sexta-feira, 21 de junho de 2019

Eu ainda estou aqui

     Quis falar de amor durante a madrugada, mas elas não foram feitas para isso. Aquece-se o meu peito pelos desejos não realizados. Queima-me os devaneios pelos outros inventados. Sinto-me tão especial e inequivocamente quente. Vou descrever um sonho real das minhas emoções, mas talvez vocês não estejam prontos para ouvir. Talvez eu ainda não possa falar. Prometo ser sincero, mas e daí? Sensações e esmero, apenas outros motivos para sorrir. A minha melatonina acabou e nem sei se funcionava, porém, era importante no ritual do sono. Consistia numa espécie de preparação para o abandono (próprio). Agora sou obrigado a encarar as horas sombrias. Dane-se, pois sou capaz de ser tão soturno quanto o relógio. Sou tão imprevisível que acabo... Óbvio. Quando nem comecei. Atraso pontualmente e sem equívoco. Adio tudo o que posso, afinal, é para isso que serve o amanhã. Às vezes gosto de sentir que só eu posso inventar mundos. Impulso egoísta de quem se conhece. Vontade oportunista que seleciona aquilo de que se esquece. Você escuta as vozes e sabe que são muitas! Apenas chilreiam ininterruptamente. Os outros falam muito e o tempo todo, mas o tempo todo nesta noite infinita estou sozinho. Aposto que a noite lá fora é bonita, mas os meus dedos descrevem aqui alguma parte do meu caminho, neste acesso de fúria sem romantismo com traços fúnebres de poesia. 



     O médico diz que sou o bebê mais pesado do mês de março naquele hospital em 1992. Sorri e diz que os arianos são impulsivos, embora tenha cursado medicina e zombe da astrologia. A velha (em 2019) me vende um amuleto de boa sorte e me dá dois de presente, pois diz que eu nasci para o sucesso. Ela promete com uma convicção sobrenatural que logo eu vou chegar aos meus objetivos e quando isso acontecer, claro, eu comprarei mais amuletos dela. Espero que o sucesso venha rápido, pois ela não parece que vai aguentar mais muitos anos. Reflexões em mim nas canções desta vida fugaz. Fui anteontem impressionante. Fui no dia seguinte o desânimo personificado. Agi sem agir como se não me soubesse errado e ri. Aviões cruzam os céus na madrugada; pessoas vão para a Europa e dormem na aeronave. Outras pessoas aproveitam suas últimas horas de sono, pois logo vão pegar o ônibus para mais uma batalha. Não se intimidam ainda que ganhem pouco, acostumaram-se com o fio da navalha (no pescoço). 2h36 é a hora perfeita para tomar mais um litro de café. "Não tenho escolha", respondo quando alguém me acusa de negligência de minhas próprias responsabilidades. Você cale essa boca, pois eu não me esqueço do que importa. Cumpro-as e me assumo. Sou tão imprevisível que altero repentinamente o meu rumo. Sou tão vampiro quanto não gostaria de ser. Nunca brilhei na luz solar. Reconhecem-me nesta cidade e adoro. Reconhecem-me nesta cidade e odeio. Reconheço que falhei na hora de acertar e que cometi o acerto perfeito no errar. 



     Não sabendo o que fazer, eu resolvi escrever para me distrair. Alguns fazem amor e outros fazem sexo. Alguns se escondem para evitar a dor enquanto outros se embriagam até desaparecer o nexo. Eu escrevo. A madrugada segue e se agiganta. Os fantasmas te atormentam e nada adianta. Pego o carro e saio para comer um sanduíche. Os preços são assustadores, mas gastei gasolina e mereço. Escolho a melhor promoção, sinto a minha própria comoção. Agora evito gastar mais dinheiro. Pego a chave do meu carro e me recordo de que o vizinho ainda não pagou o conserto do risco que ele fez. Isso não é importante agora, eu penso, mas ainda me sinto ofendido. Quem é que admite a culpa, mas não conserta o dano cometido? 





     Dirijo sozinho até uma árvore perto do cemitério. Penso nos que já se foram, mas eu ainda estou aqui. Grito bem alto: "EU AINDA ESTOU AQUI". As almas penadas me compreendem e por isso vou embora. Meus dedos pegam fogo e preciso escrever uma carta endereçada à minha própria casa. Amanhã às 17h15 eu a lerei e talvez note que me dei bons conselhos. "Evite quebrar espelhos, rapaz. Apegue-se às superstições se for esperto, cuidado para não transformar o seu jardim em deserto, quanto ao resto, o resto tanto faz". Escrevo e tomo o cuidado de não me mover, pois o cachorro gosta de dormir escorado nas rodas da cadeira do computador. Talvez este seja o único tipo de amor. Suponho que o combate aos espíritos ruins machuque o estômago, pois a gata preta come a planta do vaso. A vida se esgota em uma conversa entre três amigos no carro. O dom da amizade é um dom raro. Bebo mais café e meus olhos cansados resistem. Grito outra vez: "EU AINDA ESTOU AQUI". Um vizinho me xinga ou talvez seja um mendigo. Quem é que sabe quem é o que nestes dias? Ele deve estar com o rabo quente para se incomodar como meu grito. Não me importo com o incômodo alheio. Só a beleza e a destruição interessam. A raiva me aquece e continuo escrevendo. O sentido se perde no sentir, mas sei que o que importa é continuar escrevendo. Sou o eco do fim do universo e também sou o nada. Sou o tiquetaquear do relógio antes do nascer do dia. Sou o esgar de ódio e ainda a face formosa da poesia. Sou o sono contínuo que nunca descansa e ainda o amaldiçoado homem lúgubre de fala mansa... Aquele pronto a sacrificar mais por quem por mim nunca se sacrificaria. Conheço todos os estágios e mesmo assim desconheço porque a vida é assim. Sou o cobrador dos pedágios e dono de algumas secretas estradas. Sou único e só mais um, perdendo-me na individualidade comum, imperador secreto da madrugada. O sol aparece radiante anunciando um novo dia. É o fim do meu reinado. Volto a ser feito de algo mais resistente que o vidro, mas puramente tão frágil. Perco-me do meu instinto sempre ágil. Não tenho do que reclamar, mas reclamo. Nem tenho o que amar, mas amo. O clarão me irrita e sou tratado com desprezo e desdém. Eu só queria que chovesse agora, mas algo lá fora me diz que vai ficar tudo bem.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Horas tardias


E lá vem você determinada 
Posso ouvir bem o barulho dos seus passos
Agora eu espero que se aproxime de mim 
Vejo que é cuidadosa, mas segue na minha direção
Acho que percebeu que sou bicho fugaz de coração
Antes eu só contava os dias para a chegada do inverno
Confesso que contei os minutos até que você aparecesse
Revelo também que sempre fui 
muito humano para agir com exatidão 
E a sina de quem é exato é ser atacado 
por quem se faz somente em confusão 
Você sabe bem, não sabe?
Nunca arredondei as horas e os minutos
22h27, pois não tenho como enganar o tempo
Não me contento, porém, você pode notar? 
Em uma noite dessas você furou a ordem da estação
Era outono lá fora, mas você dentro e fora era verão
A luminosidade do seu olhar quebrou meu ímpeto de solidão
Eu que voava alto no céu aterrissei no chão
Precisava ver de perto aquele brilho
E lá vem você determinada
Posso ouvir bem o barulho da sua gargalhada
Posso admirar uma mulher que sabe 
batalhar pelo que merece
Quase todo mundo se esquece, mas não você (nunca)
Bom, eu queria realmente escrever nesta noite (para você)
Você me salvou, mas o fez sem intenção 
Queria te conceder um espaço, mas 
Eu que sou todo cansaço
Não sei como proceder sem parecer 
Vão 
E lá vem você determinada outra vez
Duvido profundamente de minha lucidez
Será que você poderia voltar apenas 
para se aproximar novamente?
O que será que fiz para conquistar 
alguém assim de repente?
Nem sei o que sinto, mas talvez tenha ciúmes 
Perto de você eu não minto e nem confundo perfumes 
Quando foi que me tornei bom em algo como conversar?
Admito com infelicidade que nada me anima, exceto você
Prometi em nome da rima que vou ser diferente e vou vencer
Apelo furioso da miséria de quem só age errado
Surto doloroso e separação da matéria pela qual sou formado
Quando foi que meus olhos ficaram opacos?
Quando foi que deixei de ser assim tão fraco?
Ainda assim meus esforços parecem todos tão tortos
Sou feito de respiração fraca e acúmulo de sonhos mortos
Escureço antes do cair da noite 
Lumio antes da primeira luz solar 
Se não tenho lugar no mundo 
Todo o mundo é o meu lugar
Você chega hoje ou sentir o seu cheiro é sinal da loucura que atormenta a possibilidade do esquecimento definitivo? 
A lembrança da doçura realmente transforma um homem lépido em furtivo? 
E lá veio você determinada 
Poderia gastar três vidas, mas não saberia explicar
Tudo o que posso dizer é que espero sorrindo
Quando você se inclina para me beijar
Sozinho me vejo despertar
Quando preferia estar dormindo
Foi um sonho bonito e triste, pois a mulher nem existe 
Mas sigo firme no propósito de saber ter tentado 
Só me sinto direito quando faço tudo errado 
Só direito me deixo doer quando os meus defeitos
são extraídos do peito e escancarados 
Interlúdio em mim 
Quais são as próximas canções? 
Ainda é começo da madrugada quando me deito (outra vez)
Com os olhos cheios de água salgada e
a boca com a memória do sabor
Já é tarde para sair de casa, mas 
o negrume da noite anuncia que ainda 
é muito cedo para o amor.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Por mim

     Eu não faço confusão, embora, de quando em quando eu a personifique. Tenho a capacidade de extrair a lucidez pungente das coisas e às vezes deixo de sentir até que doa. A minha sensibilidade às vezes abarca outros mundos e às vezes se encerra com a porta fechada do meu quarto. Tudo me interessa. Nada me interessa. Grandes esforços e em seguida chega a preguiça vestida de placidez. Acredite ou não, ela engana muita gente, mas não quem se fez com a minha rigidez. Aprendi a ignorar a roupagem, pois quase sempre me visto com as roupas erradas. Tranco-me para não permitir que o meu estado lúgubre transborde para fora dos limites e quando saio sou todo dragão: chamas, barulhos e sorrisos. Salto da cama e mergulho de cabeça e coração em tudo o que preciso. Solto fogo e vejo o mundo queimar. Encho-o de brilho e caos. Você sente? Essa beleza destrutiva que se alimenta de migalhas e faz o estômago saciado. Você vê? Aquelas destrutivas sutilezas que com pequenas ausências morrem de inanição. 

     Ao longe se aproximam. Não sinta pena. São apenas almas errantes consternadas pelo cansaço estendido e a sensação de estarem (ou serem) alheias. Eternidades que se despedaçam agora. Ímpeto esquecido de melhores horas. É o impulso de quem não odeia, mas preferia odiar para sentir algo queimar nas noites em que faz frio. O nada é o inverno no meio de uma noite de verão, túnel de acesso fácil ao absoluto vazio. Em um dia você se vê juntando os cacos até que subitamente pisa em tudo o que você juntou e sopre os farelos em um rio para que nunca mais voltem até você. Não voltarão. Tudo muda. Talvez a vida só valha a pena se as escolhas forem suas e o controle, mesmo descontrolado, ainda seja seu. Eu? Eu não me interesso em brigar pela razão, pois não há razão que me descreva e nem descrição que me racionalize. Sou muito exato para ser humano, mas o que mais eu poderia ser? Uma estranha dorme no meu ombro numa viagem de ônibus e sorrio. Sou eu e simultaneamente sou outro e esse tanto que é tão pouco me causa um arrepio. O ombro vai ficar dolorido, mas a dor vem e vai e a vida continua. Miro o alvo que ninguém vê e todos riem da minha pontaria como se os meus objetivos fossem devaneios distantes de um menino. Respiro fundo e desço na próxima parada. É hora de buscar o meu destino.

E me perguntaram um dia desses...
Sobre os limites em que dói a dor,
Sobre as medidas em que se calcula o amor,
Sobre os motivos e razões para viver...
Não importam os lugares para onde você for,
Você define o seu próprio valor, pois continue em frente,
Primeiramente e sempre por você.

     Há quem vá chamar isso de egoísmo, mas estão errados. É sobrevivência. É amor próprio. Ame sua coragem e sorria os seus sorrisos. Seja você e o restante que se ajuste. Cedo ou tarde o mundo inteiro vai se acostumar com o seu jeito e o mais importante é que você viva a sua vida por você mesmo. Eu? Eu vivo por mim. 

terça-feira, 4 de junho de 2019

Cristopher Green


     Cristopher Green era o tipo de homem menos verde que havia. Em todos os aspectos que se pudesse descrevê-lo, ele era cinza. Usava sempre um terno preto com uma camisa social branca por baixo, remangada, embora ninguém jamais soubesse. É que odiava a sensação dos fechos e do botão em contato com a pele. A calça e os sapatos eram pretos, pois preferia a noite. Se fosse alguém diurno, Cristopher não hesitaria em usar calças cáqui e sapatos brancos. As únicas pessoas que ele tinha na vida estavam habituadas a chamá-lo de Cris e os desconhecidos o chamavam de Sr. Green, embora não existisse nada mais irônico. Cris costumava evitar a luz do sol e jamais passava protetor solar na sua pele alva e sardenta. Fazia a barba sempre com quatro dias de atraso de um jeito que era comum que estivesse com um aspecto de abandono. Seus cabelos escuros e compridos desciam até a altura dos ombros e eram rebeldes, despontando para os lados, mesmo que o sujeito não os penteasse por opção. Cris odiava o pragmatismo da maioria das pessoas, ainda que isso nunca o tenha tornado agressivo. Sentia-se avulso ao mundo. Isolava-se sempre que conseguia, mas não conseguia se afastar sempre. As coisas eram diferentes no mundo de Cris. Suponha que na sua cidade o pôr do sol acontecesse às 17h45, Cris já estava escuro desde às 16h00. Se o nascer do dia ocorresse às 6h00 com o primeiro canto matinal de um galo, Cris contrariava a lei natural. Despertava em três horários diferentes: 04h33, 11h36 e 15h39. O restante das horas era vago e o homem acinzentava tudo que pudesse, como quem varre a poeira de um cômodo a outro sem realmente se livrar dela. Creio que você possa imaginar a profissão de Cristopher Green. Obviamente era advogado, até pela razão da ironia que haveria em seu nome se fosse engenheiro ou jardineiro. Claro que ele não era do tipo de cidadão que presava pelas causas ambientais, mas sempre era alvo de piadas sem nenhuma graça em relação ao sobrenome. O que você precisa saber sobre Cris é o que o motivou a fazer aquela estranha viagem de quarenta e dois dias para a Islândia: silêncio. O advogado só falava quando precisava, ainda que escutasse dezenas de pessoas na maior parte dos seus dias, estivesse literalmente acordado ou não. Cristopher sabia que a maioria das pessoas era tragicamente comum e eram vítimas ingênuas que não percebiam o quanto a sociedade as forçava a compartilhar hábitos, mas admitia que a lucidez talvez fosse um veneno sem antídoto. Uma vez que você algo, você nunca mais pode deixar de ver. Cris era ateu, mas sempre murmurava um deus me livre quando pensava em dividir suas excentricidades. Não havia pior pesadelo. Acreditava que a vida só valia a pena se as escolhas fossem realmente suas e o controle, mesmo descontrolado, centrasse em sua própria pessoa. Não se interessava em brigar pela razão, pois não havia razão que o descrevesse e nem descrição que o racionalizasse. Era muito exato para ser humano e seus instintos o impeliam a calcular hipóteses antes de agir, exceto no que concernia à súbita ida até a Islândia.

        - O que há na Islândia, Cris?
        - Há a Islândia, Tom.
       - Isso tudo é por que você não come ninguém aqui, Cris? Vai cruzar o oceano por que não quer gastar trocados com prostitutas? Você é muito verde mesmo. Sabe que na Islândia é mais difícil, não é? É capaz de você foder uma pedra ou uma cachoeira ou um deus esquecido.
        - Claro, Tom. Verde como o meu nome. Sexo com deuses. É isso.
      - Vou te dizer, Cris. Você pode não ter o jeito com as mulheres como eu tenho, sabe? - Disse e cheirou o próprio sovaco em um gesto que fez Cristopher se sentir enojado. - Use a tática do cabelereiro, Cris. Na adolescência vi muitos amigos que conseguiam fazer funcionar.
        - Que conversa é essa, Tom?
       - Sabia que ia te interessar, Cris. É simples. Você vira o melhor amigo da princesa e ela vai te usar como confessionário. Você saberá todos os segredos. Parece chato, não? Mas tenha confiança, Cris e no momento em que ela ficar vulnerável... BOOM! Você mostra o seu verdadeiramente verde para ela.
        - Isso é nojento, Tom.
      - Isso é estratégia, Cris. E você bem que poderia fazer bom uso dela para se dar bem com as mulheres ou vai ser um virgem eterno, ainda que tenha transado com duas ou três. Estou dizendo, cara. De dez manés que usam essa tática, nove se dão bem. Às vezes a menina percebe a coisa endurecendo, Cris, e aí pula fora, mas nessa situação basta que você não seja tão verde.
        - Do que está falando, Tom? Isso não é sobre mulheres.
        - Então você é gay, cara?
        - Você é um idiota.
        - Um idiota que entende das gatinhas, Cris. Quer morrer virgem, cara?
        - Não sou virgem, Tom.
       - Pode não ser virgem porque perdeu a virgindade, Cris, mas na sua alma e na essência age como o maior dos cabaços.

     Cristopher sabia que aquele tipo de conversa ridícula era o tipo favorito de conversa de seu amigo Thomas Nutshell. A sorte de Cris era que a conversa nunca se prolongava, pois Tom era de idas e vindas costumeiras e estava quase sempre embriagado ou drogado. Ainda assim, Cris sabia que Tom possuía a rara capacidade de ser honesto, independentemente da situação. Era o tipo de cara que levantaria o punho contra o próprio pai, se o pegasse cometendo alguma injustiça e que afrontaria até os melhores amigos em caso de necessidade. Podia ter suas peculiaridades e indubitavelmente era um idiota, mas prezava pelo que era certo acima de tudo. Certa feita espancou um tal de Vicente que era da mesma roda de amigos que ele, pois o rapaz diz que usou da tática de se aproveitar de menina bêbada.

     - É o que eu digo, Cris. Jogue a porra do jogo, mas não descumpra as regras. Aquele filho de uma puta... Arranquei alguns dentes do babaca e não me arrependo. Soube que a garota já estava desmaiada antes? Meu único motivo de alívio é que a menina abusada prestou queixa. Muitas delas sofrem com esses caras e não prestam, Cris. É um mundo fodido. 

     Thomas faria falta na Islândia. A maioria das pessoas existia placidamente de uma forma tão mecânica que Cris zombava da possibilidade de sentir a ausência delas. Sentiria falta de seus três gatos e de sua cadela, mas os humanos, ainda que semelhantes a ele pela espécie, pareciam-lhe completamente alheios pelas vicissitudes. Cristopher era cinza e sólido, pouco dado às mudanças, enquanto o restante mudava as cores e os cortes dos cabelos, as preferências sexuais, as residências, gostos, maneiras e maneirismos. Trocavam os restaurantes de sempre e os faziam ser os restaurantes do de quando em quando até que, enfim, por fim, fossem os restaurantes de nunca mais. Não havia apego ou constrangimento em alterar tudo subitamente, mesmo que não houvesse motivos e as refeições ainda continuassem quentes e perfeitas. Cristopher pensava que talvez na Islândia tudo fosse diferente. Ainda que os deuses quais não acreditava lá fossem mais antigos e menos esquecidos, ainda que a aridez desértica e gelada fizesse com que poucos habitassem o país, ainda que os céticos oferecessem a chance de degelo à própria insensibilidade. Cris se indagou sobre como seria ou não vasta a sua dieta. Provavelmente os islandeses bebiam sopa no almoço e na janta. Pelo menos a cerveja nunca estaria quente. Cris imaginou se alguém sentiria sua falta e concluiu que talvez e apenas talvez, Laura e Tom. Laura era a única mulher na vida de Cris que se fazia presente, sem ter a obrigação. Não era agiota ou parente e tampouco colega de escola de Cris. Ela havia entrado casualmente na vida do rapaz em uma ocasião, quando ele estava sentado sozinho em uma praça. Ela se sentou ao seu lado comendo um bolo de três cores: branco, marrom e cinza. Ofereceu-lhe um pedaço e disse.

     - Hoje é o meu aniversário.
     - Então você é do dia 10? Minha mãe é do dia 15 de julho.
     - Sim. Legal.
     - Parabéns.
     - Obrigada.

     Os dois então comeram o bolo de cappuccino e compartilharam um silêncio estendido. O cabelo dela era quase prateado e Cris pensou que era semelhante ao da mulher do seriado, mas não sabia explicar qual era o seriado e por isso nunca chegou a perguntar para Laura se havia se inspirado na atriz. Cris era quieto e quase nunca falava. Ela, por outro lado, dividia-se em dois estados completamente opostos: o silêncio velado e a ininterrupta comunicação. Na terceira vez que se encontraram, Cris teve a impressão de ter respondido a mais de quinze perguntas e escutado pelo menos dez histórias. Considerava-se sortudo por poder dividir o tempo com ela, mas tinha uma intuição de que aquilo tudo um dia se perderia. Admitia que intuições eram como poderes abstratos e não fazia sentido crer naquele tipo de coisa, mas será que na Islândia encontraria respostas? Cris nunca havia usado a tática do cabeleireiro. Seria possível que Laura o fizesse cabeleireiro por ter segundas intenções? Impossível! Possível? Por que estava dando corda para algo leviano que Tom havia dito? E do que isso importava para alguém mecânico como ele, afinal? Cristopher Green respirou fundo e sorriu desanimado. Para todas as coisas na vida, ele parecia ser insuficiente. Era como se tivesse nascido para fracassar. Às vezes, porém, tinha o rosto perfeito e estranhamente adequado para que alguém o socasse em cheio.

     - Sabe de uma coisa, Cris? Eu gosto de você.
     - Acho que também gosto de você, Laura.
     - Acha? - Disse e fez uma careta dramática, mas pensando naquela feição, meses depois, Cristopher se perguntou se ela estava mesmo preocupada com a resposta.
     - Acho. Copo meio cheio, copo meio vazio. Faz diferença? Você tem água ainda. Pode beber se estiver com sede. - Laura gargalhou alto e de maneira escandalosa. Cris gostava dos pequenos surtos dela.
     - Diga-me, Cris. Você é a minha água para quando eu estiver sedenta? - Cristopher sabia que a pergunta era uma provocação, mas deu de ombros.
     - Sou. - Ela o observou com seus olhos grandes como a lua e escuros como o céu noturno. Ainda que pareça idiota, Cris admitiu que eles dançavam em pequenas doses de brilho, como estrelas despregadas do firmamento. Sentiu vontade de dizer isso a ela, mas sabia que seu romantismo soaria completamente bobo e constrangedor. Preferiu ficar calado. O silêncio era um bom amigo. 
     - Você, Cristopher Green, é diferente, mas não é menos idiota que qualquer outro homem.

     Talvez Laura sentisse sua falta. Talvez Tom sentisse sua falta. Talvez não houvesse táticas ou respostas, mas apenas mais perguntas na Islândia. Uma vez viu o mapa de um jogo baseado no país e pensou que seria legal um dia visitar aquela imensidão. Se os dinossauros ainda vivessem e suportassem o frio, aquele era o cenário ideal para que vivessem. Não fazia sentido que um homem tomasse, por vontade própria, um avião para a Islândia. Cris pensou em coisas que não costumava pensar. Lembrou-se de todos os seus horripilantes desenhos de quando era criança, mas a sensação de estar vivo o transbordava naqueles palitos feios e descoordenados expostos no papel. Era à época bom nos videogames e os amigos apanhavam para ele no Super Smash Bros 64, ainda que ele jogasse com Jigglypuff ou Yoshi. Era bom saber que era bom em algo, mas queria sentir que viver garantisse o sentido de sentir e bem, na maioria das vezes, a vida era vaga e faltava o sentir do sentido. Não sentiu vontade de chorar, mas sentiu o aroma do café, completamente inapropriado para a fila de embarque que se fazia no túnel para entrar no avião. O cheiro foi um sinal de alerta de que poderia estar enlouquecendo.

     - Talvez eu ame algumas coisas e não deva. Talvez essa viagem seja uma inoportunidade oportuna. Talvez eu me conheça mais e valha a pena ou veja que gastei um dinheiro difícil de ganhar para me conhecer e entender que eu mesmo não valho o que penso, se é que penso valer mesmo alguma coisa. Só espero não morrer congelado enquanto estiver cagando. Quero uma morte bem morrida, daquelas que o apresentador do jornal possa falar sem precisar forçar a seriedade e que a mãe possa chorar ao dar a notícia.

     Cristopher Green divagava. Sentou-se na sua poltrona e em seguida uma senhora gorda sentou ao seu lado. Alguns minutos depois ela havia adormecido e escorava no ombro de Cristopher. Ele imaginou que a maioria das pessoas se irritaria com a invasão de privacidade e em um dia comum até ele talvez se irritasse, mas não era um dia comum. Seus ombros ficariam doloridos, mas e daí? A dor vem e vai e por isso não importava tanto. Quase ninguém sentiria sua falta e naquele fim de tarde atípico, ele poderia ser exceção ao que todos costumam tomar por comportamento padrão.

     - Que você durma bem, mulher gorda. Não sei o que há na Islândia, mas eu vou para lá e por coincidência você também. Espero que um de nós possa achar o que procura.

        Cristopher não era de dormir em aeronaves, mas apagou instantes depois enquanto imaginava se os dragões islandeses eram mais reais que os deuses inventados pelos humanos. De alguma forma não metafórica sentia a leveza de existir, como se o fato de viajar o desobrigasse das obrigações e o removesse de suas responsabilidades. Dormiu confortavelmente e sonhou que seu pai, sua professora de matemática na escola, Tom Cruise, Tom Nutshell e Laura estavam reunidos contanto histórias saudosistas a respeito de Cristopher Green, que era ele e ao mesmo tempo não era. No sonho seu nome soava como se ele tivesse sido especial em vida. Acordou repentinamente quando, enfim, o avião pousou no Aeroporto Internacional de Keflavík. Sorriu pela primeira vez em algum tempo com a expectativa de descobrir o que havia na Islândia.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Amor

     Eu não tive nem como ficar pasmo, pois quando me dei conta já estava transbordando. Tudo bem nunca ter vivido esse amor de casal, mas como alguém que viveu pode se esquecer? Deixar de sentir? Ok. Deixar de saber? Não. Simplesmente havia me dito que... Não sabia o que era o amor. Eu não tive nem tempo de respirar fundo.

     É claro que você sabe. Amor é a simplicidade que a gente complica. É algo fácil e quando se possui olhos cuidadosos passa a ser cada vez mais simples. É o descanso na loucura segundo Guimarães Rosa ou a loucura que explode na calmaria a confusão desastrosa (segundo eu mesmo). Amor é você aparecer no mesmíssimo lugar durante anos e estar louco para dormir junto. É ansiar para contemplar o sorriso ou apenas para dividir o silêncio. É deitar no chão da cozinha e ser lambido no rosto por um cachorro preto do tamanho de uma pulga e sussurrar... Isso foi o que esperei por anos... É aqui que quero ficar. 

     O amor está acima dos outros sentimentos menores ou tortos. O amor persiste quando os corpos viram cinzas ou jazem soterrados e mortos. Amor é lealdade desmedida, séries ruins, animes novos ou repetidos aos finais de semana. Amor é amar o pouco que se tem e saber regar bem o que a gente ama. Amar é ter a consciência de não ter religião, mas transformar os cinemas nas segundas-feiras numa tradição tão sagrada que a falta dos filmes seja um pecado. Amor é saber o que sente e não ter medo de cessar o sentir, pois a valentia e o vento sempre sopram na direção certa para os corações firmes. Amor é amor e a ideia de mensurá-lo é correr o risco de soar como um pateta. Amar é falar do vislumbre até do que não mais se sente e se prostrar como um péssimo poeta. Amor é Roma ao contrário, aroma nas roupas esquecidas ou escondidas no armário, sorrisos presos em retratos empoeirados; memórias medianas muito bem vestidas e transformadas em atos românticos apoteóticos. Quem ama ou deseja amar ou é bom de olfato (como eu nunca fui) sente o cheiro do amor ou do que o que desejaria que fosse amor quando a pessoa vai embora. Amor é olhar de fora para dentro e simultaneamente de dentro para fora. São ainda olhos que dançam enquanto te observam, pois veem pela sensibilidade a amálgama que te compõe e imaginam o universo que existe dentro de você. ]

     Amor é como o conhecimento da humanidade sobre os oceanos: agimos como se soubéssemos de tudo, mas vimos apenas dez por cento. A arrogância faz pensar que entendemos e nesse momento somos idiotas e isso é amor. Amar é ser estúpido cônscio da estupidez. Amar é abrir mão, sem razão, da própria lucidez. É entender que aqueles dez por cento são suficientes para querer a eternidade e almejar uma chance de olhar para os outros noventa, até mesmo as partes agressivas e melancólicas. Talvez você nunca veja tudo, mas imagina. Se fosse uma história clichê, o amor seria o desfecho e o clímax. 
     
     Quem é você? Por que você? 
     
     Irrelevâncias infantis. Isso, na verdade, não interessa minimamente. Eu estou feliz que esteja aqui comigo nessa manhã, tarde ou noite e basta. Amor é andar de mãos dadas e olhar vitrines de lojas caras quais talvez nunca consigamos comprar; é planejar trezentas e cinquenta viagens das quais cinco vão dar certo. Amor é querer quase sempre estar por perto. Amar é, talvez, concordar que os restaurantes da cidade são todos uma merda, pois até a inconsciência sabe que é preciso buscar algo em comum nos dias difíceis e que pontos de equilíbrio são necessários. Amor é proximidade e distância, mas nunca amar a distância prolongada que se gera pelas vezes em que se faz necessário o afastamento. Amor é privacidade e invasão. É ternura sim, mas também tesão. Amor é olhar descuidado e ser capaz contemplar gestos, beijar os olhos, olhar as bocas e ter a noção de que... Tomara. Tomara que Deus exista para que minha filha tenha o mesmo jeito teimoso e falante dela. Amor é saber que se não houver filhos, há outras maneiras de ser feliz.

     Amar é aprender a não deixar para trás pelos motivos que não lhe pertencem e é saber deixar para trás espólios desnecessários que a gente traz quando deixa de sentir o que sente. Amor é golpe direto: faca que rasga o orgulho ou que quebra na tentativa. Amor é gatuno solto na noite, mãos leves e açoite, passos na neve e tentações furtivas. Amor é insanidade, insensatez e respeito. Amor é assim e também de vários outros jeitos. Amor é quando um senhor de sessenta e seis anos de idade empurra a porta da casa, entra correndo e grita, seu desespero escorrendo desenfreado pelos olhos e sua boca travada em frases que se repetem involuntariamente: Ela morreu, filho. Ela morreu! Amor é saber que dali em diante tudo vai mudar de repente... É não controlar o a angústia; é tentativa intermitente. De viver...

     Amor é cuidado prolongado por quem durante anos prolongou solitariamente o cuidado sobre dezenas de pessoas. Amar é acertar a piada e transbordar pelos olhos azuis como o céu a felicidade mais genuína, pois a esposa com a qual é casado há cinquenta e três anos gargalhou e naquele riso, o mundo tão gasto quanto sua memória e seus ossos, voltou a brilhar mais uma vez. Amar é ficar quando tudo dá errado. Amor é quando na noite fria vejo seu rosto no vidro embaçado do carro. Amor é se sentir internamente e inteiramente retorcido, é ser lembrado quando o resto do mundo havia te esquecido, é abraço forte e apertado. Amor é o furo da cronologia em busca de se sentir bem. Amor é intenso e expansivo, mas nunca faz reféns. Amor é colo macio, sexo forte, café quente, cafuné infinito. O amor preenche vazios, não mente, traz sorte e é invariavelmente bonito. Amor é a falta de respiração acalmada por um toque na pele. É algo pelo qual se zele. Amar é ver a imensidão do mundo nascendo das lágrimas no rosto, é ter e não ter a vergonha de se sentir exposto. É desconfiar, mas uma última vez acreditar... Agora não há engano. Amar é deixar alguém navegar no seu oceano. Amar é nunca matar aranhas, pois é melhor acreditar nas superstições mais tolas. O amor é um sentimento que transcende o tempo e palpita nas entranhas em uma tarde de outubro vazando pela língua a frase... “Eu acho que amo você”, ainda que saiba que não há achismos. É acreditar apesar dos anacronismos e silogismos quando o amor fecha a porta de supetão. Amar o amor é sempre confiar que alguém ainda achará o caminho para o seu coração.

E ela disse... Foi muito lindo isso que você falou.
Eu ri e fui embora, mas falei baixinho, quase inaudível... 

Essa é a minha sensação sobre o amor.  

terça-feira, 21 de maio de 2019

Países distantes

     Sentei-me para conversar comigo sobre o que não conseguia falar com ninguém mais. O coração estava pesado pelo luto. A respiração estava ruim. Talvez tenha sido uma péssima ideia tomar dez xícaras de café, mas provavelmente foi a melhor que tive no dia inteiro. Olhei-me por alguns instantes, até que me localizei. Juro que estive prestes a escrever algo genial, porém, vi o momento em que correram para longe todas as palavras. Não tenho como descrever corretamente o que contemplei. As letras, incrivelmente desastradas, tropeçavam umas nas outras e se atropelavam. Elas, presas dentro de uma jaula perfeita na minha mente, aproveitaram a oportunidade de fuga quando eu mesmo, carcereiro de mim, destranquei a única saída. Gritei para que esperassem, mas fui ignorado. Assim, confesso-lhes que fiquei completamente desolado. Não é correto alimentar expectativas, mas hoje era o melhor dia para que as letras colaborassem comigo. A gente precisa dos amigos quando precisa, não é? Certo? Diga! Tique-taque... Meus olhos quase não piscam. Tique-taque... Minha sensibilidade é aguçada. Tique-taque... É uma ocasião rara, pois meu ímpeto é violento. Estou ácido, mas sou realmente capaz de me controlar. É assim que sei que sou o cara bom que tantos acreditam que eu sou. É pela insistência em ser o que preciso, ainda nos momentos em que só consigo ser como posso e brigo comigo arduamente para fazer o que é certo, apenas por questão de necessidade. Posso me machucar, não me foge à consciência, mas tenho um forte desejo de nunca ser detestável a mim. Respeito-me. Cumpro minhas promessas. Permito-me errar, mas não sou desafeto de mim mesmo. As pálpebras estão pesadas, como se sustentassem ferro. O sono é real e constante, mas perdi a capacidade de dormir. A lucidez se expande até um ponto em que as coisas todas perdem a sobriedade. O sentido é tão claro que repentinamente se escoa como a chuva ou o orvalho e desaparece. Agora os dias são longos. As noites são infinitas. Descanso entre um pesadelo sombrio e o intervalo de uma canção. O que é esse sofrer leve equiparado ao sofrimento que outros precisaram passar? 

     A morte despeja seu hálito maldito e apodrecido na minha face. O odor incômodo da bafejada, porém, não me remove do meu estado constantemente soporífero. Quero acordar, mas nem cheguei a dormir! Deitei por três horas, mas mantive meus olhos abertos. Quero acordar! Quero acordar? Dinamismo dos olhos atemporais... O olho esquerdo enxerga o passado que não pode ser esquecido. O olho direito vislumbra um futuro brilhante. Minha atenção nunca está no presente para agradecer pelos presentes que tenho recebido. A sina é de nunca ser o mesmo que antes. O movimento incessante faz a gente buscar o sossego. A tranquilidade excessiva faz urgir uma necessidade de sair, sugere um gosto de desespero. Tarde passada meu avô Damião concluiu, enfim, a jornada dele nesta Terra. Resistiu contra o tempo e mostrou uma força assombrosa. Terei essa capacidade de sobreviver algum dia? Eu me sinto acovardar. Será que alguém como eu pode ser corajoso e combativo? As memórias, ao menos, proporcionam certas estranhezas felizes. Mergulho em um passado límpido, eras antes da minha juventude, nas partes e peles sem cicatrizes. Ali vejo eu mesmo chegando, olho-me, mas que cabelo redondo e engraçado! Olho ali, vejo-me, lá vai o mini eu ligar o videogame. Bizarro como essas coisas a gente simplesmente sabe. Agora se aproxima a minha avó Malvina trazendo um prato de tomate com sal e em seguida vou ser abraçado pelo meu avô de um jeito todo especial! O senhor Damião falará e o eco de sua recepção é eterna: êêêêêêêêêêêêêêêê baiano! E gargalha em seguida o seu riso típico que me faz rir também. Um riso meio rouco, inteiro de carinho e amor. Olha como é a nossa família: simples, amorosa e direta. Olha! Olho-me outra vez agora mais atento. Eu e o mini  eu separados por anos e vidas de qualquer mera possibilidade de me tornar poeta. Eu? Daniel da imaginação, dos brinquedos, dos desenhos, dos videogames e do computador? Você acreditaria, vó? Você me leria, vô? Se um dia lá no futuro eu devaneasse em mil poemas de amor? Será que minhas palavras chegarão até esses países distantes quais vocês jazem? Será que vale a pena lutar por sonhos tolos que nos aprazem?

     Sei que este meu padrão é ligeiramente quebrado. Sei ainda que não sou ortodoxo, mas é como sou. Dane-se. Queria entender um pouquinho mais da vida para estar cônscio dos perigos, entender-me mais e compreender o mundo que a sensibilidade deixa para frente ou para trás. Por que há quem sofra parecendo fadado a uma espécie de castigo? Meu avô foi forte a sua vida inteira, mas como eu passei a desconhecer o único Damião que reconhecia nesses últimos anos. A cada vez que o encontrava, ele estava mais fraco. A cada vez que eu o encarava, seus olhos sempre pareciam um pouco mais opacos.  E a fraqueza lhe absorvia inteiro. Sua doença o consumia e ele era cada vez mais triste e magro. Crueldade irônica a de manter o funcionamento cerebral apenas ao ponto de conservar a lucidez no único estado em que a sobriedade racional já não interessa. Continuava a lutar pela vida. Seu olhar duro parecia implorar para que, de algum jeito, morresse com pressa. Mas vivia. Prisioneiro do próprio pensamento. Mas vivia. Os fieis dizem que Deus é justo, mas nessas horas falha a crença no julgamento. Enfim, o fim chegou. Enfim, despedidas fugazes e mensagens de amor. Enfim, descanso para a alma longe de qualquer possibilidade de deterioração de outros corpos. Enfim, sossego, tranquilidade para a nova jornada no caminho pelo qual seguem os mortos. Olha, você desconhecido, que não sabe de quase nada e nem sabe dizer ao que pertence. Tome conta dos seus amigos, toda perda, ainda que lenta, ocorre subitamente. E você passa a tentar trazer de volta, mas nada é como antes. Você deseja visitar quem partiu, mas quem queria encontrar nunca mais se viu. Todos estão em países distantes, sabidamente impossíveis à visitação humana. Rezo, arranjando-me com minha pouca fé, para que sejam felizes em uma nova trama. É o fim da dor. Hora de coisa nova qualquer. Que os finais sejam apenas recomeços. A paisagem é nenhuma e nos sentimos sem sorte, mas um dia também atravesso essa misteriosa bruma e descubro a próxima etapa depois da morte.

So I dive into the past
Deep in a ancient river 
Back to the start where it rests 
Some kind of a happy shiver 
Maybe the hurtest mans can never be sold
Maybe the summer minds can't ever be cold 
Time has now pass and we are all old
But when life ends what do I know?  
Maybe the weakest bodies holds the hardest souls 
Maybe the shattered parts builds hearts of gold

    Os crisântemos estão espalhados ao lado dos fantasmas e dessa grama toda bem cortada. Os antigos casais dançarão nesta noite sem nuvens.
E a vida continua. 
     E as flores exuberantes logo estarão murchas.
E a vida continua. 
     E as lágrimas escorrerão sem previsão de cessar.
E a vida continua.
     O tempo é bem que escoa e novas crianças ralam seus joelhos nas ruas. 
E a vida continua.
     E a gente precisa se esforçar ao máximo.

E a vida continua.
     E os bancos dos cemitérios estão vazios. Será que os espíritos se sentarão?
E a vida continua. 
     E as mulheres seguem lutando ferrenhamente. 
E a vida continua.
     E os tipos de homens certos fazem como elas.
E a vida continua.

     E os pais cuidam dos filhos até que um dia os filhos cuidem dos pais.
E a vida continua, continua e continua.
   Agora vá. Carregue-me na memória. Deixe as velhas histórias pesarem confortavelmente em seu coração. Viver é vago, mas nunca em vão. Agora vá, pois todos se vão. Há outros mundos além deste. O relógio corre e a vida continua... Segue em frente ainda hoje.