segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O segredo de Oz



     Prometer revelar o segredo de um mágico deveria ser o suficiente para atraí-los para esta leitura, porém, sou um bom ouvinte e costumo entender as pessoas; escutar os sons que produzem, assim, eu imagino que os que permanecerão aqui são menos da metade dos que inicialmente cogitaram ler. Revelo por antecipação que os magos, não só os que voam e invocam os poderes da natureza, mas também os que entendem de ervas e conseguem se comunicar com os animais e o mundo, são em regra, sujeitos muito simples. Eles não costumam dizer bom dia, são de ínfimos metodismos e odeiam a rotina. Suas carrancas de desespero são cômicas, suas expressões de fúria são incredulamente assustadoras, porém, quem viu um mago ou qualquer criatura capaz de fazer magia sabe do que há de mais notável neles: o riso. Aquele ser estranho, quiçá etéreo, gargalha tão espetacularmente que os pássaros riem em coro, acompanhando o fluxo de uma energia tão bela e pura. Geralmente são barbudos e possuem uma aparência suja, pois Deus se esconde no mendigo e o bom só é bom quando pratica a bondade sem expectadores.

     Outro dia, eu me encontrei com um mago melindroso. Seu nome ofende muita gente, pois assim me vejo obrigado a protegê-lo. Apesar dos meus esforços em defendê-lo, ele riu de mim até sua barriga doer. Escutou os meus dramas, compreendeu o meu sofrimento pelo menos até o limite qual é possível tentar, ofereceu-me um instante prolongado de luto, fechou-se em silêncio e rompeu aquele ritual padrão com uma risada sonora e ribombante. Corei e senti minhas bochechas esquentarem, mas evitei os espelhos para não me ver enrubescido. Os figurantes da sociedade me fitaram por um instante, como se aquele momento fosse derradeiro e eu, obsceno por ter chamado a atenção, ainda que involuntariamente, possuísse uma espécie de dever de me desculpar ou de me enaltecer pelas atitudes do meu amigo. Calei e me julgaram tão ridículo quanto o mago, que ainda soluçava de tanto rir. Por que fez isso? Perguntei sem ter a certeza do motivo pelo qual estava incomodado. Por que não? Ele me respondeu e se levantou. Eu quero tomar sorvete de flocos com cobertura de caramelo. Não tenho mais tempo para a sua miséria, exceto se tomarmos sorvetes.

     Sua maneira de ser persuasivo era estranha, creia-me, mas uma hora depois estávamos tomando sorvetes. Olhe, não, não olhe. Apenas escute. A insuficiência em si é que faz crescer o medo. A projeção do que queremos ser, justo em cima do que somos, e o que “ainda” somos sempre flertando com a ideia do que já deveríamos ser, é o que mais nos apavora. Não se trata de formação intelectual. A dúvida moral, os questionamentos, a necessidade de culpar alguém pela sua vida ridícula é o que te afasta de nós (os magos). Ser insuficiente aos olhos dos pais é frustrante.  Ser insuficiente aos amigos é desesperador, contudo, ser insuficiente a si mesmo é morte. Na hora do perigo, discretamente sua mente tenta fugir para alguém em quem confia para se apoiar. Frequentemente seu apoiador vira uma ilha para a fuga, seu escape no mundo. Um dia, quando você não precisar mais dele, você vai deixá-lo, pois a vida é assim. O fato de não ser divertido como deveria, inteligente como deveria, ter dinheiro como deveria, nada quer dizer. Nada é nunca como supostamente deveria. Veja, não, não veja, apenas escute. Viu como eles me olharam quando eu ri alto na lanchonete? É a ideia se formando ao redor de você e se apoderando, como um chiclete que gruda no cabelo. Você arranca pedaços do chiclete e ele se vinga. Não raramente ele deixa uma marca feia, pois tudo o que gruda por tempo suficiente dá trabalho para sair. Não é necessário ser apenas uma direção, enclausurado em expectativas de pensamentos medíocres. Você pode ser tudo. Segure na mão uma estrela cadente. Devore o mundo.

     Ele disse que ia ao banheiro e desapareceu. Aquilo me divertiu, pois me lembrei de um amigo que não via há anos. Entretanto, eu mastiguei seus conselhos lentamente e tentei achar sentido no sentido que já havia, piscando como um letreiro luminoso em uma noite de escuridão. A jornada de Dorothy até Oz, a estrada dos tijolos amarelos e os desejos melancólicos de seus companheiros saltaram em minha mente. O leão covarde, quando percebeu a situação adversa, virou-se e rugiu. Não notou sua coragem, mas o ímpeto em proteger seus amigos havia lhe feito ser o que no fundo sempre fora. O espantalho, pobrezinho, tão estúpido, foi quem organizou o plano sem falhas para que sobrevivessem e o homem de lata, terrível, não fez mal a qualquer criatura. Assim somos nós. Na jornada pela busca da transformação para sermos quem desejamos ser, às vezes, não damos conta do que somos. Valorize-se! No desejo profundo em sermos alguém diferente, esquecemos que nascemos especiais. Se lhe amaldiçoarem, retruque com um palavrão inventado. O segredo de Oz é que ele conhece o coração das pessoas e lhes revela suas qualidades como o espelho revela a imagem refletida. Às vezes já somos quem desejamos ser. É preciso ter amor próprio. E respeito. O segredo dos demais magos, eu ainda não descobri, mas creio que tenha relação com mirar o impossível e transformá-lo. Ontem mesmo, eu quase peguei uma estrela cadente. Foi por um triz! Quem sabe eu não fosse hoje um mago barbudo? Quem sabe um dia, se eu não acabar me consumindo por tantos pensamentos cruéis e fugazes, eu mesmo não me alongue bem pelas manhãs e devore o mundo no ocaso.  

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Relato do Catador de Restos

     Andei pelo centro de minha nova cidade sentindo saudade da velha qual jurei não retornar. É que o cheiro da antiga era discreto e minhas narinas, defeituosas e levemente funcionais, ainda conseguiam passar sem que eu sentisse novidades. Tive pavor de tudo o que era novo, pois o meu mundo era redondo, suave e agradável. Quem encontra um lugar de calmaria nesta imensidão, vez ou outra, deseja apenas retornar para o que é sossegado e bom. Não importa se esse lugar de calmaria é um quarto bagunçado, pois se é o seu lugar, ainda é mágico. Não importa se esse lugar existe meio aos solilóquios de um dramaturgo, garanto, ainda é mágico. Não importa se sua calmaria é uma pessoa exagerada e cheia de falhas de caráter. O riso fácil do qual sente falta lhe dirá o caminho. Há, porém, estradas sem curvas ou pontos para retorno. Por onde andar quando, sua cabeça e seu coração divergem e, os caminhos seguros são impossíveis, os seus antigos lares estão do outro lado do oceano de sua existência e o que é impossível acaba se tornando sua melhor expectativa de probabilidade na esperança?

     Intervalo. Fui ajeitar minhas pernas e bati meu joelho com força na mesa nova. Faz dez minutos, mas meu joelho continua dolorido e a mesa, impecável e linda, ainda está intacta. É motivo de contentamento. Se meu joelho velho quebrasse a mesa nova, eu talvez perdesse o rumo de meus pensamentos nesta noite, mas a vida seguiu como deve seguir. Imergi novamente e me lembrei de como tudo costumava ser. Fujo do que pode ser dolorido, mas inevitavelmente corro para o conforto das boas memórias. Todo mundo possui sua própria Estrada para Locais Seguros. Mergulho em mim, ou melhor dizendo, percorro-me. Quis de tudo nessa vida, mas sempre me indagava sobre a necessidade de querer ter o que eu queria. Nunca se utilizaram das duas versões comigo, embora, eu cansativamente tenha oferecido a oportunidade que todos se explicassem. Sofro o que existe, pois sou tão real quanto posso ser. Você teve dificuldades em aprender? Às vezes o que parece não é, e o que é, de todo jeito, é menos do que parece. Já foi enganado pela segurança de achar que sabe mais do que sabe, só por ter medo de não sabê-lo na integralidade?

     Amedrontado, eu me fugia. Quando me encontrava, corria. Quando criança, chorava. Quando adolescente, rugia. Que era eu ou que pensava ser? Um típico carneiro desferindo cabeçadas nos leões oportunos que tentavam se alimentar de mim? Não, diziam, você é um garoto e será sempre um garoto de pés sujos olhando para mundos que sequer existem! Rápido na sinceridade, devagar no raciocínio, excessivamente sensível até para os poetas falsos. Seu nariz, é bom que saiba, sempre será incapaz de captar os cheiros. Seus olhos não veem nada, tu sabe, no fundo da alma ainda é um garoto frágil e indefeso. Tento correr de volta. Quero minha Estrada para Locais Seguros. Tento dormir para me distanciar da pungência da dor, mas sigo insone. Fui traído pelos ditados populares: o tempo nunca curou minhas feridas. Cerrei os punhos e desafiei Deus e o Universo, anunciando, enfim, meu estado de loucura. Havia perdido para o mundo ou ganhado? Quem sabe dizer? Mas naquele momento foi o meu escape, a única fuga que eu precisava para correr até que não me restasse mais fôlego. Quando caí estirado no chão, dormi num sono profundo e sem sonhos. Quando acordei, infelizmente estava completamente lúcido, suspirei e chorei. O momento da jornada do fraco se decide aqui e sabia que, permanecendo ou não, eu era fraco e também forte. Tenha coragem, Daniel. Sussurrou um leão imaginário. Você já lutou com dragões maiores do que esse. Não é hora de uma reviravolta? Meus heróis, todos frutos de fantasia, se uniram para ecoar o cântico do meu renascimento insurgente. 

     Limpo a poeira da minha calça e com as mãos sujas de terra, eu seco minhas lágrimas. Essa é a minha história e eu me tornei um mero expectador. Há coisa mais deprimente? Sou o catador de restos, sempre perdido e confuso. Eu me alimento das sobras que me deixaram, pois, alguns acharam que possuíam o direito de determinar quais são os tesouros que eu mereço. Não mais, digo. Nunca mais e nunca novamente, repito. Essa é a minha história e eu sou o herói. Eu me recuso, anuncio. De agora para o resto dos meus dias, sejam eles muitos ou poucos, eu não sou mais o melancólico catador. Errei quando errei e me desculpei - fiz o que pude, basta. Acertei quando acertei - fiz o que pude, basta. Lamentações pela perda de algo irrecuperável? Já tive meu momento quase infinito de dor. Aprendi também que tudo que é passado é irrecuperável. É aqui que a onda quebra e que volto a ser mar. É aqui, no limite do que quase não deixou de ser, é que eu aprendo a ser mais uma vez, recomeço. Eu quis abraçar velhas partes que não existiam, pois tinham dado lugar ao que era novo. Eu também já não era mais quem eu havia sido: minhas roupas, meus pensamentos e meu jeito de andar haviam mudado. Quando foi que eu aconteci? Irrelevante. Essa é a pergunta errada. Sigo incomodando, mas não mais incomodado. Eu cutuco lagartas e elas se transformam em borboletas. Sorrio. Talvez esse seja meu dom. Ainda que voem para longe de mim, eu as contemplo com orgulho. Fiz parte da transformação e é motivo de alegria. Este herói agora tentará descansar. Quem sabe em um dia típico de inverno, cinzento e lúgubre, após uma garoa discreta, encontre eu a felicidade de maneira despretensiosa, onde nunca ousei procurar. Quem sabe não exista um mar verde e deslumbrante nos olhos de uma pessoa desconhecida? Nunca mais procurei, mas ainda observo com atenção tudo o que há em meu caminho, sei nadar. Quem sabe em um dia qualquer, eu ache algo que me sorria e valha a pena... Até lá sigo sozinho, mas hoje minha alma é serena.

domingo, 28 de outubro de 2018

O que trouxe para casa


     A manhã deste domingo foi terrível. A noite passada, péssima, revelou presságios do dia seguinte. O que estava por vir não poderia ser bom e não me refiro aqui aos presidenciáveis. Digitei em frenesi minhas frustrações e chorei como um bebê. Não nego que também sou um homem de oscilações, mas não sou de choro (ou não era), entretanto, as lágrimas escorreram. O café acalmou minha língua com o afago de seu gosto amargo. O açúcar só me faria irritar mais. Esbravejei mudo, cogitando quebrar tudo, mas consciente de que o prejuízo seria exclusivamente meu. Renove-se na temperança, sou capaz, certo, mas o que é que se pode fazer quando o motivo pelo qual sofre vai além daquilo que você pode controlar?

   Nada, óbvio. A constatação, porém, é inútil, pois não ameniza a dor. Estive inteiramente machucado hoje. Não esperei por empatia. Empatia não há. Não esperei compreensão. Estou acostumado a ser incompreendido. Esperei por calma e ela também não veio. Desejei que alguém me acalmasse e não havia alguém. Admiro o sossego, a tranquilidade e até o calor que se produz entre dois corpos quando o frio é insuportável demais. Quem não gosta de uma companhia boa? Quem não gosta de alguém disposto de verdade? Quem não sente falta de sentir falta? Soube que nada em minha casa me entreteria. Troquei de roupas quatro vezes, pois não conseguia me decidir se queria sair. Cogitei ir ao cinema, tomar sorvete ou correr. Optei pela terceira alternativa. Ao correr, porém, vi o quanto estava difícil observar o mundo. Não, eu não deveria acelerar as coisas. O momento era de passear e contemplar. Talvez existisse uma forma de encontrar alegria nas coisas que existiam por existir e que, ainda bem, estavam livres do controle de qualquer pessoa.
     
    Observei, enfim, o que havia. Ouvi primeiro. Os meus tênis mastigaram a areia vermelha e dura num croc-croc que me fez ter vontade de comer Fruit Loops. O chilrear animado das aves me animou. Segui e sorri, pois, vi duas araras cruzarem o céu. A sincronia delas era perfeita. Um avião também passou por cima de mim. O homem também faz coisas fantásticas. Meu coração estava mais quente e me senti acolhido pelo mundo. Talvez encontrasse um gato para adotar. Continuei a caminhada. Catei uma pedra comum, mas notei que até ela tinha seu formato próprio. Catei uma flor murcha do chão e me indaguei sobre o tempo que dura à beleza das coisas. Enfurnei-me para dentro dos bairros, contando as quadras para não me perder. Pensei em comprar ovos no mercado, mas o encontrei fechado. Olhei para os terrenos baldios e matagais, buscando um gato para ser meu companheiro de residência, mas encontrei um coelho branco (maior que a maioria dos gatos) de olhos verdes avermelhados. Dei dois passos em sua direção e ele se afastou. Como parecia assustado, eu o deixei em paz, mas veja, contemplando o mundo com tanta atenção, eu me esqueci de devanear. Quem sabe ele não estivesse me mostrando o caminho para o País das Maravilhas?
     
    O passeio chegava ao fim, mas tive tempo de fitar uma pomba nos olhos. Ela estava sentada em frente ao portão de uma casa e me encarou como se eu fosse idiota. Talvez ela estivesse certa e concluí que era hora de voltar para casa. Vi uma dúzia de crianças brincando na rua, a maioria delas concentrada no jogo de bets. Vi uma rosa vermelha de beleza cinematográfica qual me remeteu ao filme A Bela e a Fera. Não a encostei. Algo tão naturalmente lindo pode ficar como está. De repente me senti aliviado. Estava tudo bem agora. Dei algumas voltas pelo bairro e com meus próprios olhos pude contemplar o que é belo, sem precisar que toda aquela beleza me fosse explicada.
     
    No meu retorno para casa, notei que as minhas frustrações pela manhã, nada mais eram que pedras no meu caminho e que algumas delas não podiam ser quebradas ou removidas. A responsabilidade de trocar de rumo, quando o anterior se torna impossível de percorrer, é singular. Entro em casa e bebo água, como um pedaço de chocolate e revivo mentalmente todo o meu percurso. Esvazio meus bolsos e retiro deles a flor morta e a pedra ordinária. Olho para essas inutilidades com carinho e uma convicção firme se forma em minha mente. Eu trouxe para casa quase tudo, ainda que não tenha recolhido nada mais. Só deixei para trás a rosa vermelha mais perfeita e um coelho potencialmente mágico, mas tudo certo. Amanhã é um novo dia para acreditar em magia. Tudo vai ficar bem mais uma vez. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sua loucura é linda

Andaram dizendo que eu sou louco
Pois não entendem o meu modo de agir
Ajo como desejo e me livro do sufoco
Quebro a ira com o ato de sorrir

Louco é quem aceita a normalidade
Vive como o resto do mundo
Somente mais um vagabundo
Vagando pela cidade

Uma garota distraída passa
Ao longe pensa numa outra dimensão
A janela da minha alma embaça
Acelera a batida do meu coração

Ela é fúria, alegria e tristeza
A onda calma e o mar em tormenta
Seus gestos distantes são repletos de beleza
Meus impulsos só aumentam  

Os olhos dela me lançaram magia
Fizeram com que eu me sentisse vivo
Está soturna, mas sua forma ainda é poesia
É neste instante tudo o que preciso

Então venha

A sua cólera é encanto
A qualquer tempo e hora
Sua ofensa aqui é bem-vinda

É pra ti que eu canto
Perceba sem demora
Sua loucura é linda

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A falta que me faz

      Não creem a falta que ele me faz. Pensam que capazes de compreender? Tolos! Querem saber o que ele significa? Prometi que não contaria, mas o sussurro de um trovão me dissuadiu. Apareceu como um herói, de súbito, em um momento qual eu passava por grandes dificuldades. Confesso, por uma necessidade estúpida de ser sincero com quem me acompanha, que a surpresa causada pela sua primeira aparição me deixou irritado, ainda que eu soubesse de sua chegada. Ele era de uma branquidão hollywoodiana: irradiava vaidade e era diferente de tudo o que eu conhecia. Sua aparência me deixava irritadiço, mas não me enraiveci, não com qualquer ódio real ou digno. É claro que eu sabia que ele não tinha culpa de sua beleza. Ainda assim toda aquela mistura de emoções me acometeu. A sensação de desconforto equiparava-se talvez àquela da pedra pontiaguda que entra dentro do sapato em um momento crucial. Você não pode parar de se mover, portanto, deve carregar o fardo doloroso. Desde a primeira vez, ele foi incomodamente solícito e amigável, colocando-se à minha disposição. O tempo me faria valorizado. 

      Quando alguém, seja qual for sua forma ou jeito, surge em sua vida e se prontifica a ajudar, o instinto nos leva a recusar sua mão amiga e até sua presença. Há uma ferocidade orgulhosa e banal em cada um de nós. Funciona como uma espécie de potencial bélico e combativo, aguardando por uma oportunidade de saltar do escuro, assustar e ferir. Não há placas, mas lê-se em muitos pares de olhos a inscrição: Afaste-se! Cuidado! Cão bravo! O interlocutor não possui tempo e disposição para ouvir um romancista falar de romance, um arquiteto falar sobre casas ou um desconhecido discorrer sobre cães e gatos, ainda que todos os de bons corações amem os cães e gatos. A disposição, assim como a boa vontade, é seletiva. Esses grupos de pessoas, convencidos de que são mais do que são, decididos de que não precisam ser mais do que acham que devem ser, não se envergonham de quaisquer atitudes. Atentos e prontos, zombam as opiniões, sonhos e desejos alheios. O meu amigo branco tinha belos olhos opacos e nas noites trevosas, infinitas ou fugidias, era impressionante como brilhavam em um fulgor antinatural, lumiando todo o breu e mostrando os caminhos. Diferente dos outros quais citei, meu amigo não zombava os outros. Foi percebendo sua magnificência que comecei a sentir ciúmes dele. Ainda que eu fosse sua pessoa favorita, ele me garantia, era alguém que estava disposto a ajudar a todos, pois não era egoísta como eu. Assim logo se tornara amigo dos meus amigos e alguém importante para minha família. Só desejava ser útil.

     Passei a valorizá-lo como ele sempre mereceu. Passeávamos juntos, cantávamos juntos, estávamos juntos. Houve um dia, perto da minha segunda escola, qual fitei o céu estrelado em sua companhia. Creem que alguém maravilhoso assim não tivesse apreço pelas estrelas? Sempre dizia que seus olhos estavam em linha reta, como o poema de Fernando Pessoa, encarando o mundo de frente. Eu e ele inclusive recitávamos o poema em uníssono, tendo ele, claro, memorizado antes. Ó! Como às vezes deixamos escapar os grandes amigos. Há centenas de impressões erradas, certezas fundadas em argumentos falhos e sem fundamentos, mas que se valha a Lei da espada e do aço. Corte seco e fatal. Ó, meu amigo. Hoje sei dar valor, embora jamais prometa meu amor! Quem é louco de prometer algo que está, quase sempre, fora de qualquer controle?

      Ele agora está terrivelmente doente, mas não falharei em lhe ser útil, como sempre me foi. Os médicos, repletos de insensatez, divergem sobre a natureza de sua doença, porém, este amigo nunca falhou em acreditar em sua cura. Ficará bem, amigo. É forte, mais do que sonha, mais do que supõe. Ficará bem, amigo, e se não ficar, saiba que aqui, eu vou sempre sentir o efeito de sua ausência e a falta de seu companheirismo.  Você foi o melhor de todos. 

Obrigado por tudo, New Fiesta 2014.
     Nem tudo é o que parece. Este foi apenas um exercício diário de escrita. Agora que está concluído, eu reflito que, embora seja útil exercitar minha capacidade de escrever, este texto em particular não diz e nem quer dizer particularmente nada, pois eu deveria ter lavado a louça antes e dormido mais cedo. Boa noite. 

     O NFFSB olhou para o texto, achou ridículo e piscou seus faróis.
- Era só um problema de embreagem, irmãozinho. Você vai gastar mais de R$ 1.000,00 para salvar a minha vida, mas estaremos juntos outra vez. 

     É um preço muito alto. Talvez tenha chegado a hora de dizer adeus ao meu bom companheiro. Todo o meu discurso para, no final, sumir com a vaguidão do que não pode ser mais. Eu mudei de ideia. Até os bons amigos dizem adeus, então, eu vou para uma terra onde possa andar de bicicleta. Hasta Luego. 

domingo, 21 de outubro de 2018

O homem que matou o charme

       Mato meu charme. Tenho alguma beleza, não daquelas que me tornam realmente lindo aos olhos dos outros, mas que me tornam bonito em um senso comum. Reconheço-me com esta forma e me aceito. Não sou um dez, mas tampouco desejo sê-lo. O que importa, porém, não é isso. Um cara com a minha beleza e que saiba utilizar seu charme sabe ser quase sempre irresistível e fatal. Eu não ambiciono ser minimamente charmoso, uma vez que conheço todas as maneiras de matar meu charme e desconheço sequer um jeito eficaz de me impedir. Não consigo parar antes que minhas mãos estejam ensanguentadas.

   A metáfora soa pesada, porém, é exatamente como me sinto. Se, sou bonito (repito, não exageradamente), tenho um corpo qual me agrada e sou “suficientemente” inteligente, pois, como é possível acabar completamente com o próprio charme? Revelo a maneira: palavras! As mesmas palavras que seduzem, invariavelmente, podem ser palavras que chacinam. Em regra, sou escritor, mas minha eloquência é quase inexistente para com os desconhecidos. Quando não me dão intimidade, não a peço e tampouco a imploro. Nas conversas virtuais, todos reparam o fato de que sou prolixo. Quando me encontram, porém, se surpreendem com o quanto posso ser calado e introspectivo. Veja, não é que eu seja duas partes de coisas diferentes, mas que eu seja duas partes diferentes da mesma coisa. Subitamente me interesso por algo qual faz meus olhos brilharem de paixão e, se tenho uma chance de me aproximar, bem, eu me aproximo, é claro, desde que isso não me faça trair meus princípios. Há dragões que simplesmente existem belos e deitados em meio a rios de ouro. Contemplando-os, surgiu uma indagação na minha mente. São maravilhosos, por certo, mas se são tão belos, vale uma vida deitada em uma pilha de riquezas quando se pode voar pelos céus? A sensação de conforto no luxo é tão poderosa assim? Gargalho ao notar meus próprios pensamentos. Consterno-me ao me localizar dentro de minhas próprias percepções. Sou um tanto ridículo.
       
      Nunca me ensinaram a dialogar com maestria, assim como seis meses de curso de inglês aos nove anos de idade não me fizeram falar o idioma. Meus amigos à época certamente possuem certificados, mas eu passava minhas tardes em casa assistindo Invasão Anime na Fox Kids. Talvez nosso inglês em um duelo rivalizasse forças, porém, eles jamais aprenderão o que eu aprendi com os “desenhos japoneses”. Sorrio. Estou em um bar com um amigo. Uma garota me pergunta se eu estou com o loiro lindo. Dou um sorriso largo toda vez que penso nessa frase. Ela se insinua pra mim, assim como ficou claro que se insinuará para o meu amigo loiro e lindo, mas esses flertes inocentes me soam cômicos. Ela fala que está em um relacionamento aberto, à distância, depois toca meu peitoral. Eu dou risada. Não tinha reparado nela até que ela falasse comigo, mas agora é provável que eu não repare nela para o resto do ano. Não faço do ato dela um ato de vilania, até porque ela já estava alcoolizada. Talvez se ela tivesse me perguntado sobre dragões e fadas; cafés e chás; bolos bem doces ou a maneira que gosto de comer macarrão; sobre filmes marcantes ou livros emocionantes. Mas ela só quis saber do que não me interessava. Agradeci ao Universo, pois ainda poderia ser pior. Imagine que nestes tempos sombrios os números 17 e 13 causam tantos arrepios! Aos que me perguntam sobre meu voto, minto propositadamente, sabendo os deles, apenas para tumultuar e causar alvoroço. Aprecio o fato de ser rotulado imediatamente por pessoas que, na realidade, me desconhecem completamente. Querem descobrir minha identidade por meio de opções políticas? Rasos! Controlo a vontade de gargalhar, mas sorrio como alguém que se descobriu repentinamente com sorte. Penso no altruísmo de oportunidade e na oportunidade de consagração com a opinião popular. É tempo de unir forças, mas há confusão nítida entre enaltecer a causa e se enaltecer pela causa. O ciclo se repete. Quem são os inimigos? Eu penso o que eu penso ou penso o que pensaram por mim? Os inimigos, de fato, existem?

    Claro. Os tais inimigos são, na verdade, tão somente opositores. A imagem que gera o asco, quando não é sincera, provoca-nos náuseas secretamente. Pois bem, vai ousar gritar o que não se admite ouvir sequer em sussurros? Os dias parecem iguais, mas são ligeiramente diferentes. A vida vai indo, como só vai, o fluxo é ininterrupto, embora, as breves pausas sejam perceptíveis. A vida vai indo, como só vai, e, se não canalizar sua atenção no presente, vai se acostumar a se contentar com o que sobrou. Se você fosse um navio já haveria soçobrado; agradeça que seus pés tocam o chão e que as quedas não são definitivas. Levante-se e esteja preparado. 

     Ainda estou no bar. Mais de três pessoas já me disseram que este não é o meu lugar, pois eu tenho cara de lugares mais requintados. Repudio este comentário. Tenho apenas uma face e que ela me sirva a todos os lugares ou nenhum. Não há tantas belas pessoas hoje; tampouco há pessoas interessantes. Eis que me vejo cercado, mas me sinto liberto. Gostaria de conhecer uma pessoa de verdade e perguntar sobre o que a emociona e o que a faz feliz. Também é provável que eu perguntasse se ela bebe refrigerante e se o tereré lhe tira o sono. Contaria o dilema do furacão e aguardaria pela resposta; gostaria de saber se é o tipo de pessoa que divide ou não seus hábitos. Não julgaria quaisquer palavras. Aqui reside a mágica. A honestidade nos assuntos não vulgares, que me soam ligeiramente mais interessantes, afastaria todo o meu charme. Meu interlocutor me teria por um bobo afetado ou por um estranho. Se, mesmo de longe, alguém passasse perto de me entender, me olharia com desprezo e depois com admiração. Não perguntaria “Por que”, mas sim “Quem”? Eu me alegraria, pois seria a primeira pergunta relevante no último trimestre. “Sou aquele que não pode e tampouco sabe se quer seduzir alguém. Sou o homem que matou o charme, mas que jamais vai esquecer o seu nome”. Olharmo-nos-íamos felizes, cônscios de uma verdade fatal, que o restante do mundo jamais conheceria. Ainda que fôssemos pobres coitados, o momento seria de compartilhar riquezas invisíveis e até os dragões luxuosos sentiriam inveja da franqueza daqueles espíritos. 

     Pois bem, eu mato meu charme, todos os dias, mas dou a devida liberdade à minha alma. Mato meu charme. Não preciso dele. Tenho um nariz perfeito, disse a mulher da agência de modelos uma vez deixando claro que era minha única parte bela e singular. Nunca voltei. Ela não sabe do desvio de septo, da rinite e da adenoide. Claramente ela não sabia ver uma pessoa. Como pode saber sobre qualquer tipo de beleza? Meu nariz não é bom. Mato meu charme de novo, mas valho-me da alegria cotidiana. Sou uma pessoa que conhece a liberdade e isso me basta. Serei feliz em quinze minutos quando estiver bebendo meu café, solitariamente. Em seguida, serei feliz lendo os meus livros. Serei livre enquanto viver a minha vida, sem precisar me provar aos outros, pois tenho liberdade nas minhas atitudes reais e também nas sonhadas. Quem sabe um dia sejam todas as pessoas livres assim? Utopia. Na intenção de adquirir a liberdade, alerto, às vezes é preciso sujar as mãos. Mato meu charme de novo e os charmosos todos se perguntam... "E daí?"