultos nunca mentem e minha animosidade jamais arrefecia quando se deparava com eles. Respirava fundo, acelerava meus passos, ansioso para tornar a imaginação em figura. Quando o rosto finalmente era revelado, aquela velha sensação se quebrava e me dominava a amargura. Um conselho fossilizado ressoa na consciência: nem mesmo a ilusão perdura. Retiro meu chapéu invisível e faço uma mesura. A mulher passa e no corredor do hotel a luz fraca revela sua pálida brancura. Deve ter pensado que eu estava embriagado. Sorrio e insinuo minhas desculpas. “Eu te confundi ainda agora com alguém. Perdão, senhorita. Boa janta e fique bem. Não sou quem você procura”. Esta era simpática e recompôs sua postura. Estava de calça de couro, mas imitou uma antiga dama. A delicadeza dos movimentos numa pintura. Toda mulher sabe como tratar quem do jeito certo a ama. Compreendem melhor que os homens que nem tudo que é belo perdura.
     A rotina de uma semana gira em loop em minha cabeça. Vou narrar um pouco desta aventura, antes que eu me esqueça. Os dias parecem iguais, mas são sutilmente diferentes. O segredo para se adaptar é acreditar que nada é permanente – nem mesmo o que se passa no coração inocente. Descia mais cedo que todos – todos os dias. Gosto da minha particularidade nos cafés da manhã, mesmo entre os desconhecidos novos colegas. Todo mundo merece ser aplaudido de pé ao menos uma vez na vida? Auggie tem razão, mas tenho minha própria opinião e vou dizê-la. Pois bem, acredito que todos mereçam uma semana de café da manhã reforçado em uma boa rede de hotelaria. Cheguei junto dos velhos enrugados e narigudos; mal vejo a hora de ser um deles. No metodismo nos equiparamos: minhas refeições são sempre iguais: café, ovos, lingüiça, bolo de laranja, bolo formigueiro e um croissant. É preciso homenagear os franceses de quando em quando. Os velhos parecem retratos nas paredes, incorrigivelmente repetitivos em suas posturas curvadas e tortas, mas uma criança chuta a porta de uma reluzente Mercedes e aparentemente ninguém se importa. O garoto desafia a observação dos poetas: a constatação é que todo pequeno nasce asceta. Ignoro o menino, mas não recuso o aprendizado. Só pais de comportamento viperino criam um garoto tão mimado.
     Subo para o meu quarto. Peguei uma maçã para comer mais tarde. Percorro o corredor enquanto finjo que sou um arremessador, mas subitamente paro. Uma mulher vem andando distraidamente. Conheço-a pelo faro. É mais sonhadora que eu... Seu vulto parece com a alma do universo. Quando seu rosto se revela, ela me lança uma estranha olhadela e pergunta do que eu preciso. A pergunta vaga me faz viajar, mas observo atento que ela não tem a magia que procuro no olhar. Deixo escapar um largo sorriso. “Obrigado, mas você não é quem estou a procurar”. Afinal, eu havia enxergado errado. O universo não estava ali. No dia seguinte o vulto da mulher se aproximou com pressa. O jeito de andar exalta que ela é alguém que só baixa os olhos para o que a interessa. Os passos barulhentos do salto alto pisam em qualquer encanto ou feitiço ancestral. De que adianta procurar em um robô, qualquer resquício da inocente vestal? Eu teria interesse nesse tipo de mulher, afinal? Seria mais fácil se eu estivesse procurando alguém de verdade.
     Tudo isso aconteceu em apenas uma semana. Eu me encantei com os diferentes formatos de imaginação reproduzidos no corredor. Juro que falo a verdade, embora não necessite do consentimento de vocês. O pragmatismo estava me matando e a sensação crescente de tumulto me fazia sentir vontade de sair correndo até me cansar. Consolei-me ao ler diários de homens e mulheres jamais compreendidos. Seria bom ter alguém para abraçar hoje ou apenas alguém para me ouvir falar debilmente sobre meus livros favoritos, mas tudo bem. Seria bom planejar o roteiro da viagem ao Japão, mas tudo bem. Seria bom sonhar que meus livros podem mudar o mundo e encontrar convicção em um olhar gentil e astuto. Eu diria Geffenia e você iria entender. Há sorrisos tão preciosos que, ainda que os veja uma vez a cada dois anos, enchem-me o coração de recordações luminosas. Conforto-me com as lembranças de uma felicidade pueril que talvez eu jamais possa recuperar. Faço perguntas e não confiro as respostas. Quero que digam, mas nem sempre quero saber. Transtorno pessoal, normal, quem liga para o que vai acontecer?
     Talvez tenha apelidado uma Gabriela de Ana, uma Isabela de Júlia e uma Beatriz de Michele, mas unicamente pelo pretexto de que não sabia seus nomes e honestamente nem queria saber. Desculpe se pensei nestes nomes de maneira errônea. Não esquecer é uma regra do meu coração. Quando digo os nomes em sussurros secretos, sinto-me um andarilho discreto, hábil em disfarçar minha solidão. Seria incrível não estar sozinho esta noite, mas tudo que eu possuo são espaços calculados para abrigar minha tristeza. Contemplativo, percorro minha vida desde o momento em que minhas memórias são exatas e precisas. Basta de imaginação. Preciso arrumar o rumo de minha vida, reflito quando me surpreendo com o tardar da hora. Entro em luto após mais uma despedida. Quem eu fui um dia está morto agora.
     Terei de fazer um breve resumo sobre as últimas situações, pois não sou suficientemente hábil ou talentoso para prender pessoas livres aqui por um período longo. A sombra da quarta mulher me deslumbrou; a da quinta me ofendeu; a da sexta me paralisou e a com a da sétima, eu chorei. Todas as mulheres possuíam diferentes aparências e essências, mas seus vultos eram quase idênticos. Deslumbrantes e capazes de tudo. Não me assustavam, mas me deixavam extasiado. Não havia façanhas impossíveis para elas. Enfim, agora chegava o momento de me despedir daqueles corredores escuros quais diversos vultos me desafiavam ao amor. Orgulhoso, aceitei o desafio, ainda que incerto sobre meus atos. Amei tantas sombras desconhecidas, ainda que ninguém tenha visto de fato. Às vezes é uma maldição ser alguém com pouco tato. Ainda que a alma seja nobre, eles te insultarão por ser miseravelmente pobre... Vil sonhador barato.
     Despedi-me do hotel e com a partida me despi de uma semana de solidão. No aeroporto carreguei o segredo da vida. Todos que entravam em contato comigo, presenteavam-me com diversos sorrisos e secretas orações. Suponho que por algumas horas, eu mesmo tivesse olhos mágicos. No Mc, uma mulher de verdade, muito mais que um vulto, tirou os sapatos para apoiar os pés no sofá. Cem mil vezes mais que uma sombra. A sua atitude demonstrava personalidade. Na pressa de retornar à minha cidade e no desespero de amar alguém que fosse mais que um mero vulto, eu me contentei em admirá-la discretamente. As mulheres já sofrem o bastante para terem de lidar com os curiosos e intrometidos. Ela estava relaxada e eu não queria estragar isso. Além do mais, eu ansiava mesmo em retornar à minha cidade. Decidi seguir o meu percurso. A vida se acelera e os minutos passam mais rápido. Logo será o dia das bruxas, o dia dos mortos e o dia do natal. Logo quem nasceu em 1989 terá 30 anos e os de 1992 pensarão que são velhos arrelientos. Logo tudo vai mudar e todos os momentos bons de agora vão se perder em um buraco negro. Terá de reaprender a ser feliz com uma vida completamente nova, que hoje o enche de medo. Sento-me vagarosamente no assento 17D. Sinto um estremecimento acompanhado pela pesada vibração do avião. Este pássaro de metal corta o vento enquanto devaneio sobre novos roteiros de ficção. Amanhã é sábado e depois é domingo e depois outubro. A vida passa e não encontro um sentido para tudo o que eu faço. Isso me relaxa... Às vezes é melhor não ser tão cheio de si. Observo pela janela as luzes das cidades durante o caminho. Penso nas pessoas que amo e nos desconhecidos que quero amar. É a sina de quem é assim tão sozinho...
     Dou nome a todas as coisas, exceto à segunda mulher que amei. Não sei dizer se foi engano, mas o amor não segue qualquer plano. Digo com segurança que ainda prefiro amar, ainda que o objeto de tanto amor seja uma ilusão. Não há vergonha em não ser completamente são. Quem sabe um dia, eu possa ser sólido e capaz de voar; ao mesmo tempo conseguir agüentar; raramente oscilar... Como faz todo e qualquer avião. Ah, mas é incrível o que se observa quando sobrevoa uma estrada qual costumava percorrer andando ou dirigindo. Sob novas perspectivas você conclui que o mundo é lindo. Quando menos se espera a gente se pega sonhando e sorrindo. Pensando em todos os amigos e amores ou em como nossas vidas são fugazes; em refeições maravilhosas ou bebidas quentes compartilhadas com amigos em bares; em dragões, furacões, verões e também nos antigos lares; na solidão necessária para o crescimento ou na provocação fundamental para o enfrentamento. Por fim, penso naquela que um dia foi a mulher da minha vida; aquela que amei mais do que a mim mesmo. Em seguida, eu penso em centenas de vultos que me bagunçam e me fazem querer vagar a esmo. Continuo sendo decente e ridículo. Nunca fui suficientemente bom para qualquer outro, exceto eu mesmo. Tento revelar a face de cada vulto, mas cada vulto se revela em seu próprio tempo. Queria poder amar todas essas sombras agora, mas suponho que deva esperar pelo devido momento. Sigo fazendo o que posso e se não for o bastante hoje, amanhã novamente eu tento.
Galera, você também me dá uma força seguindo a página drp0etry lá no Instagram. Pode acessar diretamente pelo link: https://www.instagram.com/drp0etry/?hl=pt-br
Desejo uma ótima semana aí pra vocês todos. Fiquem bem! 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Waffles


     Hoje me lembrei do café da manhã mais marcante da minha vida: waffles com doce de leite. Não me recordo ao certo se tinha oito ou nove anos, mas fecho os olhos e ainda consigo ver com clareza o banco no qual me sentei e a bancada qual apoiei o meu prato. Destaca-se nesta memória a minha desorientação quando meu amigo perguntou se eu iria querer waffles. Já naqueles tempos, eu era tímido, mas com medo de ser demasiadamente leigo diante de um carinha que sabia tão mais que eu, assenti e disse: claro. Quase me apavorei quando ele perguntou se eu iria querer doce ou salgado. O que diabos? Respondi com determinação que preferia doce, embora não fizesse ideia do que era. Ele concordou resoluto, como se só os idiotas comessem waffles salgados. Nos minutos que se passaram, apenas observei a cozinha, mordendo os lábios inferiores com apreensão. Três mulheres transitavam de um lado para o outro e era difícil dizer como tantas pessoas ocupavam aquele ambiente. Também era impossível deixar de notar o dono da casa. Ele fazia algazarra e arremessava alimentos no chão. Não concordei com aquilo e nem achei graça, mas acredito que no momento eu não havia assimilado com precisão o restante do mundo. Quase todos os meninos ricos tinham a liberdade para suas próprias birras ou acessos de fúria, mas o surto dele para ganhar atenção era irrelevante. Talvez fosse necessário para com os pais dele, porém, minha placidez era digna de um monge budista e eu só tinha cabeça para o presente. Meus olhos viam sem enxergar, como em um sonho distante, principalmente quando um cheiro inebriante adentrou minhas narinas. Instantes depois, como mágica, lá estava aquilo. Ainda hoje não descrevo dignamente o meu fascínio ao olhar para aquela massa arredondada e repleta de pequenos quadradinhos. Havia doce de leite ao redor de quase toda a massa, cercando cuidadosamente uma pequena bola de sorvete posicionada ao centro. A bola não teria para onde correr com tanto doce de leite em volta, pensei e torci para não ter dito em voz alta ou poderia me tornar alvo das zombarias do anfitrião. Envolto com o que contemplava, eu deixei de entender o que acontecia. Senti vontade de mergulhar no prato, mas aguardei até que meu amigo começasse. Ele se cansou de protestar e, enfim, encarou seu waffle. Imitei-o e comi o meu.

     Ao terminar minha refeição, eu apenas queria ir para casa. Eu precisava contar para minha mãe que Deus existia e tinha inventado os waffles doces. O amigo resmungava de maneira perspicaz sobre como fazer tarefas não era algo tão importante assim (o que eu concordava), mas eu já não tinha mais paciência para olhar para alguém que comia algo tão bom com tanto desdém. O sujeito mais acostumado com uma vida opulenta do que a minha deixou sobras no prato, algo que eu era particularmente contra (embora meus irmãos não comessem tudo o que serviam sempre). Tive o ímpeto primitivo de comer as sobras, porém, naquela época eu me preocupava em ser o alvo das piadas dele – os garotos espertos são mestres na arte do sarcasmo. Pelo menos eu não precisava entender o mundo para ganhar dele no vídeo game e isso me fazia sentir uma satisfação imatura e deliciosa. Ainda sobre o café da manhã, eu havia constatado um fato: os waffles não significaram nada para ele ao passo que me fizeram acreditar em magia. É detestável assimilar algo novo ao lado de alguém que acha sua experiência entediante. Suponho que da perspectiva dele, meu prazer fosse banal e o assunto soasse como uma sugestão de música.

“Ei, cara. Escute isso aqui. Decididamente é uma música boa e você vai gostar”.

“Amigo, eu ouvi e não gostei, mas tudo bem se eu te disser que prefiro escutar outras coisas?”

“Poxa, seu comedor de waffles do caralho. Você nasceu para coisas irrelevantes mesmo. Se um dia você provar um Dadar Gulung de Jakarta... Aposto que se você comer a própria merda depois, ela vai se igualar a um daqueles waffles de doce de leite”.

     Este é o momento qual eu me afasto. Desconhecendo se meu velho amigo possuía a intenção de destacar a hipérbole ou criar uma metáfora, convenço-me de que ele estava sendo infantil. Você não pode simplesmente deixar os waffles dos outros? É preciso mesmo falar de fezes? Aproximadamente quinze anos se passaram desde o dia em que eu conheci os waffles.  Agora entendo o ponto de vista dele, embora siga discordando. Quando menino ele só antecipou uma das tendências mais comuns de todo ser humano. Raramente é possível conhecer alguém que saiba ver (e enxergar) as boas coisas que possui. Talvez, no começo, tudo seja mágico. O cheiro da boa novidade atrai e seduz. Não há porque ser negativo. Talvez seja suficientemente convidativo a ponto de que você chegue a pensar que comeria waffles para o resto dos seus dias, mas qual é o sentido disso? Ao menor sinal do desaparecimento de encantamento, nós transformamos o velho waffle em algo patético, só pelo fato de que agora enjoamos dele. Não, ele não deixa de ser cheiroso. Não, a massa não está crua e nem falta doce; mesmo os waffles salgados, feitos exclusivamente para os otários, ainda são saborosos como sempre foram. A única coisa realmente ausente é a animosidade sincera em saber apreciar o que se possui, entendendo que, até possuir é uma ilusão. Soa utópico, mas há quem saiba reconhecer que os waffles continuam gostosos. Existe quem reconheça este fato, mas se convença de que um alimento tão bom não é tão digno de alguém com tantos defeitos e vícios aparentes. Insanidade! Todos nós somos dignos das coisas boas, mas, às vezes é mais prático se acostumar com o pouco que se tem. Depois choramos sozinhos, pois achamos que ninguém sente o mesmo que a gente ou que somos os únicos do mundo a apreciar quando o waffle é bem feito. Não somos.

     A vida recentemente desferiu diversos golpes em mim e tenho buscado me recompor, mas não quero recuperar quem eu fui, pois não sou mais o mesmo. Apesar disso, creio em magia. Tomo meu café metodicamente todos os dias e o aprecio como um bebedor de café profissional. Talvez um dia dragões saltem diante de meus olhos enquanto observo as janelas, mas acaso não aconteça, eu realmente aproveitei a visão que tinha (hoje uma idosa andando com sua neta e seu cachorro). É ainda melhor quando chove, pois aprecio meu café enquanto observo com encantamento as infinitas gotas de chuva que caem em seus próprios ritmos. Às vezes sonho com as ondas do mar ou com os mares imensuráveis nos céus, mas há dentro de cada novo olhar um mundo inteiro. Se você sentir que é incompreendido e que todo mundo desdenha das suas dores, dos seus sonhos ou até mesmo dos seus waffles, eu apelo para que você aguente firme. A imensidão deste mundo foi feita para ser vivida e apreciada por VOCÊ. Tudo bem se então for triste hoje, mas prepare-se para as grandes alegrias que virão. Tantos anos depois do meu primeiro café da manhã perfeito, notei que não é fácil encontrar pessoas que saibam apenas apreciar a qualidade do que já possuem, mas elas estão mesmo por aí. Talvez uma delas, sem qualquer pitada de estranheza, ainda divida o silêncio contigo e faça seu sorriso ser mais largo, porém, é preciso não se esquecer de que, mesmo sem companhia, os waffles e cafés podem ser saboreados. O mundo foi feito para ser apreciado por todos nós. Nos momentos difíceis lembre-se de respirar fundo e ter paciência. Mantenha a calma e siga em frente.