segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Manhãdrugada

     Não dormi e assim senti como se tivesse acordado cedo. Estranhamente não me senti pesado e nem minimamente cansado. Os picos de energia são malucos. Noite passada fiquei gastando palavras e tentando produzir um texto que eu julgasse razoável, mas falhei. Bati no teclado de maneira insistente, mas sem raiva, embora a cada minuto minha mente se frustrasse com a minha incapacidade. Já faz algum tempo que tenho me sentido assim, compreende? Finja que sim para possamos continuar. Os vizinhos que dormiram tarde muito provavelmente continuam dormindo, mas pelas quatro e tantas vi um homem em um apartamento e uma mulher em outro, apenas de relance, concentrados em não desperdiçar o tempo. Iam para lá e para cá, arrumando-se, mas desordenando a casa. Eles precisam estar prontos. A casa pode esperar. Olha, peço, enxergue-os e pela sensibilidade tente senti-los. Eu me acelerei por dentro e o sono que havia se dissipou. Mesmo às quatro e tantas aqueles dois já tinham um lugar para ir. Vê a beleza de não dormir, mesmo com a necessidade? Você pega um pouco mais da poesia que reside sutilmente apenas na alma da cidade. Acha que estou louco, não é? É óbvio que a alma da cidade é uma soma das almas de cada pessoa que nela vivem, assim, forma-se uma espécie de amálgama não humana feita por humanos, uma centelha do Universo bem presente no nosso cotidiano, uma união invisível das principais partes que transbordam aquilo de que somos formados. Todos personificados em uma unidade qual não se nota. Egrégora. 

     A cidade é perigosa, eles dizem, mas visto meu casaco e saio para dar uma volta. O horário não é favorável, mas com minhas mãos livres posso me sentir um pouco mais seguro, assim, agradeço por não ser fumante, embora me pareça improvável que o perigo queira tirar o cigarro das mãos de um cidadão. Penso nos fumantes, mas não fumo. Os grandes escritores eram confortáveis com a fumaça, eu, entretanto, não ligo. Mesmo na fumaça que não há, vejo-me ir para um lugar distante. Transporto-me para um passado de dias e estou no Mirante 9 de julho. Gosto do lugar e gosto das pessoas estranhas que ali me cercam. Seus sotaques paulistanos enchem meus ouvidos e eu pareço habituar-me mais rapidamente do que me pensei capaz. Não sinto vontade de conversar, mas talvez eu me derramasse se simplesmente me perguntassem. A paisagem urbana acelera meu coração. Sou eu mesmo o carro em alta velocidade e o piloto enfurecido simultaneamente. Feliz o suficiente para continuar acelerando, ainda que temeroso pela colisão. Nos picos de adrenalina desconsideramos as consequências para o dia seguinte. Volto à realidade com a aproximação de um pedinte. Quer um dinheiro qualquer para comprar coisas que se compram, mas não posso dar cobertores, pois não se cobrem e trocam por coisas que se vendem. Dou R$ 1,75, como não vou ajudar este que me pede se ajudei até o Wesley com R$ 1,25 para a cachaça? Pergunto para o velho como ele se chama, ele me olha por poucos segundos, inquieta-se e sai sem me responder. Sinto cheiro de fumaça, mas meus ouvidos escutam apenas pneus de carros e buzinas. Ainda existe audição em São Paulo?

     Olho apartamentos para alugar e penso que realmente devo morar aqui. Todo mundo nessa cidade parece ser mais duro e maduro e não sou piada por ser escritor ou poeta, pelo contrário. Eu juro que até param para me ler ou olham nos meus olhos, ainda que talvez eu olhe ainda mais dentro dos olhos deles. Meu objetivo de vida é mais importante que meu trabalho de hoje. "Seu olhar é muito fixo em mim e eu fico com vergonha", ouvi alguém dizer, mas mergulho na profusão de um mar profundamente verde ou castanho, esquecendo-me do que pretendia dizer. Bem, é preciso que vocês saibam, eu sou um mergulhador nato. Geralmente compreendo a natureza selvagem das coisas, quando essas coisas, perceba, lentamente se derramam em mim. Alguns estranhos por aí dizem que sou inspirador. Seco a umidade que há nos dias, ecos longo de poesias, sombra inconfundível de Amor. O amor que tanto duvidei nos últimos meses e transparecia na minha face cansada por meio de tantos reveses, que subia por um fracasso latente que não se mede. Isso tudo aí e eu ainda inspirando. Você vê como a vida pode ser louca. Você vê como a gente realmente nunca sabe a dimensão do nosso alcance. Os mortos me inspiram com grandes textos. Talvez alguns vivos se inspirem com algo que eu fiz. Ser cônscio e capaz disso é o que sempre quis. Daí vou como posso indo, descendo, chorando, subindo, sorrindo. Daí continuo como posso, inconsequente, responsável, prudente, afável, sempre num esforço contínuo que pesa meus ossos. O que não queremos admitir ou apenas o que não gostamos de admitir, é que às vezes escolhemos, entenda, permitimos o que fazem conosco. Não são os outros, mas sim nós mesmos. É fácil ser refém de um sentimento e depois dizer que não teve saída, ainda que estejamos no absoluto controle de nossas vidas. Às vezes pego uma pedra do chão e levo para casa só para sentir que não sou obrigado a fazer tudo sempre igual. Às vezes passo um dia inteiro sem dormir só para me sentir um pouquinho mais especial. Trabalho e sigo firme. Escrevo e sigo acreditando. Passou-se a noite, a manhã, a tarde, outra noite, adentrei a madrugada e é quase manhã de novo. Estou aqui pensando em fritar um ovo, pois agora senti fome. O chocolate amargo não pode mais me alimentar e nem a água mata minha sede. Que é que um dia finda a solidão que me arremete? Gargalho alto com uma piada antiga. Permito-me sonhar. Insisto em realizar. É um tempo estranho no céu de São Paulo. O limite entre a madrugada e manhã. Quantos conhecem essas manhãdrugadas? São perfeitas para o meu coração.

domingo, 15 de setembro de 2019

Necessidade

     Então foi assim que aconteceu ou mais ou menos assim, pois confesso que me distraí com tudo o que era distração. Eu presto a atenção em tudo, sabe? Por isso cada fracasso dói dobrado. Vejo-me depois com a lucidez de alguém que não se esquece de que um dia morrerá, pois há tanta gente que se esquece, viu? Os fracassos, porém, viram memória. O meu coração é mais forte que o vidro e mais duro que o aço e o resto é história. São essas partes que nos formam, vê? Nunca foi sobre isso. A história que eu ia contar foi sobre quando entrei em um bar. 

     Dois estranhos entram em um bar. Cerveja aqui. Gin lá. Ela se anuncia tão rapidamente, mas é cautelosa. Não sente medo, mas desconfia bastante. Eu rio e sorrio de um jeito constante. Estou feliz por estar aqui. A minha missão hoje é conhecê-la, bem, talvez eu já queira beijá-la. Controlo-me, pois eu realmente desejo saber sobre ela. Há uma coisa especialmente interessante em quem sabe falar e sabe ser escutado. E ela fala e me escuta. Eu não conheço o jeito dela, mas ela ri do meu sotaque e acha bonitinho o meu jeito de falar. Sei que ela me achou bonito, mas vai evitar dizer. Ela sabe que é muito bonita também e a independência a torna dona de si. Esse é o tipo de mulher qual eu realmente costumo me interessar. 

     Papo vai e continua. Ali fora estranhos cochicham segredos na rua. Homens dormem nas calçadas próximas. A sensibilidade não alcança nada agora, pois somos eu e ela, derramando nós mesmos em flertes discretamente belos como o sol poente. Ninguém mente. Pelo menos é o que meu instinto diz. Ela vai devagar, mas percebo que ela se sente feliz. A noite é abrangente e a gente se distrai com a inquietação que se sente. Ninguém se emociona, mas eu diminuo distâncias e espero. Não tenho o hábito de ser muito rápido, mas tampouco sou lento demais. Temo tropeçar nos meus ritmos, mas ela continua sorrindo e brincando e eu falo de mim e ela dela e ela quer saber e eu também e nada mais importa, pois o que deveria importar? Somos dois estranhos nos conhecendo, vê? Sou também parte dela e ela parte minha, cada espaço em branco é um espaço de nós mesmos que estamos preenchendo. Estranhamente mal existimos, persistimos, porém, contra tudo o que se finda. Somos qualquer expectativa de nada presa especialmente em um futuro que promete durar mais duas ou três horas, mas eu acordo cedo e você mais cedo ainda. Toda demonstração de algo deve ser cega, pois então se importaria se eu te chamasse linda, ainda que isso seja brega? O relógio se acelera. Precisamos ir. Tenho que resolver minhas coisas e você precisa resolver os seus problemas, mas ei, eu juro, eu seria inconsequente como um menino se as coisas não acabassem assim. Você se intitulando destino e me pedindo para que te seguisse para uma noite sem fim.

     A vida se apressou e eu achei que não fosse mais te ver. Da primeira vez estava errado. Acho que posso estar errado da segunda, mas eu poderia dizer que adoraria te reencontrar. Você percebe os detalhes? Pois eu te conheceria novo se não te conhecesse. Faça suas piadas e ria de mim. Hoje as luzes dos vizinhos estão acesas e nada apressa o fim. Do dia, da vida, do que há para ser finalizado. Mal tenho respirado. Puxo o ar quando lembro, lento, às vezes quase sufocado em mim. De que adianta viver em um mundo tão louco assim? Eu bebo a última cerveja e me maravilho no gole e nos olhos e no sabor daquele sorriso. Amanhã o mundo me espera, mas hoje ela é tudo o que eu preciso.
 
 



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Qualquer conto, qualquer coisa, qualquer dia...

     As histórias de amor começam, você precisa saber, nas improbabilidades. As coisas estão ali, quase sempre como foram, mas em um final de tarde de julho um sorriso qual você já tenha reparado quarenta e três vezes agora é especial. Olha, eu acho que não dá para a gente explicar, ainda que no peito exista uma espécie de instinto arrogante que acha que pode falar sobre tudo. Sabe, é que eu preciso realmente dizer, veja, eu honestamente nem sei se sei o que acho que sei, mas devo me fazer suficientemente entendido. Hoje basta. Inícios? Então contarei. Invariavelmente começa em um dia como qualquer outro, quente ou frio, com ou sem nuvens, com ou sem chuva, com ou sem algo alheio especificamente importante. 

      Qualquer conto começa com um começo. Qualquer coisa diferente marca o encontro. Olha, eu vou contar, pois não importa como um dia importou e dou de ombros. Francamente... Agora o meu destino é decidido por um dado de vinte faces ou por um deus com vinte mil faces, entende? Então, eu admito, como isso não me importa mais, eu vou falar a verdade. 

     Foi em um dia que disse que voltaria para a casa rápido. Era uma festa julina do último ano do colégio. Eu não estava temático, embora adorasse essa ambientação. Uma menina passou vendendo beijinhos e eu fiz a única brincadeira previsível e óbvia, ainda que àqueles tempos eu não soubesse elogiar direito. Ela sorriu como já havia sorrido por muitas vezes, mas naquele instante sorriu pra mim. Um sorriso só meu. É bobo, eu sei, você vai dizer que isso não existe, mas naquele momento eu soube que ela seria minha sem qualquer outra hipótese. O sorriso dela foi a morte das alternativas naquele ano.

     Agi. Confesso-lhes, agi mais rápido porque um bobalhão ainda mais amedrontado do que eu estava por perto, sondando-a, reparei, por um tempo considerável. Eu havia perdido oportunidades demais para resignar-me com mais uma derrota. Pelo menos lutaria a luta. Não seria cagão ou covarde. Até daria socos se fosse preciso, eu te jurei antes e insisto agora. Você bem aprenderia como eu posso ser insistente. 

     Conquistar-lhe, porém, não foi difícil. Você tinha uma paixão platônica pelo Inuyasha e conhecia uns outros poucos animes. Eu havia visto mais que o dobro dos seus, menos que o triplo, mas juntos assistimos mais uns tantos. E filmes. E séries. Dane-se. Nada disso era relevante. Você era ingênua também, como a gente aprende que ninguém tem o direito de ser por muito tempo em um mundo tão caótico. Eu te ensinei umas coisas. Você me ensinou tantas outras. Aprendemos e crescemos. 

     Hoje gaguejo pelas respostas honestas, aquelas absolutamente corretas. Flerto, de quando em quando, com uma precisão de lendários conquistadores e o faço sem mentiras, pontualmente e certeiro. Ouvi por aí que eu sempre sabia o que dizer. Quem dera fosse verdade. Nada adianta, pois ainda assim é difícil, sabe? Quando você não quer passar mais tempo com alguém e não sabe como pedir distância. Quando tenta fazer malabarismos para administrar a inconstância de gente imatura que já se considera grande o bastante. Você ficaria zangada, mas eu tenho gargalhado alto. Uma epifania à luz do dia me causa um sobressalto. Vê agora como somos diferentes? O desejo de uma vida inteira juntos é uma vulgaridade, mas por vezes a gente o sente. Uma vez, eu sei que um casal de araras se lembra, eu disse pela primeira vez na vida, no intervalo, antes de uma aula de história... Eu acho que eu amo você. Ainda que não existisse achismos. 

      Bom, eu não sei explicar. Eu era mais velho e você era mais nova. Você ainda teorizava amor, sempre desconfiada, eu ali sua prova. E aí em um dia que eu estava vestido de vermelho e preto e você estava vestida de exuberância, eu te conquistei e você me amou. Simples assim. Amor recíproco é algo sobre o qual muitos falam, mas poucos viveram. Vivemos, mas não diferente de tantos outros, morremos. Fomos jovens e aí envelhecemos. Tivemos nossa fase animada e um dia desanimamos. Você primeiro. Eu depois. Se o amor acaba? O nosso acabou. 

     O amor também se esgota, você sabe, eu sei e quem ainda não sabe um dia vai saber. Foi no casamento do príncipe Harry que, enfim, tive certeza. Eternidades se despedaçam em uma noite qualquer de maio ou outro mês com os planetas retrógrados ou avançados. O destino deus-menino caga na sua cabeça e você chora. Certas coisas não deveriam acabar, não é? Injustiça divina ou qualquer coisa menos vulgar do que a culpa. Não merecíamos melhor sorte? Certas coisas realmente deveriam acabar?

     Mas acabam e meses atrás notei que acabam apenas porque precisam. E aí alguns novos amores chegam mais rápido, outros demoram tanto que a respiração pesa e você se pega imaginando se haverá outros. Eu ainda não posso provar, bom, mas eu ainda acredito que haverá novos amores. A gente cresce em uma noite de choro em outubro depois de trinta dias sem ver um rosto conhecido. A gente cresce depois de se perceber sozinho e olhar a tempestade e chorar com um relâmpago e malhar bíceps até o bíceps estourar e a luz do prédio acabar depois de um dia de catorze horas de trabalho. É na ponta extrema do sofrimento que a gente jura que daqui para frente ninguém me usa, mesmo que lá no âmago se saiba que nenhuma maldade foi direcionada. Mas é nesse ponto que a gente muda. Vira algo novo, processo irreversível e aí nunca mais pode ser a versão antiga. Qualquer passo para trás é um caminho para abrir sua maior ferida.  

     Outras pessoas "nasceram em mim" na ausência das pessoas que se faziam presentes em outros tempos. Fui em bares de esquina que estranhamente soavam mais como meus e eu do que quaisquer outros lugares. Bebi cerveja, catuaba e mais cerveja porque detesto catuaba. Embriaguei-me e conversei com pessoas. Beijei outras bocas e por ínfimos momentos, eu vivi qualquer outro conto em qualquer outro dia com qualquer outra pessoa. Protagonizando-me, estreando-me, oferecendo a mim uma chance de ser quem eu nunca tive vergonha de ser. É engraçado, sabe? A recordação dos nomes dos bichos alheios. Bebi cerveja, caçoei do amor, embriaguei-me de novo, sabe? Dificilmente saberia, mas espero que entenda. Fui o que era e segui em frente como podia seguir. 

     Eu me tornei triste, não, você não entende, não aquele sujeito de momentos tristes e pulos em piscinas rasas de sentimento, não, bobagem, você não entende, eu personifiquei a melancolia e me escondi, pois havia um medo irrefreável daquilo dito como novo. Eu era lúgubre, sombra pálida de existência, resquício da integralidade que deveria me integrar. Oito vezes mais triste do que essa tristeza que você consegue imaginar, sabe? Não!Aí sofri, não como um cão abandonado, porque a gente vê por aí que alguns mendigos protegem os cães de rua, porém, não havia ninguém para me proteger. Até ouvia os estranhos falando muito de si mesmos e balançava a cabeça, Uhum-Aham-Uhum-Aham, Daniel, sim, não, você não fala muito, não, você não fala pouco, não, você pode ficar, não, você pode ir, Uhum-Aham-Uhum-Aham.

      Veja, perdi-me, assim, não me reconhecia. A minha cama não parecia tão minha e nem meu rosto tão meu, mas ali eu ia, como alguém que sabe que já perdeu. Erguia-me, porém, hesitante. A gente cresce andando pra frente e eu cresci. Talvez você não veja, mas entre essas tantas cervejas, eu pensava, porra, como eu pensava. Era meu jeito de ser meu e fazer tudo. Sempre trabalhando, sempre indo, sempre voltando, mas distante daquela maldita ideia de amor. O amor é lindo, mas é puramente idiota. Aham-Uhum-Aham, claro, sim, claro, não, desculpa. Posso te chamar de outro jeito? Bom, eu não vejo problemas. Talvez você possa.

     As histórias de amor terminam, você precisa saber, nas obviedades. Antecipei o eu te amo por saber que era inevitável te amar. Transformei um adeus definitivo em adeus por enquanto por ver com antecedência que você queria me deixar. Fomos bons um para o outro, tanto antes e agora tão pouco. Não mais do que se espera, na verdade, esperava-se nada ou qualquer coisa assim. O respeito fica sim, pois nesse mundo, depois do amor, respeito é o que há de mais difícil. Não fosse assim e não seríamos como fomos até não sermos. Um dia, uma noite, uma promessa que desaparece. Menos que muito, quase tanto quanto quase o suficiente. Sem retorno, memória perfeita que um dia se esquece. Definitivo. Fim.

     Será que tudo seria diferente se o príncipe Harry não se casasse? Será que seria menos pungente se eu não odiasse quem você queria que eu amasse? Britânicos fodidos e seus sotaques maravilhosos. Cheguei a pensar que a culpa era daquele inglês real merdinha. Prefiro assistir futebol do que lidar com a realeza ou com a velha rainha. Gargalho com a lembrança repleta de beleza. Tudo é como deve ser. Não hesito. Tudo é como deve ser. 

     Conheci muita gente, aprendi muita coisa, mas não reaprendi direito o amor ou aprendi de um jeito novo que talvez nem seja amor na maioria das conjecturas. Penso errado, ajo certo ou o inverso disso ou qualquer coisa parecida com isso ou quem sabe ainda nada disso, mas tudo bem. Repito isso com frequência. Tudo que acaba acabou. Perdi minha coroa na juventude, mas cresci quando um sonho estranho pressagiou: morra ou mude. 

     Mudei quatrocentas vezes em quatrocentos dias. Sou o Zâmbia de sempre, mas Tedlim August e Dr. Poesia. Vê bem isso tudo? Como eu tenho me alimentado de novos mundos?

     As histórias, sejam de amores no início ou no fim, você precisa saber, acontecem em um dia comum. Você vai acordar e vai pular o café da manhã. Talvez não encontre um par de meias e use uma de cada cor. Talvez você bata o dedinho do pé, quebre a unha e exploda em dor. Aí algo vai acontecer. Pode ser inusitado ou pode ter acontecido cento e trinta e duas vezes. Uma vontade de viver igual gente grande, andar de mãos dadas ou de compartilhar o silêncio. Uma distância de quem se entende. Uma proximidade de quem quer se precisar. Eco de felicidade. Amor.

     Você faz por você mesmo. As histórias, eu juro, começam e recomeçam infinitamente. Começam em uma noite despretensiosa com olhares que se cruzam pela primeira vez, com um cachorro tarado aqui, alguém que use gírias dos anos 50 ali, de repente outro alguém nocivamente cônscio da sua capacidade de seduzir e com o charme da independência. Talvez sua nova história seja escrita em um país distante. Talvez na mesma cidade que antes. Talvez o amor viva perto e você seja tolo de atribuir a sua miséria à sua cidade. A gente se impulsiona e se limita, mas nunca verdadeiramente acredita e despreza o que é diferente do que a gente queria. Esquecemo-nos que amanhã é qualquer conto, qualquer coisa, qualquer outro novo dia. 

     As histórias novas, você precisa saber, aguardam apenas por uma nova iniciativa. Sinto como se finalmente estivesse pronto outra vez. 

Besouro verde

     Meses atrás, ou anos, eu não me recordo precisamente, algo curioso ocorreu. Um besouro verde entrou pela janela. Nunca fui antipático com besouros, mas tampouco reservava simpatia àquele tipo de inseto, entretanto, o besouro verde claro e quase fosforescente parecia carregar uma mensagem, algo secreto. Eu bem sabia que nenhum segredo verdadeiro é contado aos fins de tarde, mas ali estava ele, aproximando-se insistentemente, diminuindo a distância de uma maneira quase insolente. Não tive dúvidas de que ele corria seus riscos por mim. Observei ele por alguns minutos, impacientei-me, tirei uma foto do pequeno, ainda desconhecendo se era vilão ou herói. Sofreria o besouro verde por ser verde assim como o patinho feio por ser feio? Sua aparência inevitavelmente suscitou em mim uma divagação. O conto popular narra a transformação do pato feio em cisne, mas a ovelha negra nunca pôde deixar de ser negra assim como o besouro verde nunca poderá deixar de ser verde. Pego-me numa lamentação soturna... Ai ai ai, pobre besouro, pobrezinho.

     Esqueço-o. É assim que deve ser com os problemas que não são assim tão nossos. Se eu soubesse como alimentar um besouro, bom, eu talvez tivesse tentado, mas o que diabos eu poderia fazer por ele? Poupar-lhe a vida, pois é assim que o instinto trabalha com coisas que julgamos menores do que nós. Há sempre uma oportunidade de  vilipendiar o outro, desprezá-lo, cuspir-lhe, ainda que seja apenas uma nova metáfora para que você escancare o seu desespero. Há os crus o bastante ao vivo ao ponto de se tornarem sem graça. Quando possuem a chance, ainda que não pessoalmente, atuam-se, como grandes artistas circenses fazendo uma performance ao público. Essas pessoas dotadas de talento sempre me colocam um ponto de interrogação na cabeça. A arrogância é do ser original ou do personagem? A pose é usada para uma defesa necessária ou para um ataque cruel? O besouro verde ainda só pode ser verde. Eu tenho cabelo preto igual tantos. Eu tenho dentes igual tantos. Eu sou um ser humano igual tantos. Como explicar me sentir um besouro verde?

     Qualquer dia desses posso entrar pela sua janela. Então vou parar perto de você e se você me der algum tempo, eu vou te entender. Bom, eu vou estar por ali, seja besouro verde, ovelha negra, patinho feio ou dragão desajeitado. Vou quebrar lâmpadas esticando os meus braços, ainda que o teto seja baixo desde 2013 e eu devesse me lembrar. Vou me esconder por dias para escrever textos e imergir em mim, pois frequentemente pego me desconhecendo, ainda que eu sempre me estude. Vou voltar e talvez minhas atitudes demonstrem que não quero saber das coisas que aconteceram em minha ausência. Alguns dias, eu vou reclamar que não inventaram óculos de grau que ficam bem no meu rosto. Outras vezes, eu vou agir como o homem mais capaz do mundo e serei exatamente este homem com essa capacidade. Talvez quando o inverno terminar, bem, você possa notar que a minha invernia pessoal se estenda. Posso ser gelado ocasionalmente, embora minha natureza seja quente. Você vai se acostumar com os ovos no café da manhã ou vai embora. Eu mesmo posso partir eventualmente. Meu coração nômade é especialista em amar, mas poucas vezes não se ofendeu com amores. Sou assim, besouro verde na vida. Às vezes chego em uma vida e de cara percebem que sou especial. Outras vezes noto que reparam no que me torna único e me enxotam, mas sou um besouro verde com asas. Aprendi a não fazer questão de quem não faz questão de mim. A vida passa e as pessoas também e que se danem os monocromáticos. Talvez existissem mais besouros coloridos por aí, acaso a cor que os definisse não fosse tão severamente atacada. Eles opinam sobre tudo. Você vê que eles não entendem nada. Há dois mistérios nessa história. Fiz questão de apagar todas as fotos que tirei do besouro diferente e isso nem sei explicar. Queria que a singularidade dele fosse exclusivamente minha e hoje me pego compartilhando essa história sem meios eficazes de prová-la. Acredite quem quiser... 

    O segundo mistério é que eu tinha o costume de fechar a sacada do terceiro andar cedo. Não desejava a companhia dos besouros e eles se aglomeravam no vidro, mas jamais passavam. Dezenas ou centenas de besouros marrons ou pretos unidos como espécie comum com os bichos de luz fracassavam miseravelmente em entrar no meu apartamento, mas aquele besouro verde inventou um jeito. Na minha mente imaginativa, eu imaginei se o verde havia conseguido finalmente fugir para um lugar melhor ou se ele havia sido premiado com a cor exuberante por ser mais intrépido. Fui dormir naquela noite assim como vou agora. Seria fantástico se houvessem mais insetos coloridos lá fora.

domingo, 8 de setembro de 2019

O Fim dos Poetas

Perdidas no vácuo precedente à existência
Flutuavam no espaço espécies estranhas de flores
Coisa alguma tinha sua respectiva aparência
Ainda surgiam discretamente as primeiras cores
Um grito de ninguém ecoou de maneira serena
Vibrou na existência inexistente o primeiro poema
Qualquer coisa como magia
Antes do primeiro dia de tudo já nascia
Em 173 antes do nascimento do planeta
Houve uma explosão onde tudo foi exposto
Três mil e cem anos depois abri uma gaveta
E nela achei o meu verdadeiro rosto
Chamei-o de meu e chamei-a de alma
A última lembrança por volta de 1992
Explodi em uma fúria que nunca se acalma
Até que arrefeci e deixei a ira para depois
Ensinaram-me dentro de minha casa
Certas coisas certamente importantes
Aprendi a amar sob um confortável teto
Garoto curioso que não se contentava
Desprovido de ambições, mas sem ideias rasas
Oscilava entre seriedade e princípios infantes
Fui e sou próximo de qualquer coisa que dizem inexistente
Continuo por perto, pois sinto tudo o que me sente
Amigo do vento, das plantas e insetos
Flamejante, mas apenas brasa
Confiante, mas demasiado reto
Chama acesa que nunca se apagava
Na predominância da suavidade
Eu era puro concreto
Em 2000 e qualquer coisa fui triste
A Existência me humilhava de repente
Mantenha sua espada em riste, pois
Nenhum dano é permanente
Quando a gente é capaz e insiste
Combate tudo por um eternamente
que talvez faleça ao pôr do sol
Qual talvez se esqueça escondido no lençol
Caí e me levantei e caí de novo
De novo caí e me levantei vagaroso
Mais uma vez levantei apenas para cair
Ouvi de longe um cachorro latir
Lamentei o meu estorvo
Quase desisti de tudo por volta de 2018
Mas a vida é tão cruel quanto bela
Errei tantas vezes por ser afoito
Li meu destino ao fundo de uma tigela
De Nescau Cereal
Veja como a vidência é algo irracional
Você possui exatamente Nada
O que se perde quando está por um triz?
Não é percorrendo as mesmas estradas
que achará o caminho para ser feliz
Sincronicidade em sintonia
Não me vejo feliz, mas transbordo alegria
Às 22h22 em 29 de junho de 2019 no Brasil
Já era dia 30 lá no Japão
Tudo o que ontem a gente sentiu
Num tempo longínquo não gera a menor comoção
Tenha cuidado, mas não se afaste
Sempre que a vida gritar sobre os riscos e perigos
Às vezes é num jogo improvável que iniciaste
que fará verdadeiros e novos amigos
Alguns anos depois e ao último suspiro
O sentimento é de sorte, pois naquelas épocas
Ainda era inevitável receber o beijo da morte
A humanidade cometeria o erro
de impedi-la posteriormente
É o fim que define o rumo a se seguir
E determina a firmeza do que se sente
Em 2173 depois de Cristo o amor ainda existia
Embora tivessem sido extintos os poetas
Era um futuro onde todos de tudo sabiam
Todos os seres transformados em ascetas
Como, porém, podem não acreditar?
Eu perguntava aos homens futuristas
Se não existe vida sem o amor?
Suas faces repulsavam num esgar
Seguido por sorrisos matreiros de vigaristas
Cada um escolhe sua ilusão e sabor
Em 2425 depois de mim
Já não havia planeta Terra
A vida no planeta acabara, enfim,
Depois de resistirmos à Quarta Guerra,
Dentre os destroços e corpos queimados
Dentre pilhas de ossos e sonhos carbonizados
A personificação da mortalha e 
um vulto eterno de destruição
É um sonho que já vivi algum dia
Mataram os poetas, mas não a poesia
Resistiremos até a última respiração
Sobreviveremos (ainda que mortos)
Até as batidas findas do último coração...

domingo, 1 de setembro de 2019

Palavras que não encerram nada - Manhã de domingo

     Acordo e confiro o relógio do celular. O marcador mostra 7h19, mas pela cor do céu concluo que a atualização de software novamente bagunçou o contador de horas. São 5h19. Vou ao banheiro, mijo, lavo minhas mãos, saio e pego meu celular no quarto. Vou até a maior janela do apartamento. É um ritual em dias mortos essa aproximação do janelão. Garoa. O cachorro me segue. A gata também. Reflito que quase sempre eles se esforçam para equiparar suas rotinas com a minha. Vejo nisso um amor perfeito, totalmente livre de vícios. Movem-se até a sala e se prostram próximos, ainda que seja apenas para dormirem outra vez perto de mim. Contemplo a minha cidade e meus olhos descansam a tristeza que sinto na paisagem lúgubre que vejo. É algo que reparo em mim desde a infância. Quando estou triste e encontro algo ainda mais melancólico do que eu, admito sentir uma espécie de conforto no desconforto, empatia para com as nuvens, como se algo maior equilibrasse internamente o que visivelmente se desequilibra por fora. A vida é composta de oscilações e existimos essencialmente e com maior peso nesses intervalos para respirar. É o momento de fazer uma pausa. 
     Noite passada me esqueci de respirar. Francamente irritado, sem motivos, eu resolvi que era melhor cumprir com um capricho meu do que deixar de cumpri-lo. Vi-me em seguida numa situação constrangedora, mas pelo menos mantive meu recorde de nunca ter sido rejeitado por cães. Venci meu instinto de abraçar o animal. Perdi para meu outro instinto de fazer o que não fiz. Pouco antes disso, o que não era meu foi devolvido e me senti melhor assim. Quem dera fossem as pessoas simples como os cães. A expectativa de quem imagina como sou faz a vilania da minha imagem. Gente que não faz ideia de como sou é dotada de uma certeza arrogante de me conhecer. Tenho sido sensacional. Tenho sido um derrotado. Todos são tão ridículos quanto eu. 

     Descongelo. Apenas alguns segundos se passaram na vida real e minha mente funciona sem parar, ainda que meus olhos contemplem sossegadamente o horizonte. Tiro cinco ou seis fotos com o meu celular e me sinto honestamente feliz pela praticidade da câmera rápida. Coloco-as nas redes sociais, pois estão bonitas e já é costume meu. Há pouca gente acordada para observar o mesmo céu que eu vejo. A beleza deve ser compartilhada. Tive dois sonhos na última noite e nenhum tinha qualquer elemento de terror, mas acordei com o gosto dos pesadelos na boca, como se eu mesmo tivesse experienciado algo indescritivelmente ruim. A cidade me acalma. A chuva me conforta. Sou afagado por uma brisa ululante e gelada. Respiro fundo. Vejo tudo o que não me vê. Não idealizo. Toda pessoa é singular, ainda que muitos não reconheçam em si o privilégio. Respiro fundo mais uma vez. Sinto um alívio de alma, uma desobrigação quanto ao resto. O dever pesa em meus ossos. Tenho a obrigação de fazer o meu melhor incessantemente. Sinto-me extasiado, pois outra vez me sinto absolutamente no lugar certo. Escreverei até que meus dedos doam. A dor pelo dedo indicador cortado é amortecida com marteladas no teclado. Preciso escrever. 

     O Goomba sorri ao meu lado sentado em um livro de Fernando Pessoa que está no topo de uma torre literária. Há duas pilhas de livros no meu quarto. Contei vinte e sete livros somando cada pilha e todos estão completamente fora do lugar. Ainda assim me ofertam uma sensação estranha de paz. Aceito-a. Não sinto necessidade de colocá-los nas prateleiras já lotadas e nem sei se tenho mesmo local apropriado para guardá-los, assim, que fiquem ao meu lado, fitando-me, pressionando-me, para que eu seja capaz de publicar os meus próprios. King, Leminski, Rubem Braga, Wilde, Borges, Poe... todos e mais alguns me cercam, entretanto, não me ensombram. Tenho mais vontade de escrever do que ler, mas se nem sei qual é o meu tema, se me perco tanto assim, eu devo me consternar sobre o que há de errado comigo? É estranho, pois a maioria possui a praticidade do agir e deixa a desejar no conteúdo. Quanto aos meus sonhos, eu deveria estar adiantado, certo? Tenho mais de seiscentos textos e pelo menos duas vintenas são bons o bastante. Tenho três livros prontos e outros tantos em andamento. O que é que me emperra então? Outro dia "venci" um desafio impossível. Deslizei com perfeição, acertei frases perfeitas, dialoguei com desconhecidos com a facilidade de respirar em um dia perfeito. Ultimamente, porém, eu só me questiono sobre como tenho sido a personificação de um fracasso notável. Busco ser atingido na minha parte mais vulnerável? Tenho medo de acertar e conseguir uma vida mais feliz e estável? Alguém compreende essa minha necessidade de ser tão afável?

     Não me explico, pois sinto que não tenho explicação. Às vezes tento, mas geralmente desisto. Nunca insisto. Cada um enxerga aquilo que quer. Vejo seres humanos além de sua beleza física e de seu conteúdo emocional. Romantizam-se tal qual eu me romantizo (às vezes) também. Criam uma espécie de personagem e se enfurecem pelo fato de que a maioria é incapaz de ver além do superficial, mas quando há qualquer chance esperançosa, forçam-se no sentido oposto, fugindo do que mais dizem querer. Refreio-me na maior parte do tempo, mas hoje sou capaz de dizer o que concluí. Todo mundo possui um medo imenso de si mesmo. Todo mundo se escraviza e se mata por uma ideia de felicidade, restringindo-se de todos os jeitos possíveis. Idealizar a felicidade é uma estupidez sem fim, pois há milhões de maneiras imprevisíveis de sermos realmente felizes. O tempo, entretanto, atropela a tudo e todos. Chega como um caminhão desgovernado, ignorando nossos descansos e se fazendo valer. Se o tempo é inevitável e inevitavelmente perderemos a luta, qual será a melhor maneira de aproveitá-lo? Sempre tive uma noção grande do meu potencial agressivo, dominei minhas maldades. Outrora personifiquei a fúria para fazer o que ninguém queria fazer. Sujei minhas mãos. Fui feio e rude, mas justo. Hoje sou tranquilo, mas preso dentro desse estado soporífero, às vezes, concedo-me ao ceder, permito-me sentir raiva e irritação. O que me impede de buscar o que realmente quero? Nada. Busco ser um escritor de livros, busco alguém que me faça acreditar no Amor, ainda que seja um amor diferente do qual vivi ou idealizei. Busco alguém com quem possa silenciar junto sem sentir desconforto. Por que às vezes sinto que deveria sentir vergonha de pensar assim? A revelação do óbvio é tão chocante quanto a ocultação do que aterroriza? A gente deveria se envergonhar de querer aquilo que a gente acha que precisa? 

     Não atinjo todos os meus objetivos. Meus textos de ódio já despertaram admiração alheia. Meus textos de amor já despertaram uma raiva crescente que se incendeia. Talvez eu não transmita a mensagem exata, mas o que me mata é ver toda essa gente que escolhe perder. A gente se esforça, mas nunca evita o crescimento. A gente muda a cada momento. Não obstante, brinco bastante, mas não posso andar para trás. Não andaria ainda que pudesse. É domingo. Ainda chove e eu preciso comer, assistir ao jogo junto com meus amigos e depois jogar RPG junto com outros. Aproveito minhas partes. Amadureço. Cresço. Nunca me esqueço. Não serei mais covarde. Prometi solenemente olhando no espelho. Não posso me desperdiçar. No meu peito ainda ecoa o fim do mundo, a solidão das solidões na qual reino. Não há plateia para meus próximos espetáculos. Ainda assim preciso ser majestoso. É domingo e aguardei a chuva até que chovesse. Choveu. Lembro-me das palavras que um amigo disse, ainda frescas na memória: é hora de se arriscar e deixar a zona de mediocridade. Não tenho medo de falhar. Meus receios são outros e posso muito bem esmagá-los. É hora de agir. A mudança do mundo começa pela mudança em mim. 

     É tempo de sair do eixo? Acertar o costume e o comodismo com golpes precisos de impacto? Chegou, enfim, a hora de sacudir o mundo?