segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Despedida

Dei azar esta manhã
Suponho que talvez a culpa seja divina
Não tenho rezado nem em silêncio
Minhas únicas orações consistem em
longas olhadelas na BR 163
Talvez os caminhoneiros precisem de Deus
Talvez o vejam nas luzes de seus companheiros
Cruzando o breu da madrugada gelada
De certa forma é triste a constatação, pois
Eles não passam de uns ferrados assim como eu
Os infames seguem em vantagem
Embora sejam patéticos na essência
São belos em suas cascas
Quem quer descobrir se ele usa máscara?
Quem quer interromper o encantador de serpentes?
Se o capuz serve e não machuca a corrente
Deixe que prevaleça o conveniente
Cada um veste as roupas que necessita
para cobrir o próprio frio
Sugiro isso, mas nem sempre pratico
Cometo mil erros, mas não cuspo pra cima
Sei não ser ridicularizado por eu mesmo
Ah, mas a vida é algo imprevisível
Os infames possuem mesmo a vantagem
Os falsos se sobressaem 
É assim que a maioria gosta
É assim que a banda toca
De que lado estou?
Adiantou ser “bom” durante uma vida? 
Há calmaria neste novo lugar
Há tranquilidade sem desdém
Há boas pessoas, porém,
Há outras formas de amor
Infelizmente elas não me servem
O coração é teimoso e anseia por especificidades 
Vou apunhalar os bons costumes
Percorrer a vida na contramão
Ser o maldito colecionador de borboletas
Repugnante destruidor de sonhos
Sim, almejo estar entre os réprobos 
Ser o maior deles
Desferir socos e pontapés em meus rivais
ainda que estejam deitados
Mais de vinte anos de tentativa de justiça
Sem possuir fidalguia, tento agir com nobreza
Para no fim das contas ser o alvo favorito 
A mais suculenta das presas
Arre, vocês me deprimem
Covardes estúpidos e arrelientos 
“Não serei nunca como eles”, bradei um dia
E hoje vejo que posso cumprir a promessa
sem ser zombado
Veja bem, há potencial para que se vá longe
Você pode ser o pior de todos, se tentar
Vai tentar?
Covardes é que se escondem em pretextos
Farei ou deixarei de fazer em nome do amor
Viajarei para ver o mar ou para encontrar
certos prazeres que tenho me negado
Critica os que dançam na avenida,
mas busca sua própria maneira de gritar
Ao mundo a significativa existência
Ah, admita 
Eu fui sua escada
Use-me
Use-a
Deixe-se usar
Deixo-me usar
Faça-me
Faça-o
Falo, mas não em nome do amor
O que diria em nome dele?
Não faço juras em Deus
tampouco sacrifico minha ética
Por qualquer dos amigos meus
E daí? Converso e falo, mas 
Nunca em nome do amor
O amor fez pouco em meu nome
Encaro a vida com um persistente ardor
Enquanto o que importa some
Ah, mas já não era a hora de abandonar
todas as tolices dos tempos de moço?
Não é hora de amassar os papéis dos lindos 
sonhos e se contentar com o mero esboço?
Já não quero mais os resgatar, mas sim me juntar
aos esquecidos no fundo do poço
Meu melhor estado é o febril
Sinto melhor o mundo que nunca me sentiu
Será que nunca mesmo?
Ouviram meu choro em trinta e um de março
do ano de mil novecentos e noventa e dois
Eu também estava febril
Na adolescência comprei brigas 
Salvei a vida de minha mãe
Vomitei e tremi por quatro anos
Tudo passou, mas a memória ficou
Não importa mais pelo que passamos
Acredita que sonâmbulo e fora de mim
Eu li o livro três da Crônica do Matador do Rei?
Rothfuss nem havia o escrito, mas com quarenta graus
Isso nem interferiu
Beirando à insanidade
Nos limítrofes finais da realidade 
Outra vez minha alma sorriu
Desconsidere minhas declarações apaixonadas
Não por serem falsas, mas sim exageradas
Tenho uma tendência ao eterno e ao drama
Rio dos falsos espertos
Metralhadores de opiniões 
que só atingem espectros 
A frase matreira em busca da fama
O soldado ambicioso escondido à paisana
Homens nus nos desertos
Lamentáveis suínos banhados de lama
Ah, mas são valentes
Corajosos guerreiros da virtude
Não compreendem os movimentos, mas
Intrépidos erguem os punhos para o combate
Corpos adultos com personalidades de bebês 
Bois dopados correndo para o abate
Ah, mas como enchem a boca para xingar
Mania de civilistas mimados e frescos
Fascistas, nazistas, baixistas, flautistas
Vocês todos não prestam
Comunistas, petistas, clubistas, OPORTUNISTAS
Tantos berros narcisistas
Vocês são mais da mesma remessa 
Pedem calma na hora decisiva
Chutam o balde com toda pressa
Querem a estrela na testa
Odeiam as coisas como são 
Arrancam as roupas os ativistas em festas
Alegam que foi pelo bem da nação
Tentam provar seus motivos louváveis
Para prosseguir com a vituperação
Aparentam ser afáveis, porém,
Suas ideias são vendáveis
Prostitutos por atenção
Não arrumam nem a própria cama
Ainda assim passam toda a semana
Muitos tantos só com o dinheiro dos pais
Príncipes da própria trama
Tanto falam e nunca se enganam 
Prisioneiros no próprio cais
Falsos miseráveis intragáveis
Tão cheirosos em seus caros perfumes
Os caminhos são irrecuperáveis para
Quem se acostumou a comer estrume
Belos rostos se convertem em faces de escárnio
Ironizam-me no ápice do azedume
Ah, mas eles sempre sabem mais
É bom que você se acostume
Eles te deixarão para trás
Perfeitos nunca sentiram ciúmes
Professores dos conhecimentos ancestrais
Chutaram o rabo dos mestres de artes marciais
Amam seus reflexos nos vitrais
Na noite de morte, eles são todos vaga-lumes
Que direi eu que escalei o primeiro patamar
à bilhões que estão no cume?
Ah, mas não direi palavra
Gargalharei de tudo e criarei um verso
Visto uma roupa desbotada
Arremessarei longe meu único diamante
Que ninguém o encontre nas profundezas do mar, imerso
Sigo em frente, desafiante
Recuso a prescrição de calmantes
Quero entender o Universo
Vejo tudo, exceto eu mesmo
Como posso me revelar sem me envergonhar?
Pois às vezes tenho me envergonhado sim
Quem não riria se eu dissesse que tenho
todos os sonhos do mundo em mim?
Tantos outros disseram isso antes que eu
Suponho que estejamos todos pirados
Espero que me entenda, nasci em 1992
Ouviu bem? Seu grande idiota! 
Sou dos anos de devaneios sobre o amor
Sob a luz do luar, eu ri de criativas lorotas
No meu próprio nexo
Nunca digo “oi, quero sexo”
Atitudes e palavras devem 
De quando em quando
Ter algum valor
Ah, mas neste mundo vasto
Talvez um dia possam me convencer
Vocês são a felicidade em fiasco
Eu triste ao menos me basto
Tenho muito o que aprender
Sou ridículo quando falo de fantasias
Deprimente quando mostro as poesias
Sirvo bem de escudo para os covardes indecisos
Perco amigos
Sirvo bem de escudo para os que precisam de um alvo
Perco a família
Sirvo bem de escudo para todos
aqueles que se promovem em confusão
Perco o convívio com a sociedade
Sozinho quem liga para a vaidade?
Vou vagar para um mundo sem fim
Ninguém me precisa
Nem eu mesmo preciso de mim
Embora não tenha perdido eu mesmo
Tenho a voz péssima, mas canto
Orgulhoso de transmitir uma mensagem
Os sapos não se importam tanto
Aproximam-se de mim pela margem 
Do rio onde faz frio
Choro sem perceber
Seco meu próprio pranto
Meus desejos minguam e voltam
Sou incapaz de ver miragens 
Trabalho para juntar dinheiro
O trabalho dignifica o homem
Disse um homem morto uma vez
Não me sinto mais digno
Almoço com os viajantes
Aposentados, famílias e 
solitários caminhoneiros
Uma mosca esfrega as patas 
de olho no que tenho no prato
A paisagem ao fundo parece um desenho
Na contemplação, eu empaco
Poderia passar algumas horas aqui
Descrevendo as cores do céu e dos caminhões
Homens e máquinas no meio do nada
De certa forma todos estamos sempre sós
Na imensidão de uma infinita estrada
Exupéry viu o mundo de cima
Vinicius de Moraes viu-o por dentro
Os caminhoneiros o veem em linha reta
Assim como viu os humanos, Fernando, o Pessoa
Cogito destruir aquilo que mais amo
Como disse que Oscar Wilde que toda pessoa faz
Chego atrasado, como é de praxe
Já destruíram tudo antes de mim
Desanimo, mas me levanto
Penso em cantar meu próprio ser
Como faz o galo perto do posto de combustível
Como fez Walt Whitman
Canto eu mesmo
Ansioso por celebrar-me
Já que sou sólido e um dia não terei mais corpo
Paro e respiro profundamente
A gente não é o que mente
A gente não é nada que não tente
A gente é mais do que o que sente?
Pelo menos alguns de nós entendem
A gente é apenas o que sente
E agora o que vai ser, Daniel?
O que resta do mundo para você?
Agora que encontrou o rabo do cometa
A inteligência e a revelação te isolarão
Por que de repente fiquei mudo?
Estarei satisfeito no estágio final do começo de tudo?
Os que muito sabem perdem a capacidade
De serem realmente felizes
Ah, mas quem é louco para querer ser apenas feliz?
Querem o riso geral do público, humoristas
Eu quero a minha cerveja preta e
meu cachorro, Link
Eles querem dinheiro infinito e
a posse dos objetos
Eu quero ovos mexidos e
chocolate amargo
Há um limite para o quanto
posso aguentar sem chocolate e café
Eles querem ser singulares e reconhecidos
Querem o suprassumo do prazer
Eu quero muito meu gato Hadec miando
Avisando sobre sua fome ao amanhecer
Querem tudo e com tudo não se satisfarão
Detentores do novo mundo
Reis e rainhas da ilusão
Não há um deles realmente colhudo
Para admitir que ame o circo e o pão
Heróis repletos de conteúdo
Personificados em insurreição
E que parte tenho nesta terra?
Ouço eu mesmo dizer
Nesta infinita treva em guerras
O pouco que me resta pode se perder
Ah, mas eu ainda procuro
Embora esteja à beira do colapso
Levando tiros no escuro
Completamente seguro
Meu corpo fechado é de aço
Só consigo me fingir surdo
No calor de um abraço
Chorei ao ouvir uma música italiana no carro
Sentindo-me não mais que uma criança
Lembrei-me de esculturas de barro
Ergo-me pela própria temperança
Minha mãe dizia “você é raro”
Prossigo minha andança
Seria bom ser hábil na dança
Valsar com um novo amor
Bem atados como um laço
Compreender meu lugar espaço
Girar no mais perfeito compasso
Deleitar-me em teu sabor
Aproveitar-te toda e nua
Dando de ombros para a nova face do fracasso
Aceitando a expressão da alma literalmente crua
Em essência me aceito crasso
É como se ao acender um novo maço
Eu retornasse eternamente à mesma rua
É como deve ser
A morte não anuncia retornos
Espero que alguém um dia espere por mim
Espero que um dia todos os fantasmas
na costa da praia me lancem olhares calorosos
No baile animado de teus olhos mortos
Acharei tudo o que preciso
Ainda que eles sejam seres sem corpos
Eu os saudarei, pois por tanto tempo os procurei
São minha face do Paraíso
Ah, mas no fim de tudo, tudo, enfim, tudo tanto faz
Minhas memórias parecem feitas de veludo
Brilhos fracos em uma vida fugaz
Há lampejos de luz em um caminho 
qual costumava ser escuro, mas
Em um breve sussurro, eu juro
Não volto nunca mais
Adeus para sempre.

Registro da Quarta Fase - Fantasmas de Daniel.
Por: Daniel Rosa Possari.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O segredo de Oz



     Prometer revelar o segredo de um mágico deveria ser o suficiente para atraí-los para esta leitura, porém, sou um bom ouvinte e costumo entender as pessoas; escutar os sons que produzem, assim, eu imagino que os que permanecerão aqui são menos da metade dos que inicialmente cogitaram ler. Revelo por antecipação que os magos, não só os que voam e invocam os poderes da natureza, mas também os que entendem de ervas e conseguem se comunicar com os animais e o mundo, são em regra, sujeitos muito simples. Eles não costumam dizer bom dia, são de ínfimos metodismos e odeiam a rotina. Suas carrancas de desespero são cômicas, suas expressões de fúria são incredulamente assustadoras, porém, quem viu um mago ou qualquer criatura capaz de fazer magia sabe do que há de mais notável neles: o riso. Aquele ser estranho, quiçá etéreo, gargalha tão espetacularmente que os pássaros riem em coro, acompanhando o fluxo de uma energia tão bela e pura. Geralmente são barbudos e possuem uma aparência suja, pois Deus se esconde no mendigo e o bom só é bom quando pratica a bondade sem expectadores.

     Outro dia, eu me encontrei com um mago melindroso. Seu nome ofende muita gente, pois assim me vejo obrigado a protegê-lo. Apesar dos meus esforços em defendê-lo, ele riu de mim até sua barriga doer. Escutou os meus dramas, compreendeu o meu sofrimento pelo menos até o limite qual é possível tentar, ofereceu-me um instante prolongado de luto, fechou-se em silêncio e rompeu aquele ritual padrão com uma risada sonora e ribombante. Corei e senti minhas bochechas esquentarem, mas evitei os espelhos para não me ver enrubescido. Os figurantes da sociedade me fitaram por um instante, como se aquele momento fosse derradeiro e eu, obsceno por ter chamado a atenção, ainda que involuntariamente, possuísse uma espécie de dever de me desculpar ou de me enaltecer pelas atitudes do meu amigo. Calei e me julgaram tão ridículo quanto o mago, que ainda soluçava de tanto rir. Por que fez isso? Perguntei sem ter a certeza do motivo pelo qual estava incomodado. Por que não? Ele me respondeu e se levantou. Eu quero tomar sorvete de flocos com cobertura de caramelo. Não tenho mais tempo para a sua miséria, exceto se tomarmos sorvetes.

     Sua maneira de ser persuasivo era estranha, creia-me, mas uma hora depois estávamos tomando sorvetes. Olhe, não, não olhe. Apenas escute. A insuficiência em si é que faz crescer o medo. A projeção do que queremos ser, justo em cima do que somos, e o que “ainda” somos sempre flertando com a ideia do que já deveríamos ser, é o que mais nos apavora. Não se trata de formação intelectual. A dúvida moral, os questionamentos, a necessidade de culpar alguém pela sua vida ridícula é o que te afasta de nós (os magos). Ser insuficiente aos olhos dos pais é frustrante.  Ser insuficiente aos amigos é desesperador, contudo, ser insuficiente a si mesmo é morte. Na hora do perigo, discretamente sua mente tenta fugir para alguém em quem confia para se apoiar. Frequentemente seu apoiador vira uma ilha para a fuga, seu escape no mundo. Um dia, quando você não precisar mais dele, você vai deixá-lo, pois a vida é assim. O fato de não ser divertido como deveria, inteligente como deveria, ter dinheiro como deveria, nada quer dizer. Nada é nunca como supostamente deveria. Veja, não, não veja, apenas escute. Viu como eles me olharam quando eu ri alto na lanchonete? É a ideia se formando ao redor de você e se apoderando, como um chiclete que gruda no cabelo. Você arranca pedaços do chiclete e ele se vinga. Não raramente ele deixa uma marca feia, pois tudo o que gruda por tempo suficiente dá trabalho para sair. Não é necessário ser apenas uma direção, enclausurado em expectativas de pensamentos medíocres. Você pode ser tudo. Segure na mão uma estrela cadente. Devore o mundo.

     Ele disse que ia ao banheiro e desapareceu. Aquilo me divertiu, pois me lembrei de um amigo que não via há anos. Entretanto, eu mastiguei seus conselhos lentamente e tentei achar sentido no sentido que já havia, piscando como um letreiro luminoso em uma noite de escuridão. A jornada de Dorothy até Oz, a estrada dos tijolos amarelos e os desejos melancólicos de seus companheiros saltaram em minha mente. O leão covarde, quando percebeu a situação adversa, virou-se e rugiu. Não notou sua coragem, mas o ímpeto em proteger seus amigos havia lhe feito ser o que no fundo sempre fora. O espantalho, pobrezinho, tão estúpido, foi quem organizou o plano sem falhas para que sobrevivessem e o homem de lata, terrível, não fez mal a qualquer criatura. Assim somos nós. Na jornada pela busca da transformação para sermos quem desejamos ser, às vezes, não damos conta do que somos. Valorize-se! No desejo profundo em sermos alguém diferente, esquecemos que nascemos especiais. Se lhe amaldiçoarem, retruque com um palavrão inventado. O segredo de Oz é que ele conhece o coração das pessoas e lhes revela suas qualidades como o espelho revela a imagem refletida. Às vezes já somos quem desejamos ser. É preciso ter amor próprio. E respeito. O segredo dos demais magos, eu ainda não descobri, mas creio que tenha relação com mirar o impossível e transformá-lo. Ontem mesmo, eu quase peguei uma estrela cadente. Foi por um triz! Quem sabe eu não fosse hoje um mago barbudo? Quem sabe um dia, se eu não acabar me consumindo por tantos pensamentos cruéis e fugazes, eu mesmo não me alongue bem pelas manhãs e devore o mundo no ocaso.  

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Relato do Catador de Restos

     Andei pelo centro de minha nova cidade sentindo saudade da velha qual jurei não retornar. É que o cheiro da antiga era discreto e minhas narinas, defeituosas e levemente funcionais, ainda conseguiam passar sem que eu sentisse novidades. Tive pavor de tudo o que era novo, pois o meu mundo era redondo, suave e agradável. Quem encontra um lugar de calmaria nesta imensidão, vez ou outra, deseja apenas retornar para o que é sossegado e bom. Não importa se esse lugar de calmaria é um quarto bagunçado, pois se é o seu lugar, ainda é mágico. Não importa se esse lugar existe meio aos solilóquios de um dramaturgo, garanto, ainda é mágico. Não importa se sua calmaria é uma pessoa exagerada e cheia de falhas de caráter. O riso fácil do qual sente falta lhe dirá o caminho. Há, porém, estradas sem curvas ou pontos para retorno. Por onde andar quando, sua cabeça e seu coração divergem e, os caminhos seguros são impossíveis, os seus antigos lares estão do outro lado do oceano de sua existência e o que é impossível acaba se tornando sua melhor expectativa de probabilidade na esperança?

     Intervalo. Fui ajeitar minhas pernas e bati meu joelho com força na mesa nova. Faz dez minutos, mas meu joelho continua dolorido e a mesa, impecável e linda, ainda está intacta. É motivo de contentamento. Se meu joelho velho quebrasse a mesa nova, eu talvez perdesse o rumo de meus pensamentos nesta noite, mas a vida seguiu como deve seguir. Imergi novamente e me lembrei de como tudo costumava ser. Fujo do que pode ser dolorido, mas inevitavelmente corro para o conforto das boas memórias. Todo mundo possui sua própria Estrada para Locais Seguros. Mergulho em mim, ou melhor dizendo, percorro-me. Quis de tudo nessa vida, mas sempre me indagava sobre a necessidade de querer ter o que eu queria. Nunca se utilizaram das duas versões comigo, embora, eu cansativamente tenha oferecido a oportunidade que todos se explicassem. Sofro o que existe, pois sou tão real quanto posso ser. Você teve dificuldades em aprender? Às vezes o que parece não é, e o que é, de todo jeito, é menos do que parece. Já foi enganado pela segurança de achar que sabe mais do que sabe, só por ter medo de não sabê-lo na integralidade?

     Amedrontado, eu me fugia. Quando me encontrava, corria. Quando criança, chorava. Quando adolescente, rugia. Que era eu ou que pensava ser? Um típico carneiro desferindo cabeçadas nos leões oportunos que tentavam se alimentar de mim? Não, diziam, você é um garoto e será sempre um garoto de pés sujos olhando para mundos que sequer existem! Rápido na sinceridade, devagar no raciocínio, excessivamente sensível até para os poetas falsos. Seu nariz, é bom que saiba, sempre será incapaz de captar os cheiros. Seus olhos não veem nada, tu sabe, no fundo da alma ainda é um garoto frágil e indefeso. Tento correr de volta. Quero minha Estrada para Locais Seguros. Tento dormir para me distanciar da pungência da dor, mas sigo insone. Fui traído pelos ditados populares: o tempo nunca curou minhas feridas. Cerrei os punhos e desafiei Deus e o Universo, anunciando, enfim, meu estado de loucura. Havia perdido para o mundo ou ganhado? Quem sabe dizer? Mas naquele momento foi o meu escape, a única fuga que eu precisava para correr até que não me restasse mais fôlego. Quando caí estirado no chão, dormi num sono profundo e sem sonhos. Quando acordei, infelizmente estava completamente lúcido, suspirei e chorei. O momento da jornada do fraco se decide aqui e sabia que, permanecendo ou não, eu era fraco e também forte. Tenha coragem, Daniel. Sussurrou um leão imaginário. Você já lutou com dragões maiores do que esse. Não é hora de uma reviravolta? Meus heróis, todos frutos de fantasia, se uniram para ecoar o cântico do meu renascimento insurgente. 

     Limpo a poeira da minha calça e com as mãos sujas de terra, eu seco minhas lágrimas. Essa é a minha história e eu me tornei um mero expectador. Há coisa mais deprimente? Sou o catador de restos, sempre perdido e confuso. Eu me alimento das sobras que me deixaram, pois, alguns acharam que possuíam o direito de determinar quais são os tesouros que eu mereço. Não mais, digo. Nunca mais e nunca novamente, repito. Essa é a minha história e eu sou o herói. Eu me recuso, anuncio. De agora para o resto dos meus dias, sejam eles muitos ou poucos, eu não sou mais o melancólico catador. Errei quando errei e me desculpei - fiz o que pude, basta. Acertei quando acertei - fiz o que pude, basta. Lamentações pela perda de algo irrecuperável? Já tive meu momento quase infinito de dor. Aprendi também que tudo que é passado é irrecuperável. É aqui que a onda quebra e que volto a ser mar. É aqui, no limite do que quase não deixou de ser, é que eu aprendo a ser mais uma vez, recomeço. Eu quis abraçar velhas partes que não existiam, pois tinham dado lugar ao que era novo. Eu também já não era mais quem eu havia sido: minhas roupas, meus pensamentos e meu jeito de andar haviam mudado. Quando foi que eu aconteci? Irrelevante. Essa é a pergunta errada. Sigo incomodando, mas não mais incomodado. Eu cutuco lagartas e elas se transformam em borboletas. Sorrio. Talvez esse seja meu dom. Ainda que voem para longe de mim, eu as contemplo com orgulho. Fiz parte da transformação e é motivo de alegria. Este herói agora tentará descansar. Quem sabe em um dia típico de inverno, cinzento e lúgubre, após uma garoa discreta, encontre eu a felicidade de maneira despretensiosa, onde nunca ousei procurar. Quem sabe não exista um mar verde e deslumbrante nos olhos de uma pessoa desconhecida? Nunca mais procurei, mas ainda observo com atenção tudo o que há em meu caminho, sei nadar. Quem sabe em um dia qualquer, eu ache algo que me sorria e valha a pena... Até lá sigo sozinho, mas hoje minha alma é serena.

domingo, 28 de outubro de 2018

O que trouxe para casa


     A manhã deste domingo foi terrível. A noite passada, péssima, revelou presságios do dia seguinte. O que estava por vir não poderia ser bom e não me refiro aqui aos presidenciáveis. Digitei em frenesi minhas frustrações e chorei como um bebê. Não nego que também sou um homem de oscilações, mas não sou de choro (ou não era), entretanto, as lágrimas escorreram. O café acalmou minha língua com o afago de seu gosto amargo. O açúcar só me faria irritar mais. Esbravejei mudo, cogitando quebrar tudo, mas consciente de que o prejuízo seria exclusivamente meu. Renove-se na temperança, sou capaz, certo, mas o que é que se pode fazer quando o motivo pelo qual sofre vai além daquilo que você pode controlar?

   Nada, óbvio. A constatação, porém, é inútil, pois não ameniza a dor. Estive inteiramente machucado hoje. Não esperei por empatia. Empatia não há. Não esperei compreensão. Estou acostumado a ser incompreendido. Esperei por calma e ela também não veio. Desejei que alguém me acalmasse e não havia alguém. Admiro o sossego, a tranquilidade e até o calor que se produz entre dois corpos quando o frio é insuportável demais. Quem não gosta de uma companhia boa? Quem não gosta de alguém disposto de verdade? Quem não sente falta de sentir falta? Soube que nada em minha casa me entreteria. Troquei de roupas quatro vezes, pois não conseguia me decidir se queria sair. Cogitei ir ao cinema, tomar sorvete ou correr. Optei pela terceira alternativa. Ao correr, porém, vi o quanto estava difícil observar o mundo. Não, eu não deveria acelerar as coisas. O momento era de passear e contemplar. Talvez existisse uma forma de encontrar alegria nas coisas que existiam por existir e que, ainda bem, estavam livres do controle de qualquer pessoa.
     
    Observei, enfim, o que havia. Ouvi primeiro. Os meus tênis mastigaram a areia vermelha e dura num croc-croc que me fez ter vontade de comer Fruit Loops. O chilrear animado das aves me animou. Segui e sorri, pois, vi duas araras cruzarem o céu. A sincronia delas era perfeita. Um avião também passou por cima de mim. O homem também faz coisas fantásticas. Meu coração estava mais quente e me senti acolhido pelo mundo. Talvez encontrasse um gato para adotar. Continuei a caminhada. Catei uma pedra comum, mas notei que até ela tinha seu formato próprio. Catei uma flor murcha do chão e me indaguei sobre o tempo que dura à beleza das coisas. Enfurnei-me para dentro dos bairros, contando as quadras para não me perder. Pensei em comprar ovos no mercado, mas o encontrei fechado. Olhei para os terrenos baldios e matagais, buscando um gato para ser meu companheiro de residência, mas encontrei um coelho branco (maior que a maioria dos gatos) de olhos verdes avermelhados. Dei dois passos em sua direção e ele se afastou. Como parecia assustado, eu o deixei em paz, mas veja, contemplando o mundo com tanta atenção, eu me esqueci de devanear. Quem sabe ele não estivesse me mostrando o caminho para o País das Maravilhas?
     
    O passeio chegava ao fim, mas tive tempo de fitar uma pomba nos olhos. Ela estava sentada em frente ao portão de uma casa e me encarou como se eu fosse idiota. Talvez ela estivesse certa e concluí que era hora de voltar para casa. Vi uma dúzia de crianças brincando na rua, a maioria delas concentrada no jogo de bets. Vi uma rosa vermelha de beleza cinematográfica qual me remeteu ao filme A Bela e a Fera. Não a encostei. Algo tão naturalmente lindo pode ficar como está. De repente me senti aliviado. Estava tudo bem agora. Dei algumas voltas pelo bairro e com meus próprios olhos pude contemplar o que é belo, sem precisar que toda aquela beleza me fosse explicada.
     
    No meu retorno para casa, notei que as minhas frustrações pela manhã, nada mais eram que pedras no meu caminho e que algumas delas não podiam ser quebradas ou removidas. A responsabilidade de trocar de rumo, quando o anterior se torna impossível de percorrer, é singular. Entro em casa e bebo água, como um pedaço de chocolate e revivo mentalmente todo o meu percurso. Esvazio meus bolsos e retiro deles a flor morta e a pedra ordinária. Olho para essas inutilidades com carinho e uma convicção firme se forma em minha mente. Eu trouxe para casa quase tudo, ainda que não tenha recolhido nada mais. Só deixei para trás a rosa vermelha mais perfeita e um coelho potencialmente mágico, mas tudo certo. Amanhã é um novo dia para acreditar em magia. Tudo vai ficar bem mais uma vez. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sua loucura é linda

Andaram dizendo que eu sou louco
Pois não entendem o meu modo de agir
Ajo como desejo e me livro do sufoco
Quebro a ira com o ato de sorrir

Louco é quem aceita a normalidade
Vive como o resto do mundo
Somente mais um vagabundo
Vagando pela cidade

Uma garota distraída passa
Ao longe pensa numa outra dimensão
A janela da minha alma embaça
Acelera a batida do meu coração

Ela é fúria, alegria e tristeza
A onda calma e o mar em tormenta
Seus gestos distantes são repletos de beleza
Meus impulsos só aumentam  

Os olhos dela me lançaram magia
Fizeram com que eu me sentisse vivo
Está soturna, mas sua forma ainda é poesia
É neste instante tudo o que preciso

Então venha

A sua cólera é encanto
A qualquer tempo e hora
Sua ofensa aqui é bem-vinda

É pra ti que eu canto
Perceba sem demora
Sua loucura é linda

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A falta que me faz

      Não creem a falta que ele me faz. Pensam que capazes de compreender? Tolos! Querem saber o que ele significa? Prometi que não contaria, mas o sussurro de um trovão me dissuadiu. Apareceu como um herói, de súbito, em um momento qual eu passava por grandes dificuldades. Confesso, por uma necessidade estúpida de ser sincero com quem me acompanha, que a surpresa causada pela sua primeira aparição me deixou irritado, ainda que eu soubesse de sua chegada. Ele era de uma branquidão hollywoodiana: irradiava vaidade e era diferente de tudo o que eu conhecia. Sua aparência me deixava irritadiço, mas não me enraiveci, não com qualquer ódio real ou digno. É claro que eu sabia que ele não tinha culpa de sua beleza. Ainda assim toda aquela mistura de emoções me acometeu. A sensação de desconforto equiparava-se talvez àquela da pedra pontiaguda que entra dentro do sapato em um momento crucial. Você não pode parar de se mover, portanto, deve carregar o fardo doloroso. Desde a primeira vez, ele foi incomodamente solícito e amigável, colocando-se à minha disposição. O tempo me faria valorizado. 

      Quando alguém, seja qual for sua forma ou jeito, surge em sua vida e se prontifica a ajudar, o instinto nos leva a recusar sua mão amiga e até sua presença. Há uma ferocidade orgulhosa e banal em cada um de nós. Funciona como uma espécie de potencial bélico e combativo, aguardando por uma oportunidade de saltar do escuro, assustar e ferir. Não há placas, mas lê-se em muitos pares de olhos a inscrição: Afaste-se! Cuidado! Cão bravo! O interlocutor não possui tempo e disposição para ouvir um romancista falar de romance, um arquiteto falar sobre casas ou um desconhecido discorrer sobre cães e gatos, ainda que todos os de bons corações amem os cães e gatos. A disposição, assim como a boa vontade, é seletiva. Esses grupos de pessoas, convencidos de que são mais do que são, decididos de que não precisam ser mais do que acham que devem ser, não se envergonham de quaisquer atitudes. Atentos e prontos, zombam as opiniões, sonhos e desejos alheios. O meu amigo branco tinha belos olhos opacos e nas noites trevosas, infinitas ou fugidias, era impressionante como brilhavam em um fulgor antinatural, lumiando todo o breu e mostrando os caminhos. Diferente dos outros quais citei, meu amigo não zombava os outros. Foi percebendo sua magnificência que comecei a sentir ciúmes dele. Ainda que eu fosse sua pessoa favorita, ele me garantia, era alguém que estava disposto a ajudar a todos, pois não era egoísta como eu. Assim logo se tornara amigo dos meus amigos e alguém importante para minha família. Só desejava ser útil.

     Passei a valorizá-lo como ele sempre mereceu. Passeávamos juntos, cantávamos juntos, estávamos juntos. Houve um dia, perto da minha segunda escola, qual fitei o céu estrelado em sua companhia. Creem que alguém maravilhoso assim não tivesse apreço pelas estrelas? Sempre dizia que seus olhos estavam em linha reta, como o poema de Fernando Pessoa, encarando o mundo de frente. Eu e ele inclusive recitávamos o poema em uníssono, tendo ele, claro, memorizado antes. Ó! Como às vezes deixamos escapar os grandes amigos. Há centenas de impressões erradas, certezas fundadas em argumentos falhos e sem fundamentos, mas que se valha a Lei da espada e do aço. Corte seco e fatal. Ó, meu amigo. Hoje sei dar valor, embora jamais prometa meu amor! Quem é louco de prometer algo que está, quase sempre, fora de qualquer controle?

      Ele agora está terrivelmente doente, mas não falharei em lhe ser útil, como sempre me foi. Os médicos, repletos de insensatez, divergem sobre a natureza de sua doença, porém, este amigo nunca falhou em acreditar em sua cura. Ficará bem, amigo. É forte, mais do que sonha, mais do que supõe. Ficará bem, amigo, e se não ficar, saiba que aqui, eu vou sempre sentir o efeito de sua ausência e a falta de seu companheirismo.  Você foi o melhor de todos. 

Obrigado por tudo, New Fiesta 2014.
     Nem tudo é o que parece. Este foi apenas um exercício diário de escrita. Agora que está concluído, eu reflito que, embora seja útil exercitar minha capacidade de escrever, este texto em particular não diz e nem quer dizer particularmente nada, pois eu deveria ter lavado a louça antes e dormido mais cedo. Boa noite. 

     O NFFSB olhou para o texto, achou ridículo e piscou seus faróis.
- Era só um problema de embreagem, irmãozinho. Você vai gastar mais de R$ 1.000,00 para salvar a minha vida, mas estaremos juntos outra vez. 

     É um preço muito alto. Talvez tenha chegado a hora de dizer adeus ao meu bom companheiro. Todo o meu discurso para, no final, sumir com a vaguidão do que não pode ser mais. Eu mudei de ideia. Até os bons amigos dizem adeus, então, eu vou para uma terra onde possa andar de bicicleta. Hasta Luego.